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da impossibilidade de superar a atual crise do capitalismo – José Maria de Carvalho Ferreira

[publicado originalmente em: verve, 21: 101-131, 2012] Os desafios e os problemas de investigação que a produção teórica envolve em relação aos objetivos e ao conteúdo do Programa Próximo Futuro, acerca das respostas à crise, são complexos, difíceis, mas também muito atuais e pertinentes.
O objeto de observação do qual decorre o tema científico central da produção teórica é atravessado pelo dilema da crise. Esta, como conceito polissêmico, genérico, abstrato e complexo, nos induz a explicá-la, interpretá-la e compreendê-la, tendo por base uma série de causalidades e efeitos que têm originários fenômenos sociais, políticos, culturais, civilizacionais e econômicos que, pela sua emergência e plasticidade social, afetam sobremaneira o funcionamento normativo das sociedades contemporâneas. O desemprego, a precariedade do vínculo contratual, o desvio, o crime, a guerra, a pobreza e a miséria resultantes das disfunções e perversões da regulação do mercado, do Estado, das instituições e organizações da sociedade civil são demonstrações inequívocas de um tipo de crise cujas configurações e tendências biológicas e sociais evidenciam um mal estar civilizacional generalizado no que concerne ao equilíbrio ecossistêmico da espécie humana com as espécies vegetais e com as espécies animais do planeta Terra. Por outro lado, a emergência de uma multiplicidade de conflitos sociais desviantes e perversos formam e estruturam, cada vez mais, os processos de socialização e de sociabilidade que tendem a se desenvolver no sentido de uma guerra civil interindividual em escala planetária.
Estas interrogações emblemáticas questionam, em primeiro lugar, todos os atores-cientistas que realizam as suas investigações nos domínios das ciências sociais e humanas, mas também todos aqueles que trabalham e investigam ou- tros domínios científicos: biologia, saúde, física e matemática, etc.. Perante a fragilidade e a impotência dos modelos e paradigmas científicos que persistem em demonstrar o seu valor heurístico e a sua eficácia na prevenção e controle dos fenômenos desviantes e perversos que geraram a crise atual, a primeira hipótese extraída é que esses modelos e paradigmas também estão mergulhados em uma profunda crise. Estando todas as ciências inscritas no contexto normativo da racionalidade instrumental do capitalismo, quando não integram os mecanismos de eficácia e de rentabilidade determinados pela maximização do lucro, seguem, naturalmente, uma situação de risco iminente de serem excluídas do mercado que regula o sistema global da produção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços científicos.
Sendo assim, em relação à temática da crise, assumo, também, minha ignorância com relação a fatores sistêmicos particulares e globais que formam a sua epistemologia e ontologia atual. Deste modo, considero que estamos longe de poder controlar ou sequer poder prevenir a natureza, complexa e abstrata, que a atual crise encerra nas sociedades contemporâneas. Esse desejo, no meu entendimento, é atravessado por uma ignorância generalizada dos diferentes atores que pretendem, querem ou podem interpelar as incidências do risco, da incerteza, da insegurança, do medo e da perplexidade face à emergência galopante das suas disfunções e perversões biológicas e sociais.
Não pretendo seguir uma postura de enciclopédia sistêmica global, tão pouco tenho capacidades cognitivas e emocionais para tal. Sendo assim, não estruturo o meu discurso narrativo a partir de análises dicotômicas e deterministas que olham para a crise como se a sua essência fosse, simplesmente, econômica e financeira, ignorando os fatores de incidência civilizacional, cultural, biológica, social e política. Ao abstrair a comparabilidade e o contraste sistemático de leituras e citações de autores que têm se debruçado sobre um tema tão vasto, complexo e abstrato, como é a temática da atual crise, remeto-me à condição-função de ator-cientista aprendiz das linguagens sociológicas que formam a minha realidade de professor e pesquisador.
Ao assumir uma postura de aprendiz, como ator-cientista, no contexto da minha historicidade biológica e social, assumo plenamente a minha condição-função de objeto de observação e de objeto científico, evitando as sistemáticas disjunções analíticas dos discursos narrativos que separam a teoria da prática, o presente do passado, os fatores objetivos dos fatores subjetivos, os fatores qualitativos dos fatores quantitativos.
No entanto, sabendo que a minha análise pode se direcionar a especulação e o erro, recuso-me a seguir os modelos de análise “judaico-cristãos” que separam, mecanicamente, as partes do todo que formam a ação individual e coletiva, assim como a interdependência e complementaridade subsistentes entre as partes e a totalidade sistêmica que estão na origem dos processos de socialização dos fenômenos sociais, políticos, econômicos, culturais e civilizacionais. Ao sair dos parâmetros desse mecanismo compreensivo, interpretativo e explicativo, cujas causalidades e efeitos dos fenômenos desviantes e perversos têm sempre uma essência comportamental ou estrutural e institucional, foco a minha análise nos parâmetros da atual crise da sociedade capitalista, tendo em vista a função estruturante que o ator fator de produção trabalho [2] exerce no processo global da mesma. Estou, ou procuro estar, longe das análises deterministas, como é o caso dos modelos e paradigmas vigentes que, na maioria dos casos, separam mecanicamente o bem do mal, a teoria da prática, a escravidão da submissão, a burguesia do proletariado, o indivíduo do grupo, assim como a sociedade civil do Estado. Esta separação ou disjunção mecanicista, sendo objetiva e subjetivamente impossível é, no entanto, objeto de expiações e culpabilizações sistemáticas por parte daqueles ou daquelas que sofrem ou não os revezes da atual crise capitalista.
Este tipo de atitude comportamental com grande plasticidade social parece paradoxal, mas não é. Quer na situação de desempregado, ganhando um salário de miséria, quer ainda em uma situação de pobreza, de precariedade de vínculo contratual ou de exclusão social, a percepção e a dedução genérica dos efeitos negativos dos problemas e das origens dessas realidades está sempre no capitalismo ou no Estado, mas nunca nos indivíduos, grupos, comunidades ou sociedades civis que se identificaram e se adaptaram, normativamente, a esse mesmo capitalismo e a esse mesmo Estado. Tanto é assim que, apesar desses problemas negativos terem sido uma constante na história do capitalismo e do Estado, hoje, perante uma crise inaudita nunca antes imaginada, os que vivem em uma situação de miséria e pobreza continuam a reivindicar trabalho, emprego, salários de miséria e inclusão na ordem social vigente, exigindo, assim, o que o capitalismo e o Estado não podem dar.
Em função das interrogações e problematizações in- trodutórias que o mesmo texto apresenta, desenvolverei a minha análise a partir de duas dimensões básicas: 1) natureza do processo de industrialização e de urbanização com base nos limites históricos da transformação da matéria orgânica em matéria inorgânica; 2) contingências das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e da globalização e as suas consequências comportamentais em escala local, regional, nacional, continental e mundial.

Limites do processo de industrialização e de urbanização das sociedades contemporâneas
Ainda que o processo de industrialização e de urbanização das sociedades contemporâneas continue incessante, notadamente, no nível das potências regionais emergentes, como é o caso emblemático da China, do Brasil e da Índia, as perversões biológicas e sociais criadas por esse processo chegaram ao seu limite histórico. Este fato deveu-se ao esgotamento do modelo de transformação de matéria orgânica em matéria inorgânica no apogeu dos “trinta gloriosos anos do capitalismo” (1945-1975). Os efeitos estruturantes desse modelo se fizeram sentir, prioritariamente, na transformação, destruição, redução e extinção em massa dos recursos naturais, água e oxigênio do planeta Terra. O crescimento extraordinário, qualitativo e quantitativo, da exploração do solo, montanhas, rios, mares e florestas que serviram e servem de matérias-primas para a produção, distribuição, troca e consumo de mercadorias circunscritas aos setores automobilístico, químico, siderúrgico, pe- trolífero, de energia nuclear, ferro, cimento, vidro, têxtil, imobiliário, de transportes e da indústria agro-alimentar gerou uma situação insustentável nos níveis do ambiente e do ordenamento do território. Este processo de industrialização foi, enormemente, potencializado pela hegemonia do peso estruturante destes setores nas taxas de crescimento econômico e na valorização do capital dos países capitalistas mais desenvolvidos. Por outro lado, tem sido incrementado, recentemente, em países capitalistas menos desenvolvidos, cujos territórios são passíveis de extração de matérias-primas com potencialidades orgânicas. A transformação de imensos recursos naturais, ainda disponíveis em uma pluralidade de mercadorias inorgânicas, permite a expansão e a saída da crise em que o processo de industrialização está mergulhado.
No sentido amplo do termo, o antes, no interior, e o depois desse processo de industrialização, é praticamente impossível não notar a emergência histórica de um processo simultâneo de urbanização, com a sua própria especificidade populacional no que concerne à sua dimensão, densidade e heterogeneidade populacional. Os processos migratórios do campo para a cidade, assim como o fenômeno massivo da emigração entre países e continentes, explicam o conteúdo e as formas de urbanização em estreita interdependência e complementaridade com o pro cesso de industrialização materializado em fábricas, oficinas, zonas de habitação, mercados, transportes, estradas, pontes, centros comerciais, lojas de pequeno comércio, turismo, lazer, atividades culturais e recreativas, esportes, assim como atividades políticas, religiosas e sociais.
É um processo sistêmico urbano-industrial de integração, de interdependência e de complementaridade estrutural e funcional, cuja evolução se traduziu em uma crescente complexidade e abstração social, econômica, política, cultural e civilizacional. Quando hoje observamos a vida cotidiana do homo urbanus nos grandes aglomerados urbanos das sociedades contemporâneas que agregam vários milhões de habitantes, facilmente nos deparamos com essa realidade. A estratificação e a desigualdade social se generalizaram nos interstícios de uma imensa economia informal e subterrânea que vegeta e vive dos resíduos e restos das lixeiras abandonadas pelo consumo ostensivo e desenfreado dos estratos sociais possuidores e privilegiados que lideram os processos de institucionalização e de formalização da economia formal. Por outro lado, pela interdependência e complementaridade que subsiste entre ambas, estes fenômenos também se verificam no interior da economia informal e subterrânea. Em qualquer uma das circunstâncias, a identidade da vida cotidiana de qual- quer habitante dos grandes aglomerados urbanos, baseada no consumo desenfreado de objetos do setor industrial, está se esgotando e desintegrando de forma progressiva.
A extensão territorial de qualquer aglomerado urbano implica a extinção de muitas espécies animais e de muitas espécies vegetais. Pela via da transformação de imensos territórios em cimento, ferro e vidro, desaparecem também as probabilidades de existência de oxigênio e de água no solo orgânico. Tornando-se um território inorgânico, morto, sem probabilidades de produzir oxigênio e água, extinguiram-se as hipóteses de vida para qualquer espécie animal ou vegetal. Digamos que as fontes genuínas da criação e sustentabilidade de qualquer espécie, animal ou vegetal, nestas circunstâncias, estão extintas, na medida em que não existem recursos naturais, água e oxigênio nos territórios confinados ao espaço-tempo do sistema urbano-industrial.
No mesmo sentido, o espaço-tempo da transformação de inputs orgânicos em outputs inorgânicos inscritos no modelo padrão de produção, distribuição, troca e consumo de produtos do setor industrial – automobilístico, petrolífero, químico, têxtil, siderúrgico, ferro, vidro, cimento, indústria agro-alimentar e de transportes – é, em si mesmo, a personificação da extinção e destruição do oxigênio e da água existente nos aquíferos e lençóis freáticos, assim como da potenciação das emissões de gases com efeito estufa na diminuição da camada de ozônio e na desertificação acelerada do planeta Terra e, logicamente, na extinção de todas as espécies animais e vegetais.
Na medida em que o progresso e a razão são fatores estruturantes, de primaz eficácia, do modelo padrão da racionalidade instrumental do capitalismo, este se revela, cada vez mais, impotente para maximizar o lucro através das probabilidades de vida que são inerentes à espécie humana, notadamente no que se refere à ação individual e coletiva do ator fator de produção trabalho. Extinguindo-se o oxigênio e a água, o que resulta na ação mortífera sobre as espécies animais e vegetais, extinguem-se as probabilidades de reprodução do sistema capitalista baseado na espécie humana, enquanto essência antropocêntrica no planeta Terra. Neste sentido, o limite do próprio capitalismo reside na sua incapacidade histórica em capitalizar os recursos naturais, cuja inexistência e destruição progressiva põem em risco a própria existência da espécie humana, incluindo aquela parte que, ainda, pretende e aspira sobreviver, biologicamente, nos parâmetros normativos do capitalismo.
Os sinais objetivos das tendências biológicas que anunciam a implosão do sistema capitalista não deixam de ser sintomáticos em relação à insustentabilidade do capitalismo com base nos setores emblemáticos do setor industrial: automobilístico, petrolífero, químico, siderúr- gico, agro-alimentar, cimento, ferro, vidro, imobiliário e têxtil. Ao contrário do que afirmam todos os ideólogos do sistema capitalista e de outras ideologias políticas, a crise que ele enfrenta não é uma mera questão polarizada em torno do sistema financeiro ou do sistema econômico mundial. O desemprego, assim como a precariedade do vínculo contratual, a pobreza, a miséria e a exclusão so- cial atual resultam de inúmeras calamidades naturais, do abandono massivo das fontes de criação e manutenção da vida no planeta Terra e, sobretudo, da ignorância de um sistema social e de uma espécie humana que transformou os recursos naturais que a natureza nos legou como fontes orgânicas de vida em elementos inorgânicos de morte.
A perda da capacidade imunológica do corpo humano face à emergência de uma série de doenças, provocadas pelas mutações em curso nas diferentes espécies animais e vegetais, deve, no mínimo, alertar-nos para o risco, a incerteza e os sintomas negativos que a biotecnologia, a biociência, a tecnociência e a biomedicina já personificam para o equilíbrio sistêmico da vida cotidiana da espécie humana e de todas as espécies animais e vegetais. Quanto às experiências de cereais geneticamente modificados, com maior incidência na produção desenfreada de milho e de soja para sustentar o ímpeto da procura do mercado mundial, é imperativo, no mínimo, parar para pensar, sentir e agir em um sentido oposto. A emergência histórica da fragilidade e da incapacidade imunológica do corpo humano face à emergência de novas bactérias e novos microrganismos resultam, em grande parte, das mudanças provenientes de produtos geneticamente modificados que integram o mercado da indústria agro-alimentar mundial. Este, aliás, por ironia do destino, é um mercado dominado pelas transnacionais, cujo setor em crise tende a transformá-las, facilmente, de gigantes da indústria agro-alimentar em gigantes da indústria agro-biológica.
No que concerne à evolução da crise econômica e financeira subsistente mundial, é preciso pensar que estamos caminhando a passos largos para o momento final da transformação da matéria orgânica em matéria inorgânica, para os limites da sustentabilidade e continuidade do processo de industrialização e de urbanização de qualquer sociedade no planeta Terra. Antes da confiança que se pretende, a todo custo, estabelecer junto à população mundial a partir de taxas de crescimento econômico po- sitivas, ou do aumento do PIB, como ocorre com os casos paradigmáticos da China e da Índia, no continente asiático, da Angola, na África e do Brasil, na América Latina, é necessário perceber que esses países possuem, para além de uma população de cerca de três bilhões de seres humanos, territórios repletos de uma quantidade gigantesca de matérias-primas de natureza orgânica. É, em última instância, um refúgio crucial para expandir o modelo das transnacionais em crise, cuja base de rentabilidade e de maximização do lucro se alimenta e reproduz com base em salários miseráveis e em uma escravidão sem limites, originando desemprego, precariedade de qualquer vínculo contratual, pobreza, exclusão social, crime e desvio.
As transnacionais da especulação imobiliária e financeira, da indústria automobilística, têxtil, química, do cimento, do ferro e do vidro, petrolífera, da indústria agro-alimentar, que estão impossibilitadas de realizar esse desejo na Europa, nos EUA, no Japão, no Canadá, na Austrália, etc., deslocaram-se, com os seus investimentos e capitais, para os países menos desenvolvidos, mas nos quais existem enormes potencialidades energéticas e em recursos naturais, para desenvolverem essas atividades econômicas. A função estruturante e estratégica dessas atividades econômicas demonstra, de forma inequívoca, que “os trinta gloriosos anos do capitalismo” (1945-1975) estão em declínio e tendem à extinção nos países capitalistas desenvolvidos e que, por outro lado, são, provavelmente, a única “tábua de salvação” de um capitalismo moribundo que baseia a sua sobrevi- vência histórica nos parâmetros do progresso e da razão e, como consequência, na estruturação ilimitada do processo de industrialização e de urbanização das sociedades.
Os custos históricos deste modelo de expansão hege- mônica em escala planetária – porque se desenvolve em paralelo com o processo histórico, iniciado na década de 70 do século XX, induzido, basicamente, pelas contingências das TIC e da globalização – têm se traduzido, progressiva- mente, em uma crise biológica e social sem precedentes. A transformação gigantesca de inputs orgânicos em outputs inorgânicos resultou em um acréscimo significativo da erosão do solo e na desertificação do planeta, na polui- ção atmosférica, na destruição de espécies animais e ve getais, ao mesmo tempo em que o desenvolvimento da produção, distribuição, troca e consumo dessas atividades econômicas induziram ao aumento galopante do dióxido de carbono e da camada de ozônio. A este respeito, basta analisarmos as estatísticas mundiais atualizadas da Worl- dometers [3], de 10 de outubro de 2009, para chegarmos à conclusão de que, neste dia, por volta de 15 horas, em ter- mos de atividades econômicas, os automóveis produzidos nesse ano atingiam o número de 32.439.1999; as bicicle- tas produzidas atingiam o número de 68.106.571 e o nú- mero de computadores vendidos já era de 178.514.015. Em termos do ambiente, o panorama neste ano e nes- te dia era o seguinte: 7.086.233 de hectares de florestas perdidas; 2.719.814.252 toneladas métricas de energia consumida pela via do petróleo; 2.256.374.627 toneladas métricas de energia consumida em carvão. Em contrapar- tida, em termos das potencialidades energéticas de raios solares incidentes no solo terrestre, estimava-se um va- lor de 1.710.518.177.953 toneladas métricas de consumo probabilístico de energia.
Por fim, se pensarmos que a população mundial atual, neste momento, está atingindo o número de 6,8 bilhões de seres humanos e que, por outro lado, metade dessa po- pulação vive os infortúnios da crise concentrada nos gran- des aglomerados urbanos, somos constrangidos a pensar a crise em uma perspectiva sistêmica global, tendo em vista que as interdependências e complementaridades entre as suas diversidades locais, regionais, nacionais e continen- tais integram uma multiplicidade de fenômenos disfun- cionais e perversos em uma rede inextricável e complexa de fatores econômicos, sociais, políticos, culturais e civilizacionais.
Contingências das TIC e da globalização na atual crise do capitalismo
Restrinjo-me, agora, às dimensões estruturantes das TIC e da globalização no seio da sociedade global. Não basta focar a diversidade tipológica dos estímulos e das respos- tas comportamentais induzidos pela produção, distribuição, troca e consumo de uma panóplia de bens e serviços con- substanciados em hardware e software. O mundo das TIC reportadas à plasticidade social da informática, da inteligên- cia artificial, da robótica, da telemática, da biotecnologia, da biociência, da tecnociência, da biomedicina, da nanotec- nologia, da internet, das linguagens da web, é um mundo inacabado, de inovações e mudanças, com origem em uma crescente integração e progressão da ciência e da técnica no quadro da racionalidade instrumental do capitalismo.
As TIC, conjugadas de forma interdependente e com- plementar com os desígnios e objetivos da globalização, potencializaram as virtualidades desta de uma forma inau- dita. De fato, quando estamos refletindo sobre o impacto das TIC nas atividades econômicas, não podemos nem devemos nos limitar à análise do setor industrial, mas de- vemos, sobretudo, discernir sobre o setor de serviços, não esquecendo, obviamente, o setor agrícola. Hoje, as ativida- des econômicas circunscritas ao contexto da racionalida- de instrumental do capitalismo incidem, basicamente, na educação, no ambiente, na saúde, na biologia, nos serviços, na comunicação, nos transportes, na cultura, nos serviços sociais, no esporte, enfim, na globalidade das atividades econômicas, políticas, sociais e culturais que produzem e reproduzem as atuais sociedades contemporâneas.
Por outro lado, as TIC, na medida em que permitem a coincidência do espaço-tempo virtual com o espaço-
-tempo real, viabilizam a produção, distribuição, troca e consumo de qualquer bem ou serviço de características analítico-simbólicas, em escala local, regional, nacional e mundial de forma padronizada. Qualquer jogo de futebol, guerra do Iraque ou do Afeganistão, conflito social, crime, notícias sobre estrelas midiáticas de sucesso, atividades das empresas transnacionais, atividades do Estado e da socie- dade civil, enfim, tudo isso e muito mais, é passível de ser produzido, distribuído, trocado e consumido quando da sua emergência e integração sistêmica global em cada segundo, minuto, hora ou dia da vida cotidiana, circunscrito a qual- quer indivíduo, família, grupo, organização, comunidade ou etnia que habitam o planeta Terra. São atos irrepetitíveis, de execução, tarefas e funções; por cada ator fator de produção trabalho que integra o processo de produção, em interde- pendência e em complementaridade sistêmica com todos os outros atores fatores de produção trabalho que integram o processo de distribuição, troca e consumo de bens e serviços analítico-simbólicos. Com base em seus órgãos sensoriais, os milhares de milhões de seres humanos que integram esse processo de coincidência do espaço-tempo virtual com o espaço-tempo real têm probabilidades não lineares de inte- grarem, ou não, um processo sistêmico de aprendizagem de competências cognitivas e emocionais e, por essa via, de in- tegrarem o processo de trabalho e a organização do traba- lho que exigem, imperativamente, competências adequadas e amadurecidas, inscritas, normativamente, em cada tarefa ou função da divisão do trabalho, da autoridade hierárquica formal, do processo de liderança e do processo de tomada de decisão decorrentes da produção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços analítico-simbólicos.
A globalização se insere em um sentido linear às escalas local, regional, nacional, continental e mundial, levando cada ator fator de produção “trabalho” a evoluir no sentido de um comportamento-padrão, quer esse comportamen- to integre as mesmas modalidades de produzir, distribuir, trocar e consumir objetos de tipo material, quer se insira nos processos de aculturação e de aprendizagem social quando reportados a atividades econômicas, culturais, sociais e po- líticas de tipo imaterial. Como consequência, as tendências de padronização espaço-temporal das múltiplas atividades econômicas impelidas pela força estruturante das TIC e da globalização, no quadro da racionalidade instrumental do capitalismo, não se combinam mais com modalidades de gestão, de governação, de reflexão e de decisão de um pas- sado que, embora “glorioso do capitalismo”, tende para a sua extinção ou já tem extrema dificuldade em subsistir.
Estes aspectos estruturantes das TIC têm consequên- cias profundas e sistemáticas nas modalidades cognitivas e emocionais de adaptação e de reação do ator fator de pro- dução trabalho, quando este executa as suas tarefas e fun- ções, no contexto do processo de trabalho e da organização do trabalho, diretamente reportado à produção, distribui- ção, troca e consumo de bens e serviços analítico-simbóli- cos. Para tanto, é fundamental discernir sobre a diversidade quantitativa e qualitativa da enormidade dos signos e signi- ficados gerados pelas TIC, tendo em vista as contingências dos estímulos e das respostas adaptativas e reativas do ator fator de produção trabalho em relação às suas probabilida- des de acesso e categorização da informação, conhecimento e energia humana que integram os mecanismos automáti- cos, complexos e abstratos das TIC. Desse modo, quando escrevemos ou falamos sobre as TIC, estamos, indelevelmente, discernindo sobre uma probabilidade quase infinita de acesso ao conhecimento, informação e energia humana que antes estava polarizada nos perfis socioprofissionais do saber-fazer comprimido às tarefas e funções antes execu- tadas pelos engenheiros, torneiros, fresadores, eletricistas, tecelões, marceneiros, carpinteiros, mecânicos, sapateiros, serralheiros e pedreiros que consolidavam a civilização ur- bano-industrial em declínio.
Entretanto, grande parte, senão a totalidade, desse saber-fazer foi, progressivamente, deslocado e integra- do nos mecanismos automáticos das TIC. A energia, a informação e o conhecimento que estavam diretamente reportados ao saber-fazer de cada profissão do setor indus- trial, assim como o espaço-tempo do processo de trabalho e da organização trabalho confinado aos gestos, tempos, movimentos e pausas do ator fator de produção trabalho ligado a esse setor, ao setor de serviços e ao setor agrícola, foi, pela via estruturante das TIC, também objeto de uma redução drástica ou, na maioria dos casos, extinto.
Nos dias de hoje, para qualquer ser humano, ou, mais concretamente, para qualquer ator fator de produção tra- balho que tenha a fantasia de integrar plenamente o pro- cesso de produção, de distribuição, troca e consumo de bens e serviços analítico-simbólicos gerado pelas TIC e a globalização, deve, antes de mais nada, possuir competên- cias cognitivas e emocionais que lhe permitam, de forma amadurecida e adequada, categorizar a informação, o co- nhecimento e a energia diretamente reportada às funções e às tarefas que está incumbido de realizar. Em segundo lugar, qualquer ator fator de produção trabalho que queira integrar esse processo, não pode simplesmente reagir ou adaptar-se conforme o estipulado normativamente pelas estruturas e funções da organização do trabalho prevale- centes em qualquer empresa transnacional e em outras a ela associadas. Para decodificar e codificar, de forma ama- durecida e adequada, os fluxos e as redes de informação, conhecimento e energia que atravessam a mente, a psique e o corpo do ator fator de produção trabalho como siste- ma aberto, é necessário que os seus órgãos sensoriais sejam criativos, livres e espontâneos. Por outro lado, como siste- ma aberto, o ator fator de produção trabalho não pode ser simplesmente analisado com base na sua identidade intra- pessoal, ou seja, sua singularidade e suas potencialidades cognitivas e emocionais que poderão, eventualmente, lhe permitir a integração positiva no quadro normativo da ra- cionalidade instrumental do capitalismo.
Os estímulos-respostas, cujas causalidades e efeitos estruturantes têm a sua sede própria nos mecanismos automáticos, complexos e abstratos das TIC, sendo um produto histórico de milhares de milhões de seres huma- nos, são um imenso trabalho vivo coagulado de informa- ção, energia e conhecimento que necessita ser novamente produzido, distribuído, trocado e consumido em todos os segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos da trajetória biológica e social do ator fator de produção tra- balho. Este só existe e persiste, historicamente, enquanto instrumento ou meio mercantil de eficiência e eficácia nos parâmetros da evolução normativa da sociedade capitalis- ta. Em relação às competências cognitivas e emocionais que são exigidas a cada ator fator de produção trabalho que concorre e compete por um hipotético emprego e um hipotético trabalho em um mercado complexo e abstrato, há que se compreender a especificidade dessa concorrên- cia e competição dinamizada pelas TIC e a globalização em escalas territoriais e espaço-temporais das localidades, regiões e países que integram, atualmente, as sociedades contemporâneas.
Assim, quando nos situamos no contexto da coincidência do espaço-tempo virtual com o espaço-tempo real, o espa- ço-tempo da vida cotidiana de cada ator fator de produção trabalho é uma singularidade concreta que é objeto de uma diversidade gigantesca de estímulos analítico-simbólicos complexos e abstratos provindos da ação estruturante das TIC e da globalização. Na atual tendência de competição e concorrência, é um processo de aprendizagem e de acul- turação que ocorre no seio da família, nos grupos de refe- rência, nos locais de trabalho, em outros espaços-tempos e territórios possíveis da trajetória biológica e social de cada singularidade trazida na ação individual e coletiva do ator fator de produção trabalho. A este exige-se, para tanto, em cada espaço-tempo referido, competências comunica- cionais e afetivas. De antemão, entre pais e filhos, entre homens e mulheres, entre jovens e velhos. São relações in- terpessoais, intrinsecamente concretas, baseadas em cada olhar, em cada forma de falar, sentir, pensar e agir, todavia socializadas pelo peso estruturante dos estímulos-respos- tas provindos da capacidade afetiva e comunicacional das imagens, signos e significados produzidos, distribuídos, trocados e consumidos através da ação estruturante das TIC e da globalização.
No fundo, em qualquer circunstância, é um espaço-tem- po de probabilidades não lineares de emergir como um ator de aprendizagem efetiva através do interconhecimento in- crustado em relações sociais de características espontâneas e informais. Todavia, estas relações que permitem, poten- cialmente, o desenvolvimento de uma aprendizagem efe tiva no local de trabalho são, por outro lado, submergidas e atravessadas por fluxos e redes de informação, conheci- mento e energia normativas, gerando, simultaneamente, uma concorrência e competição interpessoal inaudita, quer entre colegas que têm as mesmas qualificações e recebem o mesmo salário, quer entre chefes e subordinados com dife- rentes qualificações, obtendo salários e exercício do poder diferenciados. A urgência e a emergência dos estímulos-
-respostas confinados à execução de cada tarefa ou função implica uma comunicação e socialização de afetos ama- durecida e adequada, traduzindo-se, desse modo, em uma concorrência e competição desenfreadas ao nível das rela- ções interpessoais. Em função das contingências das TIC e da globalização no processo de trabalho e na organização do trabalho, as relações interpessoais deixaram de ser deter- minadas pela ação coativa ou normativa da capacidade de liderança das chefias, das qualificações normativas repor- tadas à execução de tarefas dos subordinados e às decisões normativas dos decisores, uma vez que cada ator fator de produção trabalho é objeto de uma aprendizagem sistemá- tica como aprendiz de comunicação e de socialização de afetos através da TIC, quando da sua integração no pro- cesso de produção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços analítico-simbólicos.
Ao nos situarmos ao nível de relações sociais intragru- pais, intergrupais e intra-organizacionais, no âmbito de qualquer empresa ou organização, aumenta progressiva- mente o carácter abstrato e complexo do espaço-tempo da concorrência e da competição do ator fator de produ- ção trabalho, na medida em que aumenta, gradualmente, o processo de institucionalização e de formalização dos seus órgãos sensoriais, e estes, por outro lado, são cons trangidos a viabilizar a codificação e a decodificação de linguagens que têm a sua origem nos estímulos-respostas induzidos pelas TIC e pela globalização. Neste aspecto, quando discernimos sobre o conteúdo da globalização, devemos pensar na ação estruturante das empresas trans- nacionais. Devemos perceber o conteúdo e as formas da rede complexa e abstrata que integram a sua existência ao nível do espaço-tempo virtual em coincidência com a sua existência ao nível do espaço-tempo real. As articulações e as interdependências dessa rede se prolongam com base em uma subcontratação das transnacionais com uma sé- rie de empresas inseridas na economia formal em nível local, regional, nacional e continental. Isso não obstacu- liza, também e sobretudo pelos seus efeitos desviantes e perversos, que a implantação sistêmica global dos efeitos estruturantes das TIC e da globalização na referida rede se realize através da sua capacidade estruturante junto do mercado e das empresas que operam no mercado mundial da economia informal.
Podemos, desde já, admitir uma inevitabilidade estru- turante que teve repercussões imediatas na atual crise do capitalismo. O desemprego, tal como a precariedade do vínculo contratual nos setores emblemáticos do setor in- dustrial, são explicáveis pela inclusão da informação, do conhecimento e da energia do fator de produção trabalho na estrutura dos custos de produção dos setores automo- bilístico, químico, siderúrgico, têxtil, da indústria agro-alimentar, do cimento, do ferro e do vidro, mas também através de um crescendo progressivo do papel estruturante da técnica e da ciência no desenvolvimento da integração e automatização de informação, energia e conhecimento humano nas TIC. É um processo estruturante, irrefutável, de mudanças sistemáticas e profundas que evolui sempre no mesmo sentido, com incidências manifestas na estrutu- ração de problemas e desafios em relação à ação individual e coletiva do ator fator de produção trabalho no contex- to atual da racionalidade instrumental do capitalismo: a) acréscimo progressivo e irreversível da sua desqualificação, desemprego, precariedade do vínculo contratual, pobre- za, miséria, exclusão social, desvio e crime; b) acréscimo progressivo e irreversível das exigências de competências, probabilidades não lineares de emprego, probabilidades não lineares de estabilidade de vínculo contratual e, con- sequentemente, probabilidades não lineares de não seguir pela pobreza, miséria, exclusão social, desvio e crime.
Por outro lado, as TIC introduziram novas modalida- des de causas e efeitos em relação aos conteúdos e formas de socialização das atividades econômicas, sociais, políti- cas e culturais. Não estamos mais pensando, refletindo e agindo, como nos tempos passados dos “trinta gloriosos anos do capitalismo” centrados no exemplo emblemático do setor industrial. As matérias-primas (inputs) ao serem transformadas em mercadorias (“outras”) não são mais exteriores à condição humana, como eram e, ainda são, uma parte substancial dos recursos naturais em extinção, a água e o oxigénio que subsistem nas espécies animais e nas espécies vegetais que perduram no planeta Terra. Quando interagimos com as TIC, quando decodificamos e codificamos as suas linguagens, somos a matéria-prima fundamental, que tem ou não, capacidades cognitivas e emocionais para transformar informação, conhecimento e energia gerada (inputs), de forma amadurecida e ade- quada, em bens e serviços (outputs). Somos uma realidade comportamental que importa e exporta informação, co nhecimento e energia humana. Somos um sistema aberto concreto, cujas causalidades e efeitos singulares de interação, decodificação e codificação das linguagens analítico-sim- bólicas das TIC são, exclusivamente, informação, conheci- mento e energia humana. São matérias-primas internas e externas à condição-função do ator fator de produção tra- balho no quadro da racionalidade instrumental do capita- lismo. São uma probabilidade não linear de aprendizagem de competências cognitivas e emocionais, de aprendiza- gem de competências comunicacionais e afetivas, a partir dos cinco órgãos sensoriais, com especial incidência para o papel da audição e da visão no espaço-tempo confinado à produção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços analítico-simbólicos.
Saímos, portanto, da produção, distribuição, troca e consumo de mercadorias com características materiais denominadas, genericamente, de consumo corrente, para entrarmos num outro espaço-tempo de produção, distri- buição, troca e consumo de mercadorias imateriais ou, mais concretamente, bens e serviços analítico-simbólicos. Todavia, existe uma grande diferença entre as duas reali- dades. Enquanto o espaço-tempo da produção, distribui- ção, troca e consumo de bens mercantis observáveis à vista desarmada – como é o caso do automóvel, da química, da siderurgia, do ferro, do cimento, do vidro, da têxtil – obe- dece e é, perfeitamente, compatível com as lógicas espaço-
-temporais do curto, médio, e longo prazo, o mesmo não se poderá afirmar em relação ao espaço-tempo confinado à produção, distribuição, consumo e troca de bens e servi- ços analítico-simbólicos.
Esta tendência histórica não só torna mais complexa e mais abstrata as probabilidades não lineares de concor rência e de competição do ator fator de produção trabalho no quadro da racionalidade instrumental do capitalismo, como, por outro lado, o obriga a evoluir, irreversivelmente, por dois caminhos possíveis: a) desqualificação, desemprego, precariedade do vínculo contratual, pobreza, miséria, exclusão social, violência, desvio e crime; b) aprendizagem efetiva de competências, vínculo contratual instável, emprego, salários altos, probabilidades não lineares de identidade individual e coletiva com a ordem social vigente.
Todavia, o desemprego e a precariedade do vínculo contratual, como todos os substitutos estruturantes que enunciei, resultam, no meu entendimento, do fato de que mais de ¾ da população mundial não possui as ca- pacidades cognitivas e emocionais requeridas para uma aprendizagem efetiva de competências, que implicam a probabilidade não linear de decodificar e codificar, de for- ma adequada e amadurecida, as linguagens das TIC e da globalização, limitando-se, nas circunstâncias, a assumir uma série de papéis rotineiros pautados, invariavelmente, por gestos, movimentos, tempos e pausas reportados na perícia e na intuição centrada no saber-fazer energético do ator fator de produção trabalho. São papéis meramente reativos e adaptativos às contingências dos mecanismos automáticos das TIC, emergindo e funcionando como meros apêndices funcionais destas no que se refere à cria- ção de energia, informação e conhecimento reportado ao processo de produção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços analítico-simbólicos que integram o mer- cado mundial do atual processo de industrialização e de urbanização das sociedades contemporâneas.
Pela sua plasticidade social e incidência nas sociedades contemporâneas, revela-se um processo de competição e de concorrência irreversível, cujos resultados são bem visí- veis no aumento drástico das taxas de desemprego, da pre- cariedade do vínculo contratual, da pobreza, da miséria, da exclusão social, do crime e do desvio em escala mundial. A realidade normativa e as expectativas racionais dos “trinta gloriosos anos do capitalismo”, ao desmoronarem, criam, paulatinamente, uma série de medos, atavismos seculares, inseguranças, angústias e frustrações cotidianas com refle- xos profundos na população mundial e, sobretudo, junto daqueles que, potencialmente, aspiram a usufruir de em- prego e trabalho estável. Tanto um quanto outro dos fa- tores referidos tornaram-se uma “espécie” de miragem ou de maldição histórica em relação à estabilidade emocional e cognitiva de qualquer indivíduo aculturado nos parâ- metros da sociedade capitalista atual. No sentido amplo do termo, só existe emprego e trabalho, hipoteticamente, para controlar ou erradicar o desvio, o crime e a violência provocados pelas perversões e disfunções de um sistema social global pautado por uma vida cotidiana atravessada por pulsões de morte4. De fato, persiste uma tendência ir- reversível para aumentar o volume de emprego e de traba- lho à escala mundial. Todavia, o único trabalho e emprego que aumenta, exponencialmente, fundamenta-se na socia- lização efetiva das pulsões de morte dos múltiplos grupos socioprofissionais em crise, cuja razão de ser só pode ser vivenciada nas várias frentes de guerra que subsistem nos níveis local, regional, nacional e continental.
São tipos de guerra incrustados em uma vida cotidiana sem sentido face à ignorância das contingências das TIC e da globalização. São, por outro lado, tipos de guerra resul- tantes da impotência histórica do ator fator de produção trabalho em arranjar trabalho e emprego no espaço-tem po macro-societal e no espaço-tempo micro-societal. A luta pelo emprego e pelo trabalho são extremamente vio- lentas, com incidências vivenciais sistemáticas e profun- das no imaginário individual e coletivo de cada ator fator de produção trabalho que habita, atualmente, o planeta Terra. Como corolário lógico, o crime, o desvio e a violên- cia começam a ser um dilema ou um problema psíquico, mental e físico, cujo locus central é intrapessoal.
O mal-estar civilizacional começa, assim, em qualquer indivíduo e generaliza-se a todos os outros que deixaram de ser produtores de sentido pelo fato de não poderem sub- sistir, historicamente, sem trabalho e sem emprego. Essa realidade afeta, de antemão, toda a estabilidade emocional e cognitiva intrapessoal de qualquer indivíduo que aspira ser um ator normativo no quadro da racionalidade instrumen- tal do capitalismo. Vários sintomas emergem em grande es- cala. O sofrimento, a frustração, a insegurança e o medo se traduzem, muitas vezes, no desvio e no crime contra a pró- pria pessoa, como é o caso emergente das taxas de suicídio de grupos socioprofissionais que concorrem e competem no exercício de funções e tarefas diretamente reportadas à socialização das pulsões de morte no processo de trabalho e da organização do trabalho das empresas transnacionais e em outras empresas a elas associadas.
Este mal-estar civilizacional é resultante do papel ins- trumental que o ator fator de produção assume no contex- to da sociedade capitalista. Desde que não se transforme em um objeto mercantil eficaz, não integra o processo de produção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços e, consequentemente, é marginalizado ou excluído. Para todos estes, só lhes resta seguir pela guerra civil interindi- vidual que subsiste à escala planetária. Como já referimos, não obstante o seu locus principal residir, primacialmen- te, em fatores intrapessoais, a generalização desta guerra tem um espaço-tempo privilegiado nas relações interpes- soais. No espaço-tempo da família, dos grupos primários de referência, assim como no espaço-tempo do local de trabalho e nos locais públicos, emerge uma série de des- vios e de crimes violentos, cuja plasticidade social, no que concerne às tipologias de relações sociais interpessoais, se torna cada vez mais visível nas relações entre homens e mulheres, entre pais e filhos, entre membros de um mes- mo grupo, entre colegas de trabalho, ou entre quaisquer indivíduos que frequentam os espaços públicos.
Esta guerra civil interindividual se generaliza por uma série de redes sociais intragrupais, intergrupais, intra-
-organizacionais, interorganizacionais, intra-societais e inter-societais que, pela via estruturante da sua interdepen- dência e complementaridade sistêmica, emergem natural e espontaneamente através da coincidência do espaço-tempo virtual com o espaço-tempo real. Mais uma vez nos da- mos conta de que estas redes sociais resultam dos efeitos estruturantes das TIC e da globalização. Estas permitem e estimulam relações sociais de natureza complexa e abstrata, criando, por essa via, redes sociais infinitas, sem que, para tanto, cada indivíduo que as integra necessite assumir a sua natureza psíquica, mental e física em um espaço-tempo concreto mediatizado pela co-presença física e pelo inter- conhecimento. Não sendo produtores de sentido no quadro da racionalidade instrumental do capitalismo, a emergência da coincidência do espaço-tempo virtual da complexidade e da abstração com o espaço-tempo real da complexidade e da abstração transforma, potencialmente, qualquer indi- víduo em um ator fator produção trabalho desviante, que segue, facilmente, para uma situação de crime. São estas pulsões de morte que alimentam e reproduzem a guerra civil interindividual em que estamos submergidos.

Considerações finais
Na minha opinião, a famigerada e tão atribulada crise que incendeia as mentes, as psiques e os corpos dos que ainda pretendem reformar ou salvar um sistema social moribundo é uma crise de ignorância generalizada. Claro que é uma crise do sistema capitalista em escala mundial, com especial incidência nos sistemas financeiro, político, econômico, social, cultural e civilizacional.
Contrária às teses schumpeterianas que viam na vo- cação destruidora do capitalismo uma função histórica inovadora e criativa, na minha opinião, na atualidade, o capitalismo tem poucas hipóteses de inverter o caminho que vem gerando a sua própria negação. Esta primeira conclusão parece paradoxal, mas não é.
Como resposta à crise que atravessa, a única hipóte- se que lhe resta consiste em caminhar no sentido inverso ao da destruição do mercado orgânico, o que implica a produção de oxigênio e de água, que são vitais para re- constituir solos, montanhas, rios, mares, oceanos, flores- tas, espécies animais e espécies vegetais que integram o planeta Terra. Para esse efeito, é crucial transformar tudo o que é inorgânico em orgânico. Mais uma vez, na minha opinião, como consequência dessas mudanças imperativas, é crucial destruir todos os sistemas urbano-industriais que tenham ultrapassado os limites da auto-sustentabilidade e da auto-organização territorial, ambiental, administrativa, econômica, política, social e civilizacional. Para tanto, é fundamental limpar e reconstituir montanhas, florestas, rios, mares e oceanos. Destruir tudo o que tenha a ver com fábricas, matadouros, auto-estradas e indústria agro-
-alimentar que subsiste da civilização urbano-industrial, que, como referi neste texto, vive às custas da produção, distribuição, troca e consumo da escravidão e morte das espécies animais e vegetais.
Como segunda conclusão, a atual crise do capitalismo resulta do hiato existente entre as atividades econômicas circunscritas ao espaço-tempo real e às atividades econômi- cas circunscritas ao espaço-tempo virtual. Entre produção, distribuição, troca e consumo de mercadorias de natureza material e produção, distribuição, troca e consumo de mer- cadorias de natureza imaterial. Na ocorrência, pura e sim- plesmente, os atores que intervêm nos interstícios desse processo, na maioria dos casos, estão em uma situação de omissão e de dissonância comportamental, de ineficiência produtiva e de ignorância em relação ao espaço-tempo da produção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços analítico-simbólicos. Não existindo produção de sentido por parte do ator fator de produção trabalho, nada existe para produzir, distribuir, trocar e consumir. Com atores sem competências comportamentais analítico-simbólicas, não há produção de sentido e, consequentemente, maxi- mização do lucro. Nestas circunstâncias, a atual crise do capitalismo é personificada por uma imensa ignorância de informação, conhecimento e energia em relação à maioria dos atores que integram o referido processo.
Como uma terceira hipótese conclusiva e resposta pos- sível à crise do capitalismo, para este subjaz a necessidade histórica imperativa de extinguir a guerra civil interindivi dual baseada em processos de socialização e de sociabili- dades pautados pelas pulsões de morte. Neste âmbito, para que os indivíduos readquiram uma nova probabilidade de se transformarem em produtores de sentido, é crucial que as relações intrapessoais, interpessoais, intragrupais, intergru- pais, intra-organizacionais, interorganizacionais, intra-so- cietais e inter-societais evoluam no sentido da cooperação, da liberdade, da criatividade e da responsabilidade. Para tanto, em presença das contingências das TIC e da globa- lização, é crucial que essas relações sejam intrinsecamente espontâneas e informais, que emerja a democracia direta e a auto-organização no espaço-tempo do processo de tra- balho e da organização do trabalho. Evoluir, nesse sentido, implica inverter o processo histórico civilizacional do pro- gresso e da razão que culminou na institucionalização e for- malização do ator fator de produção trabalho em um mero objeto mercantil no quadro da racionalidade instrumental do capitalismo. Implica, desde já, seguir por um processo de aprendizagem e aculturação sistemático e profundo, cujo sentido histórico culmina na construção de uma nova civi- lização sem chefes nem subordinados, sem divisão do tra- balho e sem autoridade hierárquica formal. É um processo sistêmico global que começa na família e se estende a todos os espaços-tempos da vida cotidiana dos indivíduos que atualmente fazem parte da espécie humana e que integram as sociedades contemporâneas do planeta Terra.
Notas
[1] O presente artigo foi originalmente apresentado no workshop “Próximo Futuro/Near Future”, organizado pela da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, entre 12 e 13 de novembro de 2009.
[2] O conceito “ator fator de produção trabalho” especifica a condição-função do trabalhador ou do operário no processo de produção de mercadorias e, mais concretamente, no âmbito do modo de produção capitalista.
[3] Worldometers. Disponível em: http://www.worldomeersrs.info/pt/ (acesso em: 12/02/2012).
[4] O termo “pulsão de morte” é empregado para exprimir que a energia, o conhecimento e informação dos seres humanos, seja numa perspectiva indi- vidual ou coletiva, estão orientados e estruturam-se no sentido da negação da vida.

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