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“Aqui para ficar. Aqui para lutar”: O florescer de uma luta anti-fascista | parte 2

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Paki-bashing e racismo na Inglaterra dos anos 60-80 – PARTE 2 de 3

* por Marina Knup | trecho do texto publicado em formato livreto pela Imprensa Marginal, 2015  

Clique aqui para ler a Parte 1: Racismo, Imigração e Paki-Bashing 

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Auto-organização e auto-defesa antirracista

(…) para muitas da segunda geração de pessoas asiáticas que cresceram na Inglaterra durante os anos 70 e 80, a religião não foi um aspecto primário de definição de suas identidades. O assunto chave foi o racismo, que confrontavam na escola, nas ruas, nos lugares onde suas famílias poderiam morar e trabalho, produzindo uma ampla identidade anti-racista em torno do qual se organizaram1.”

 

Entre 1973 e 1977, vão surgindo algumas tentativas de formar redes de comitês anti-fascistas/anti-racistas que envolviam pessoas e grupos dos mais diversos contextos. Em junho de 74, anti-fascistas organizaram uma passeata até o centro de Londres, contrapondo um comício da National Front. A manifestação acabou em conflitos com a polícia e membros da NF, e o manifestante Kevin Gately foi assassinado. Em fevereiro de 75 é criada a revista antifascista Searchlight, com o objetivo de contestar o apoio eleitoral à NF, seguida pelo surgimento do jornal Campaign Against Racism and Fascism (CARF), publicado pela primeira vez no final de 76 pelo Richmond & Twickenham Anti-Racist Committee e a partir de 77 adotado como jornal da All London Anti-Racist, Anti-Fascist Co-ordinating Committee, uma federação formada por 23 comitês anti-fascistas locais. Em 77 também surge a Anti-Nazi League, que com o passar dos anos tem um grande crescimento, com bases em diversos setores sociais, entre outras organizações. Nesse momento também cresce a oposição à NF por parte do Labour Party, que avaliando o crescimento do sucesso eleitoral da Front concorda com uma campanha contra o racismo e reivindica a revogação das leis de imigração de 1968 e 1971.

Em junho de 76, a morte de Gurdip Singh Chaggar, de 17 anos, teve grande repercussão. Ele foi morto nas proximidades do Dominion Theatre em Southall, um local que era visto como símbolo de auto-organização pelxs sul asiáticxs que viviam ali, num claro ataque à comunidade como um todo. O Comissário de Polícia Robert Mark declarou na época que o motivo não era necessariamente racista, e como resposta foi organizado um comício público pela Indian Workers Association no domingo seguinte.

Kuldeep Mann relembra: “Me lembro do choque na comunidade. Sim, foi uma experiência pessoal muito viva para mim. Nós fomos ao Dominion Centre, que era um grande cinema naquela época, e seu corpo foi colocado lá fora e fomos todxs olhar. (…) a comunidade estava muito unida em sua tristeza, e as pessoas se sentiam com muita raiva. As pessoas mais jovens particularmente. Sim, foi um ponto de virada em minha memória, e para muitas pessoas em Southall também.”

Jovens marcharam até a delegacia de polícia pedindo por proteção das violências racistas, e declararam: “Lutaremos como leões”. Cercaram a delegacia, e se recusaram a sair até que dois homens asiáticos que haviam sido presos durante as manifestações fossem soltos. A demanda foi atendida, e outro encontro foi organizado logo depois para organizar unidades de auto-defesa. É neste contexto que nasce a Southall Youth Movement, um movimento de autodefesa que surgia como resposta a segunda grande onda de paki-bashing que assolava os bairros imigrantes ingleses.

A inquietação causada em Southall após esta morte em 1976 foi um grande estopim para o desenvolvimento de diversos movimentos de luta anti-racista em muitas comunidades asiáticas, que percebiam que somente por meio da auto-organização poderiam se defender. Se para a geração anterior de imigrantes, havia sempre a incerteza quanto à permanência na Inglaterra e um sonho de retorno à terra natal, para essa nova geração de jovens, isto era diferente. Sentiam que era necessário lutar para que pudessem viver em paz neste lugar que também era delxs. Cada vez mais aumentava a desconfiança nas autoridades brancas, e a partir daí, a necessidade da auto-defesa nas comunidades. A juventude asiática passava a buscar na ação direta uma forma de proteção contra ataques racistas e discriminação por parte das autoridades, sem esperar mais que o Estado fizesse algo, e desafiando também as concepções da geração anterior. Era hora da juventude se organizar, e milhares de jovens asiáticxs se aproximaram desta luta.

Embora as pessoas envolvidas em geral nos AYM fossem asiáticas, havia uma identificação enquanto pessoas negras em uma sociedade branca, que lhes dava um sentimento de união com imigrantes africanxs e caribenhxs que passavam pelas mesmas experiências de racismo. Nesse contexto, o termo negro possibilitou uma identidade coletiva e solidariedade para levar adiante tanto a luta contra o racismo nas ruas, quanto contra suas expressões institucionais e políticas.

A proposta de se introduzirem enquanto juventude asiática, embora Southall fosse predominantemente Sikh e Indiana, tinha como objetivo a inclusão de toda juventude sul asiática, africana e caribenha. Sobre isso, Balraj Purewal comenta: “nos chamávamos de Southall Youth Movement, porque não éramos uma minoria em Southall. Falar em asiáticos poderia soar como se fosse algo especial, mas éramos a juventude de Southall.”

Outra questão importante era a percepção que tinham de relação entre racismo e opressão de classe. Como disse Tariq Mehmood, um membro da AYM Bradford, “para nós a questão não era só a pele escura, estava ligada a questões de classe. A maioria de nós era composta por trabalhadorxs e filhxs de trabalhadorxs. Para nós, raça e classe eram inseparáveis”.

A partir desta experiência do SYM, diversas iniciativas semelhantes começam a surgir em outras comunidades. Ainda em 76 surge a Asian Youth Organisation (AYO) em Bolton e Blackburn, e o embrião da Bangladesh Youth Movement (BYM); em 77 nasce a Asian Youth Movement (AYM) em Bradford, em um primeiro momento com o nome de Indian Progressive Youth Association (IPYA); em 78 a Asian Action Group de Haringey; em 79 a Asian Youth Movement de Leicester e Manchester; e o começo dos anos 80 vai ampliando o movimento em outras localidades: surge a Asian Youth de Birmingham e a United Black Youth League de Bradford em 81, e em 82 a AYM Sheffield. Aos poucos os AYMs e outros movimentos semelhantes iriam se espalhando por East London, Luton, Nottingham, Leicester, Manchester, Sheffield, Burnley, Birmingham, Pendle, Watford e outros lugares.

Segundo Tariq Mehmood, o que queriam “conseguir com a formação da AYM era realmente simples, queríamos ser capazes de nos defender, queríamos ser capazes de unir nossas famílias que para muitxs de nós tinham sido divididas por leis de imigração.” Rajonuddin Jalal, da BYM, diz ainda: “era uma organização que mobilizou as pessoas jovens, mobilizou a comunidade como um todo, deu voz à comunidade, organizou as pessoas para que apoiassem aquelas que eram vítimas de ataques racistas em suas casas ou nas ruas. Depois também teve o papel de politizar a comunidade.”

Em 77, a Southall Youth Movement ocupou um prédio na região, criando no local um centro da juventude que realizava diversas atividades, inclusive esportivas, e também dava ajuda legal e representação para as pessoas que tivessem problemas com a polícia. No decorrer do tempo, a SYM também mobilizou xs membrxs para ajudar outras comunidades, como os bangladeshis de Brick Lane no East End de Londres, a se defender dos ataques semanais. Este apoio da defesa física da comunidade também inspirou a formação de outros grupos locais.

No decorrer dos anos 70, aponta-se o crescimento da consciência de diversos setores da sociedade inglesa quanto à existência da violência racista, o que gera certa pressão para que entrasse em debate nas agendas públicas. Desta forma as denúncias de incidentes racistas se ampliam, com existência de cobertura na imprensa, e reivindicações pela ação do Estado chegam ao Parlamento e mesmo à residência do Primeiro Ministro em Downing Street. Entretanto, a criminalização de comunidades imigrantes e a introdução de uma nova lei de imigração serão assuntos que estarão no foco no jogo político deste momento. O final dos anos 70 será marcado também pela entrada de Margaret Thatcher como Primeira Ministra, com posicionamentos anti-imigração e políticas liberais que nada ajudaram no cotidiano violento de imigrantes asiáticxs na Inglaterra.

Porém também ganharão visibilidade diversas organizações anti-racistas se opondo à marchas da National Front por todo o país e denunciando a violência racista. Para barrar a NF nas eleições suplementares de 77 e 78, anti-fascistas espalharam milhares de panfletos que alertavam a ameaça fascista, contra-marchas foram organizadas, e muitas mobilizações aconteceram, conseguindo derrotar os candidatos do partido. Manifestações enormes com mais de 20 mil pessoas também foram organizadas no final da década denunciando o caráter racista das leis de imigração, com a formação da Campaign Against Racist Laws, que integrava movimentos da juventude asiática, caribenha, e organizações anti-racistas diversas. Nestas manifestações houve grande presença de mulheres asiáticas, que também denunciavam o sexismo destas leis.

O racismo policial e criminalização das comunidades

a nova geração do povo bangladeshi começou a crescer, e estas pessoas começaram a fazer cursos de auto-defesa, cursos de kung-fu e todas estas coisas. (…) Naquela época quando as pessoas estavam desamparadas, não queriam resistir, elas não tinham ajuda suficiente da policia local, a policia não as apoiava. E devido a toda essa não cooperação da lei e da ordem, nossxs garotxs jovens, a geração mais jovem, começou a resistir, construir sua resistência, como auto-defesa e outras coisas. E havia alguns incidentes acontecendo aqui e ali, estavam resistindo, revidando. Quando se era atacadx, elxs começaram a atacar! E então as autoridades pensaram “meu deus! Elxs não vão mais aceitar isto, estão resistindo! E quando começaram a resistir, eles pensaram “talvez esteja surgindo um problema”. (…) Eu lembro de um amigo, ele era especialista em kung fu, faixa preta, vermelha, não me lembro. Ele começou a mobilizar as pessoas desta área, que viviam nos arredores de Brick Lane. E então a policia começou a prestar atenção, “essxs garotxs estão começando a resistir, é melhor fazer algo!” Mahmud Rauf, imigrante bangladeshi

Em 1978, o Bethnal Green and Stepney Trades Council publicou um importante documento sobre a violência racial em East End, baseado em registros da Bangladesh Welfare Association, Bangladesh Youth Movement e Tower Hamlets Law Centre. O material analisa mais de 110 ataques contra asiáticxs e suas propriedades que ocorreram entre janeiro de 1976 e agosto de 1978, tornando-se um dos documentos mais aprofundados sobre a questão. Entre os casos analisados estão esfaqueamentos, rostos cortados, pulmões perfurados, ferimentos de bala, espancamentos com tijolos, paus, guarda-chuvas, chutes, e outros métodos que quase sempre levavam as vítimas ao hospital.

Uma das questões colocadas no relatório, já anteriormente denunciadas em outros materiais, é a conivência policial e criminalização dxs imigrantes. Há inúmeros casos em que a polícia tentou evitar registrar as queixas de ataques racistas, negou a natureza racista da situação, não tomou nenhuma atitude ou, ainda, criminalizou as próprias vítimas.

Um artigo relata que em meados dos anos 70 em Bradford, os rumores de que mulheres paquistanesas foram atacadas por homens brancos eram impossíveis de ser confirmados, porque a polícia não queria dar informação de casos de mulheres asiáticas atacadas por homens brancos, argumentando que isso iria inflamar a comunidade asiática. Em contraposição, a policia não hesitava em dar informações sobre ataques contra mulheres brancas se o agressor fosse negro.

Como relembra a imigrante Clare Murphy, (…) onde havia muitos ataques em Brick Lane contra Bangladeshis por skinheads ou outros racistas, o que geralmente acontecia era que o ataque era feito, alguém ligava para a polícia, provavelmente um Bangladeshi. A policia levava muito tempo para chegar lá, e quando chegava os agressores já tinham fugido, provavelmente ouvindo as sirenes. Bangladeshis da vizinhança saíam, possivelmente com pedaços de madeira ou algo para se proteger. E eram elxs que eram presxs por porte de armas. (…) Não havia proteção policial suficiente; diziam que iam prender Bangladeshis com pedaços de madeira ou o que fosse. A polícia fez insinuações sobre xs Bengalis serem xs agressorxs.”

Era comum que a única ação da polícia fosse a de questionar as vítimas e testemunhas pedindo provas de sua identidade e situação legal. Entretanto, em muitas ocasiões quando as comunidades asiáticas começaram a se defender, ficou evidente uma preocupação maior da policia com os incidentes racistas, porém com situações de prisão das vítimas e criminalização assustadoramente comuns.

 

Mas isto não era novidade naquela época: um relatório de 1970 da organização Runnymede Trust já relatava uma situação em que a polícia reagiu apenas quando surgiram rumores de que asiáticxs estavam comprando armas para se defender dos ataques.

Um caso que ficou muito conhecido foi o dos irmãos Virk, que foram atacados por racistas em frente a casa em que viviam em East Ham em 1977. Os irmãos se defenderam, e um dos agressores foi ferido com uma facada. Os Virks chamaram a policia, que quando chegou os prendeu. No julgamento, as testemunhas de acusação eram os jovens brancos que tinham atacado os irmãos, enquanto os advogados de defesa tentavam demonstrar a natureza racista do ataque. Em julho de 1978, os quatro irmãos Sikh de East Ham, Mohinder, Balvinder, Sukvinder e Joginder Singh Virk foram condenados por lesão corporal grave e sentenciados a doze anos e três meses. Este caso teve grande importância no desenvolvimento de organizações de auto-defesa como o Standing Committee of Asian Organizations e o Newham Defense Committee.

Os anos 70 chegavam ao fim, mas os ataques racistas permaneciam comuns. De 1978 a 1980 diversos casos ocorreram, incluindo uma série de assassinatos. Em 1978, um garoto de 10 anos de idade chamado Kennith Singh foi espancado até a morte perto de sua casa em Plaistow, a leste de Londres, e seu corpo foi encontrado em uma pilha de lixo. Os assassinos nunca foram encontrados, assim como na maior parte dos ataques racistas que aconteceram na região. A segunda metade da década também foi marcada pelos ataques frequentes da Anti-Paki League (Liga Anti-Paquistaneses), criada pela gangue Trojan Tilbury Skins, formada por garotos que eram skinheads desde o final dos anos 60 e outros mais jovens. A gangue deixava explícito seu ódio a imigrantes paquistanesxs e asiáticxs em geral, e faziam paki-bashings constantemente em East End, tendo sido apontados como grandes responsáveis por muitos dos ataques à comunidade asiática em 1977.

Altab Ali: as comunidades se mobilizam

Em 1978 a região de Brick Lane passava por muitos ataques, alguns deles com presença de centenas de agressores. Em um deles, 150 jovens brancos atacaram Brick Lane aos gritos de “mate os negros bastardos”, quebrando janelas e para-brisas de carros de lojistas asiáticos. Um deles, Abdul Monam, perdeu dois dentes e levou cinco pontos no rosto após ter ficado inconsciente com a chuva de pedradas que atingiram sua loja.

Em 4 de maio de 1978, Altab Ali, um garoto bengali de 25 anos, estava voltando para casa depois do trabalho na fábrica no East End de Londres quando foi esfaqueado por três adolescentes skinheads – Roy Arnold e Carl Ludlow, de 17 anos, e um terceiro garoto de 16 anos. Deixaram uma mensagem em um muro próximo que dizia “Nós voltamos”.

Quando Altab Ali foi assassinado,” – relembra o imigrante bengali Sunahwar Ali – “todxs ficaram furiosxs com isso, e muitxs jovens o conheciam porque era uma pessoa local. Desde 1976, muitos ataques racistas estavam acontecendo e se tornou um ponto de virada neste incidente. Na época em que Altab Ali foi morto, todo mundo disse, ‘isso foi o bastante, agora precisamos fazer alguma coisa’, e como resultado conseguimos organizar a manifestação e foi uma das maiores concentrações já vistas na história.”

A morte de Altab Ali foi um momento emblemático na formação e consolidação de organizações de imigrantes, e desencadeou diversas mobilizações da comunidade asiática e movimentos anti-racistas, no que hoje é lembrado como a “Batalha de Brick Lane de 1978”. Dez dias após sua morte, no dia 14 de maio, milhares de imigrantes e anti-racistas marcharam contra a violência racista atrás do caixão de Altab Ali, em uma das maiores manifestações da população asiática na Inglaterra. Centenas de cafés, restaurantes e lojas fecharam em apoio. Grupos como a Action Committee Against Racial Attacks, Tower Hamlets Against Racism and Fascism, Trades Council e a Anti Nazi League ajudaram a reunir e articular protestos e redes de solidariedade. Grupos como o Bangladesh Youth Movement ampliaram suas ações, e nas ruas havia gangues de jovens locais para combater os ataques skinheads. Durante a marcha do funeral surgiram slogans a partir de então muito utilizados pelo movimento, como “Self defense is no offense” (auto-defesa não é agressão), “law and order for whom?” (lei e ordem para quem?), “Who killed Altab Ali? Racism!” (quem matou Altab Ali? O racismo!), “Black and White, unite and fight!” (Negrxs e brancxs, se unam e lutem!), e “Here to stay, here to fight!” (Aqui para ficar, aqui para lutar!).

Rajonuddin Jalal, um dos envolvidos na formação do BYM, lembra que “foi um evento muito emocionante, centenas de pessoas vieram. Nunca antes Bengalis vieram de forma tão numerosa. Emocionante no sentido de que o evento não foi organizado por pessoas que eram profissionais no campo político. Foi uma resposta comunitária espontânea a um acontecimento.”

Ao mesmo tempo em que acontecia a passeata, alguns grupos como a Progressive Youth Organisation decidiram não participar da manifestação para proteger seus bairros, que estando vazios eram um prato cheio para ataques racistas. Como haviam pensado, Brick Lane foi atacada, e os membros do grupo conseguiram confrontar os agressores fisicamente e detê-los. Outros casos assim aconteceram depois.

Cada vez mais, as comunidades vão se organizando tanto no campo político, quanto no nível da auto-defesa de rua. Além das organizações mais amplas e politicamente voltadas a lidar com questões específicas como racismo, educação, moradia, etc., iam se formando pequenos grupos de vigilância que tentavam defender suas comunidades dedicando-se a lutar contra racistas, apoiando também comunidades de outros locais. Segundo Mohammed Abdus Salam, sentiam que deveriam “(…) ser física e intelectualmente resistentes. Também acreditávamos que tínhamos que preparar nossxs jovens para seguir com suas próprias pernas e revidar. Então começamos a fazer treinos físicos e kung-fu. (…) Sabíamos que a polícia não ia nos ajudar e apoiar, a polícia estava sempre do lado das pessoas brancas. Por isso desenvolvemos a tática de bater e correr. (…) Gradualmente nosso grupo se tornou maior e maior”.

Conforme a juventude vai ganhando confiança e começam a partir para a ofensiva, as atividades vão ganhando ainda mais impulso. Nessa época surge a Hackney and Tower Hamlets Defence Committee, que participou de diversas ações como a manifestação em frente à Delegacia de Bethnal Green contra a brutalidade policial e falta de ação contra os ataques racistas; ocupação da esquina entre Brick Lane e Bethnal Green Road reivindicando o fechamento do ponto de vendas da NF de seus jornais e materiais racistas e fechamento de sua sede na área; patrulhas em Brick Lane aos sábados para barrar os encontros de racistas que se reuniam para planejar os ataques dos domingos; organização do Dia de Solidariedade Negra, um dia inteiro de greve em Tower Hamlets contra ataques racistas que levou toda a região a uma paralização; ações de oposição ao plano governamental de construção de guetos segregados para comunidade bengali; entre outras. Toda esta movimentação e os inúmeros confrontos nas ruas contribuíram definitivamente pra que os racistas fossem retirados finalmente da área, e a National Front tivesse sua sede na região fechada.

No verão de 78, grupos anti-racistas e comunidades asiáticas de East London e Southall intensificaram as ações contra a National Front e os ataques racistas, tendo recebido apoio e visitas de líderes de sindicatos e autoridades políticas. “Em 78, após a morte de Altab Ali, – recorda Sunahwar Ali – em um domingo a National Front marchou por Brick Lane e começou a quebrar todas as janelas das lojas. (…) as pessoas gritavam, nós saímos e vimos que a National Front e os skinheads estavam vindo com paus e pedras em marcha. Eram cerca de 25-30 em número. Domingo era o dia de folga e a maior parte de nós estava ali de vigilância para algum ataque ou algo do tipo, estávamos mentalmente preparados para nos defender. Saímos para encará-los, a polícia chegou 5 minutos depois. Eles conseguiram prender alguns deles. Não sei o que aconteceu depois da prisão. Mas na primeira meia hora a polícia não fez nada, enquanto quebravam as janelas da loja bengali. Tivemos que lutar com eles mano a mano. Pensamos, isto é Brick Lane, esta é nossa casa e se não defendermos Brick Lane não podemos viver neste país. Nós tivemos que fazer isso, não havia outra escolha.”

Em junho, uma semana depois de ataques racistas organizados em Brick Lane e East End, a ANL organizou em conjunto com as organizações da comunidade bengali local uma manifestação com presença de mais de 4 mil pessoas, e outras ações foram feitas em contraposição à NF no decorrer de julho. Ainda nesse mês 8 mil trabalhadorxs entraram em greve após um chamado da Hackney and Tower Hamlets Defense Committee por um Dia de Solidariedade Negra. A prisão de dois jovens bengaleses após um incidente em que foram atacados também levou a manifestações com cerca de 3 mil pessoas em frente à delegacia de Bethnal Green em 18 de julho do mesmo ano.

Com o fim da batalha nas ruas de 78, as organizações começam a se estruturar coletivamente. Surgem iniciativas como a Federação Bangladeshi de Organizações da Juventude (FBYO), que envolvia as organizações Bangladesh Youth Movement; Bangladesh Youth Association; Progressive Youth organisation: Bangladesh Youth League Birmingham, Sunderland Bengali Youth Organisation; Bangladesh Youth Approach; Shapla Youth Force; Weavers Youth Forum; Bangladesh Youth League; Bangladesh Youth League Luton; Eagle Youth Organisation; Overseas Youth Organisation; Hackney Bangladesh Youth Organisation, Wallsall Youth Organisation; Bradford Youth Organisation e a League of Joi Bangla Youth, entre outras. Publicaram uma revista bilingue chamada Jubobarta, se envolveram em produção de documentários e passaram a debater e agir nas esferas políticas com relação às necessidades e urgências da comunidade em todas as esferas da vida.

Em 1979 é publicada também a primeira revista da AYM em Bradford, com o nome de Kala Tara, que significava Estrela Negra – uma identificação com as lutas negras. “O racismo é violento e os racistas estão fazendo barulho. A iminente crise econômica irá colocar nossas vidas ainda mais em risco neste país. Cabe à comunidade negra como um todo se erguer e tomar as rédeas da luta contra o racismo”, dizia a primeira página da revista. Kala Tara também divulgou diversas campanhas da AYM, como campanhas contra deportações e separação de famílias, denúncias de políticas racistas de restrição de imigração, fotografias de manifestações públicas e outras atividades.

CONTINUA…

1 “Secular Identities and the Asian Youth Movements, Dr Anandi Ramamurthy, University of Central Lancashire”

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