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Anarquistas argentinos apostaram nos impressos como arma para a libertação – Entrevista com Eduardo Cunha

Written by Ho Dolpho

Entrevista com Eduardo Cunha por Laura Barrio

Parte importante da atuação de grupos políticos se dá pela propaganda ideológica e organização da sociedade em torno de ideias. Com esses objetivos, ocupam papel de destaque os materiais de conteúdo político impressos e distribuídos à população. Eduardo Souza Cunha se debruçou sobre a publicação de impressos de grupos anarquistas no período inicial do movimento operário de Buenos Aires na dissertação de mestrado Editar a revolta: a edição e a circulação de impressos anarquistas em Buenos Aires (1890-1905), desenvolvida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

“A partir das últimas décadas do século 19, a Argentina viveu seu processo de modernização e as contradições sociais que ele acarreta”, contextualiza o historiador. Nesse período o país cresceu economicamente, estimulado pela exportação de parte da sua produção agrícola e pecuária. Nesse cenário, a Argentina “se tornou um dos principais destinos da imigração transatlântica”. Os imigrantes foram, em sua maioria, para Buenos Aires, capital nacional e onde se localizava o maior porto do país. “Comparando o censo de 1887 com o de 1904, vemos que a população da cidade mais do que dobrou, chegando a quase um milhão de habitantes. Desses, metade eram imigrantes”, revela Cunha.

Os estrangeiros recém-chegados, a maioria sem nada no bolso, se submetiam a condições degradantes de trabalho: “Recebiam salários baixíssimos após jornadas de 10 a 12 horas”, conta o pesquisador. Era comum, nessa época, que as famílias operárias não conseguissem fechar seu orçamento do mês: “Ou havia dinheiro para a comida ou havia dinheiro para comprar remédios, não era possível arcar com os dois custos”.

Diante desse cenário, “os trabalhadores começaram a se organizar e lutar por melhores condições de vida. Alguns deles iam além: não queriam apenas um trabalho menos penoso e com um salário melhor, queriam acabar com o próprio sistema de assalariamento, por meio de uma revolução social”. Começaram a surgir, assim, as primeiras organizações operárias. Além dos sindicatos, foi fundada em 1901 Federação Operária Argentina (FOA). Conforme Cunha, a entidade teria papel de destaque na primeira greve geral da história da Argentina, ocorrida em 1902.

Entre os trabalhadores organizados, os anarquistas ocuparam posição importante: atuantes desde a década de 1880 na criação de sindicatos, com o tempo se tornaram a força hegemônica do movimento operário do país. Exemplo simbólico dessa influência pôde ser visto em 1904, “quando a FOA mudou de nome para FORA, incluindo o ‘R’ de regional, mostrando a ideia internacionalista de enxergar o mundo sem fronteiras e, assim, vendo a Argentina apenas como uma região do mundo. O outro exemplo é no ano seguinte, em 1905, quando no Congresso da FORA deliberou incluir no estatuto da federação a defesa e a propaganda do ‘comunismo anárquico’”, conta Cunha.

O pesquisador lembra que os conflitos entre capital e trabalho não foram os únicos temas sobre os quais formularam os anarquistas. “Eles tiveram grande trabalho cultural. Havia uma grande promoção de peças de teatro, foram fundadas diversas bibliotecas, além da publicação de jornais, livros, folhetos e revistas”. Além disso, Cunha destaca a luta pela emancipação feminina já naquele período: “É em Buenos Aires que foi publicado o primeiro jornal da história do anarquismo feito exclusivamente por e para mulheres. O La Voz de la Mujer, publicado entre 1896 e 1897, deixava claro que as mulheres eram duplamente exploradas: pela sociedade e pelos homens”.

Jornais, revistas, livros, folhetos, almanaques: várias eram as formas impressas produzidas pelos grupos anarquistas naquele período. “Eles se organizavam em pequenos grupos editores formados por trabalhadores reunidos de maneira voluntária para publicar impressos com o objetivo principal de difundir suas ideias”. Não havia expectativa de retorno financeiro ou lucro. Dessa forma, a estratégia utilizada pelos grupos para arrecadar dinheiro para cobrir os custos de impressão era a de “subscrição voluntária” — uma coleta de doações, “em geral de poucos centavos”.

Na distribuição dos materiais produzidos, os anarquistas utilizavam uma lógica semelhante: eram distribuídos pela quantia que o leitor oferecesse. A “contribuição voluntária” era sintetizada pelo lema “a cada um o quanto pode”, conta Cunha.

Alguns livros e folhetos alcançaram tiragens grandes para o período. Enquanto os “best-sellers” da época tinham tiragens em média de 20 mil, algumas produções anarquistas chegaram a 10 ou mesmo 15 mil exemplares cada uma. “O La Protesta, principal jornal anarquista da época, conseguiu adquirir sua própria gráfica e se tornou um diário a partir de 1904”, exemplifica Cunha.  

Questionado sobre a censura enfrentada por esses grupos, o pesquisador revela que “curiosamente, até 1902, os anarquistas gozavam de uma considerável liberdade de expressão”. E explica a situação “pela formação da república oligárquica daquele período, com forte influência do liberalismo”. O cenário, contudo, mudou após a greve geral de 1902: “Diversos militantes foram presos e deportados ou então se viram obrigados a saírem da Argentina. Anos depois, em 1910, a situação piorou com a promulgação da Lei de Defesa Social, que previa a prisão de quem fizesse ‘apologia de delitos’. Um dos alvos eram atingir a imprensa anarquista e sua propaganda anticapitalista e contra o Estado”.

Quanto ao impacto dessas produções na sociedade argentina, o historiador conclui: “É difícil medir o seu impacto direto na realidade. Podemos repetir a pergunta feita pelos historiadores da Revolução Francesa: será que os livros podem fazer uma revolução? No caso do anarquismo em Buenos Aires, podemos apenas afirmar que a palavra impressa era vista como uma arma para construir no imaginário a possibilidade de uma sociedade em que os trabalhadores substituíssem o Estado e o capitalismo por sua própria organização”.

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