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“Aqui para ficar. Aqui para lutar”: O florescer de uma luta anti-fascista | parte 3

Written by anarcopunkORG

* por Marina Knup | trecho do texto publicado em formato livreto pela Imprensa Marginal, 2015

Parte 1: Racismo, Imigração, Skinheads e Paki-Bashing

Parte 2:  Auto-organização e auto-defesa antirracista e racismo policial

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Southall, 1979

Nas Eleições Gerais de 1979, a National Front emplacou 303 candidatos, o que não só colocava o partido em outro patamar na política nacional, como lhe dava o direito a tempo no rádio e televisão. Em resposta, a ANL e seus apoiadores se apuseram à NF em todos os lugares em que fizessem comícios eleitorais.

Em abril, a National Front realizaria um comício eleitoral no Southall Town Hall, o que foi considerado como uma provocação, já que Southall tinha uma das maiores comunidades asiáticas do país. Um dia antes do comício, cinco mil pessoas marcharam até Ealing Town Hall para protestar contra a NF, entregando uma petição assinada por 10.000 moradorxs. No dia seguinte, 23 de abril, lojas locais, fábricas e transporte público pararam em greve a partir das 13hs, e a rua foi bloqueada. Mais de dois mil policiais foram proteger os apoiadores da NF, em muitos casos escoltando-os até o local. Pouco depois, conforme Balwindar Rana relembra, ‘(…) um ônibus passou, com skinheads dentro, fazendo sinal de V. Alguns dxs jovens asiáticxs começaram a brigar com os skinheads, e a polícia respondeu agredindo xs asiáticxs.’. Com participação de centenas de manifestantes, este ato se tornou uma batalha com a polícia, que teve 40 pessoas feridas e 300 presas. Pelo menos três pessoas tiveram traumatismo craniano, e outras foram espancadas até perderem a consciência. Militantes anti-racistas passaram a noite toda resgatando garotxs asiáticxs que foram presxs pela policia e que, após apanharem, eram jogadxs nos arredores distantes de Londres. 

Blair Peach, um professor que fazia parte da Anti-Nazi League, morreu com ferimentos na cabeça causados pela polícia. Na televisão, políticos e “especialistas” condenavam a população de Southall pelo ocorrido, exibindo apenas imagens de policiais feridos. No sábado, quinze mil pessoas marcharam em memória de Peach, e durante a semana que se seguiu, foram muitas as discussões, panfletagens e atividades.

Seu enterro, no dia 13 de junho, foi acompanhado por dez mil pessoas, e no ano seguinte outras dez mil marcharam por Southall em sua memória. Uma escola recebeu seu nome em homenagem, e outras atividades foram organizadas desde então. Neste contexto há também o surgimento do Southall Monitoring Group, em meio a uma campanha para que os assassinos de Blair Peach fossem julgados. O trabalho principal do grupo era o monitoramento de ataques racistas e atividade policial. Outro grupo que surge em meio as manifestações por Blair Peach é o Southall Black Sisters, que se engaja diretamente na luta contra o machismo e pelo direito de autodefesa da mulher.

Akhtar Ali Baig

Mais um assassinato que teve grande repercussão foi a morte de Akhtar Ali Baig por uma gangue skinhead em julho de 1980, na East Ham High Street. Baig foi parado por dois garotos e duas garotas de 15 a 17 anos e esfaqueado no coração por Paul Mullery, de 17 anos. A polícia tentou descrever o ataque como não racista, mas testemunhas seguiram os skinheads até uma de suas casas permitindo que fossem identificados. Dois deles eram conhecidos por professorxs da Plashet School que já haviam ouvido comentários racistas e presenciado ataques a asiáticxs na escola. A polícia também encontrou material nazista, da National Front e menções contra paquistanesxs no quarto de um dos membros da gangue.

Logo após o assassinato, 150 jovens asiáticxs e afro-caribenhxs marcharam até a Delegacia de Policia Forest Gate, mas a polícia se negou a dar qualquer informação. Neste contexto é formado o Newham Youth Movement, chamando manifestações em massa que levaram a muitas prisões. Em 19 de julho, 2500 pessoas seguiram em passeata por Newham, com mais vinte e nove prisões após conflitos com a policia. A segunda manifestação foi organizada pelo Newham Youth Movement e o Steering Committee of Asian Organizations, e foi apoiada por mais de 5 mil pessoas. A pressão para que o racismo não fosse ignorado era grande, e por fim o juiz concluiu que o assassinato foi “plenamente motivado por ódio racial”. – “Tudo por uma merda de Paki”, disse Paul Mullery no julgamento.

A partir de uma campanha comunitária por justiça logo após seu assassinato, surge o Newham Monitoring Project, com o propósito de monitorar ataques racistas e a resposta das autoridades policiais e locais. Como até mesmo as autoridades locais admitiram em 1981, os ataques racialmente motivados eram muito comuns, atingindo cerca de 60 vezes mais as pessoas negras/asiáticas do que as brancas. Em abril, ocorre uma revolta em Brixton logo após um incêndio fatal, com reivindicações da comunidade de que a polícia investigasse suas causas, já que acreditavam ter sido um ataque racista. A polícia agiu de forma truculenta e fez diversas prisões.

As revoltas de 1981

Cada vez mais, as comunidades asiáticas iam se organizando e nenhuma violência racista acontecia sem resposta. Julho de 1981 é lembrado até hoje pelas diversas revoltas populares que ocorreram no Reino Unido durante o mês. Logo em seus primeiros dias, em 4 de julho, estava marcado em Southall um show com as bandas Oi! The Business, The Last Resort e 4-Skins na Hambrough Tavern, e centenas de skinheads vieram de diversas partes de Londres para ir ao show. Segundo testemunhas da comunidade, no percurso janelas de comércios asiáticos foram quebradas, slogans da National Front pixados, lojistas asiáticxs e outras pessoas foram agredidas nas imediações da Broadway, a caminho do pub. A Southall Youth Movement foi alertada por moradorxs locais, e coordenou uma resposta imediata e massiva, reunindo em pouco mais de uma hora uma enorme quantidade de ativistas e apoiadorxs em frente ao bar. Ante a falta de resposta da policia aos pedidos de que o show fosse parado, xs jovens começaram a forçar fisicamente a saída dos skinheads. Uma enorme batalha com a policia começou, e moradorxs da área quebravam seus próprios muros em solidariedade, passando tijolos para xs jovens e apoiando xs feridxs. Centenas de jovens asiáticxs locais jogaram bombas e incendiaram a Hambrough Tavern, deixando tudo em chamas.

Os restos queimados da Hambrough Tavern se tornaram um santuário da resistência da comunidade aos ataques racistas e uma cena de alegria para a comunidade local. O Incêndio na Hambrough Tavern enviou um sinal pelo país de que Southall era uma área imprópria para racistas e de que a comunidade asiática iria se erguer e defender a si mesma.1

Alguns dias depois, o clima de tensão foi aumentando. No dia 9, surgiram rumores da ameaça de ataque a um templo sikh onde aconteceria uma reunião da Anti-Nazi League. A policia pedia aos comerciantes que protegessem suas lojas devido ao eminente ataque de skinheads, enquanto grupos de jovens saíram às ruas para enfrenta-los. No dia seguinte, mais uma vez a policia avisou a comerciantes que cobrissem suas janelas com tábuas, e nas proximidades de Hounslow e Handsworth todo o comércio estava coberto com pedaços de madeira. Em Handsworth, a policia informava que um grupo de skinheads vinha do leste de Bromwich para atacar. Na mesma noite, uma gangue passou por Chapeltown aos gritos de slogans racistas e de torcidas organizadas de futebol, destruindo vidraças de comércios. Em Southall, centenas de jovens asiáticxs, caribenhxs e brancxs saíram em passeata, e um violento confronto aconteceu com a polícia, com destruição de carros e viaturas incendiadas. Em Woolwich, cerca de 300 pessoas saíram às ruas para impedir o ataque, que não aconteceu, acabando em mais um confronto com a polícia. No mesmo dia, em Brixton, um homem foi detido após impedir uma abordagem policial abusiva na rua, gerando novos conflitos.

Em Luton, jovens de diversas etnias caçaram os skinheads que se reuniam no centro da cidade, atacando a polícia que os protegia e destruindo a sede do partido conservador. Havia ali um ativo movimento contra o racismo, e nesta época ocorreram muitos ataques racistas, incluindo um ataque em uma mesquita e um templo Sikh. Em maio uma marcha anti-racista organizada pelo Luton Youth Movement foi atacada por cerca de 30 skinheads racistas. Mais tarde, o mesmo grupo atacou uma mulher asiática e duas crianças na Avenida Pomfret. Durante as revoltas de julho, jovens negrxs, brancxs e asiáticxs de Luton atacaram um bar frequentado por estes skinheads e houve confronto com a polícia no Bury Park. No dia seguinte, rumores de que um festival em High Town seria atacado motivaram uma manifestação que terminou em um conflito violento com a polícia, com coquetéis molotov e muitas prisões.

Em Toxteth, um jovem negro foi acusado pela policia de ter roubado a moto que dirigia. Outro homem negro intercedeu e acabou sendo preso, culminando em confrontos com a policia, barricadas e incêndios nos dias que se seguiram. Quase como num efeito dominó, outras muitas regiões com grande população não-branca foram tomadas por revoltas populares, tomando proporções gigantescas em lugares como Birmingham, Southall, Nottingham, Manchester, Leicester, Southampton, Halifax, Bedford, Gloucester, Wolverhampton, Coventry, Bristol e Edinburgo. Começaram a acontecer saques, incêndios de prédios, destruição de carros. Posteriormente a mídia e demais discursos acabaram se focando muito mais em críticas relacionadas a vandalismo e comparações vazias com rebeliões anteriores em Brixton. Assim, em geral foram ignoradas as origens destas revoltas na ameaça de ataques racistas, na indiferença policial e criminalização das vítimas, e uso da lei SUS (Stop and Search) – que permitia a detenção sem provas de pessoas com atitude considerada suspeita –de forma injusta e racista.

Bradford 12

Tendo em vista os acontecimentos recentes em Southall, Londres e outras áreas onde famílias negras foram atacadas com bombas e assassinadas. Onde a juventude negra assim como em Depford tem sido espancada até a morte, recebemos a notícia que ônibus cheios de skinheads estavam vindo para Bradford muito seriamente. Muitas pessoas em Bradford de todas as esferas de vida estavam falando abertamente desta forma. Acredito que quando as pessoas são atacadas é seu direito agir em auto-defesa. A natureza desta defesa depende da natureza do ataque e dos agressores. A defesa do povo negro ou todxs xs trabalhadorxs e pessoas que são ameaçadas pelo fascismo necessitam de organizações de defesa: é com isto em mente que fizemos o que fizemos.”2

Em meio às revoltas, em 11 de julho de 1981, 12 jovens da United Black Youth League foram presos em Bradford, acusados posteriormente de posse de explosivos e conspiração. Tudo começou a partir de rumores de que a National Front ou os skinheads estariam indo à Bradford, e a polícia pediu que todos ficassem em casa. Conforme Tariq Mehmood relembra, a comunidade decidiu agir: “(…) achamos que isto era totalmente errado. Não iríamos ficar em casa, a gente ia sair e organizar as pessoas.” No final de semana anterior já tinham acontecido ataques em outras cidades e a resposta da polícia mostrou a necessidade de que as comunidades se defendessem por si próprias. “(…) tomamos a decisão de que não deixaríamos uma situação similar aconteceria em Bradford, com fascistas andando e destruindo a parte de Bradford onde as comunidades negras viviam.”, disse Saeed Hussain. Prepararam bombas e molotovs para caso o ataque realmente acontecesse, mas os fascistas não atacaram Bradford e pouco depois se soube das prisões.

Este caso gerou enorme repercussão, e em uma reunião logo em seguida entre pessoas da comunidade negra e asiática e membrxs da esquerda branca, decidiu-se pela criação de uma campanha de solidariedade que tomaria grandes proporções: Bradford 12.

Houve piquetes contínuos na prisão e na audiência, criação de comitês de apoio em outras localidades, panfletos e cartazes em diversas línguas, e mobilizações com grande participação de pessoas. “Não há nenhuma conspiração, além da conspiração policial”, dizia um dos slogans.

Giovanni Singh, Praveen Patel, Saeed Hussain, Sabir Hussain, Tariq Ali, Ahmed Mansoor, Bahram Noor Khan, Tarlochan Gata Aura, Ishaq Mohammed Kazi, Vasant Patel, Jayesh Amin e Masood Malik se apresentaram no Tribunal de Leeds em 26 de abril de 1982, e o julgamento durou 31 dias. Por fim, a comunidade ganhou o julgamento, como relembra Saeed Hussain: “Sim nós realmente ganhamos o julgamento, mas a vitória real foi que as comunidades negras realmente demonstraram que tinham o direito de defender a si mesmas. E acho que isso foi levado pra outras partes do país também.”

Os anos 80 prosseguem…

Os ataques racistas prosseguiram no decorrer da década, com assassinatos, espancamentos e perseguições. Em meados dos anos 80, os ataques denunciados contra a comunidade negra e asiática haviam mais do que dobrado. Em 1987 estimava-se que uma em cada quatro pessoas não-brancas haviam sido vitimas de ataques racistas.

Nas escolas, a situação era bastante problemática, com tentativas sistemáticas de infiltração da extrema direita junto à juventude. Já no início da década se intensificam as atividades da National Front e outros partidos e grupos com panfletagens, recrutamento, distribuição de literatura racista e outras ações em escolas, com um crescimento alarmante da infiltração fascista e dos esforços de cooptação da juventude branca.

Desde 1977, a Young National Front, braço da NF, passa a atuar focada na juventude, como uma das primeiras organizações a lançar campanhas em escolas. A YNF também difundia o boletim Bulldog, editado por Joe Pearce, e suas investidas com grupos de jovens e bandas musicais de caráter nacionalista rendeu a aproximação com Ian Stuart e a banda Skrewdriver, que seriam peças chave na consolidação de skinheads White Power, abertamente neonazistas, na Inglaterra.

A violência racista nas escolas e playgrounds também ganhava maior impulso, e surgiriam inclusive organizações de professorxs brancxs com o intuito de dar aulas particulares para as crianças brancas. Neste momento já existem movimentos como a All London Teachers Against Racism and Fascism (ALTARF), com monitoramento dos incidentes racistas e atividades de combate.

Entre os ataques racistas e atuação política da extrema-direita, os esforços de recrutamento fascista na juventude branca, as investidas do Estado com legislações de imigração, deportações, racismo policial e problemas econômicos, a situação das comunidades imigrantes era muito difícil. Tudo isso, porém, não acontecia sem que houvesse resposta das comunidades asiáticas e negras organizadas com apoio de movimentos anti-fascistas. Houve novos casos de prisões e repressão policial após situações de auto-defesa como o caso de Ahmed Khan em 1982 e Newham 7 em 1984 – que gerou uma intensa campanha de solidariedade. Houve também muitas campanhas contra deportações e legislações de imigração, ações de apoio às lutas anti-apartheid na África do Sul e da causa Palestina, publicações de revistas, jornais e materiais informativos, solidariedade a greves operárias, apoio jurídico e físico à vítimas de ataques, e atividades diversas ligadas ao incentivo da auto-defesa e combate ao racismo.

 

A crescente organização das comunidades que, desde 1976, tomava grande impulso, criou novos contextos e possibilidades de luta. O mito dos povos asiáticos como pessoas passivas e tímidas havia sido quebrado, e a juventude mostrou que estava ali para ficar, e que lutariam até o fim por suas comunidades.

As organizações negras da cidade, particularmente a comunidade Bangladesh e a AYM, mostraram como a resistência unida pode ser efetiva. (…) Agora é hora de nos livrarmos de todas as hesitações que temos. Precisamos nos unir. Precisamos defender os direitos de nossa própria comunidade (…) Nosso direito a permanecer aqui e nosso direito de lutar contra o racismo. — boletim Kala Mazdoor #1, Asian Youth Movement Sheffield

HERE TO STAY! HERE TO FIGHT!

 Balraj Purewal, da Southall Youth Movement in THE ASIAN HEALTH AGENCY – Young Rebels: The Story of the Southall Youth Movement

Declaração de Tariq Mehmood Ali para a West Yorkshire Police, 31/7/81

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BIBLIOGRAFIA

ALTAB ALI FOUNDATION – Commemorating Altab Ali Day 4 May against racism and fascism

ASIAN YOUTH MOVEMENT BRADFORD – Kala Tara #1

ASIAN YOUTH MOVEMENT MANCHESTER – Liberation

ASIAN YOUTH MOVEMENT SHEFFIELD – Kala Mazdoor #1

BOWLING, Benjamin – Violent Racism: Victimization, Policing and Social Context

CAMPAIGN AGAINST RACISM AND FASCISM BOLETIM – Racist Activity in Schools

GORDON, Paul – Racial Violence and Harassment

KERSHEN, Anne – Strangers, Aliens and Asians: Huguenots, Jews and Bangladeshis in Spitalfields 1666-2000

LONG, Lisa – Revolution and Bloodshed: Representations of African Caribbeans in the Leeds

MANZOOR, Sarfraz – Black Britain’s darkest hour

PROCTER, James – Writing Black Britain 1948-1998: An Interdisciplinary Anthology

RAMAMURTHY, Anandi – Secular Identities and the Asian Youth Movements

RAMAMURTHY, Anandi – Kala Tara: A History of the Asian Youth Movements in Britain in the 1970s and 1980s

REES, John & GERMAN, Lindsey – A People’s History of London

TEARE, Keith – Under Siege: Racism and Violence in Britain Today

THE ASIAN HEALTH AGENCY – Young Rebels: The Story of the Southall Youth Movement

THE RACE TODAY COLLECTIVE – The Struggle of Asian Workers in Britain Reflecting on the Trial of the Decade: The Bradford 12

WITTE, Rob – Racist Violence and the State: A Comparative Analysis of Britain, France and the Netherlands

WOOLEY, Simon – Ugandan Asians in Britain. Operation Black Vote

The Southall History | http://www.thesouthallstory.com

Swadhinata Trust | http://www.swadhinata.org.uk/

Tandana – Glowworm | www.tandana.org

 Balraj Purewal, da Southall Youth Movement in THE ASIAN HEALTH AGENCY – Young Rebels: The Story of the Southall Youth Movement

Declaração de Tariq Mehmood Ali para a West Yorkshire Police, 31/7/81

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