Entrevistas & Idéias

Entrevista com o Centro de Cultura Social -São Paulo

Written by Ho Dolpho

É com muito carinho que compartilhamos essa entrevista feita, junto ao Instituto de Estudos Libertários (IEL), com xs amigxs do Centro de Cultura Social – São Paulo.

IEL – Queria que vocês falassem um pouco da história do CCS, como foi que surgiu, quais mudanças aconteceram deste o começo do CCS até hoje?

CCS-SP – O Centro de Cultura Social de São Paulo é o remanescente de uma prática comum do movimento libertário no Brasil. Tem como principal objetivo o aprimoramento intelectual, a prática pedagógica e os debates públicos.

Para tanto lança mão de meios como palestras, cursos, seminários, filmes, peças teatrais, entre outros, além de manter um acervo de arquivo e biblioteca voltada principalmente para o anarquismo.
O Centro de Cultura Social de São Paulo foi fundado em 14 de janeiro de 1933 como remanescente das entidades culturais criadas pelo movimento anarco-sindicalista e libertário nas primeiras décadas do século XX.

Quando o fluxo imigratório se acentuou a partir dos últimos anos do século passado, os trabalhadores que aqui chegavam, muitos deles saídos da militância anarquista na Europa, ao organizarem suas sociedades de resistência, não só para luta por melhores condições de vida, mas movidos, por ideais de transformação social, passaram a criar seus centros de cultura.

Cada associação, união, liga ou como se chamasse a entidade profissional fundada, procurava criar seu centro, ateneu ou grêmio cultural, transportando para o Brasil a prática do Movimento Libertário europeu e a preocupação permanente dos anarquistas com a educação e a cultura.

Criou-se uma vasta rede de entidades culturais entre os trabalhadores, com suas bibliotecas, publicações, elencos teatrais etc.

Essas entidades se espalharam pelo Brasil, com predominância em São Paulo e Rio de Janeiro.

A partir de 1930, com o refluir do movimento – por uma conjugação de fatores que não cabe tratar aqui – decidiram os militantes de São Paulo fundar uma entidade que, atendendo aos seus objetivos culturais e educativos servisse de instrumento para desenvolver suas atividades, como marco inicial de uma retomada na caminhada dos ideais libertários.

Além das conferências, cursos, exposições, montagens teatrais com grupo próprio etc., o Centro de Cultura Social participa de campanhas políticas de envergadura, como a luta antifascista, juntamente com o jornal “A Plebe” e outros órgãos libertários. Promove comícios, publica panfletos e em sua sede se reúnem os militantes que culminam com o enfrentamento contra os integralistas no dia quatro de outubro de 1934.

As lutas dos trabalhadores sempre tiveram o Centro de Cultura Social presente.Em 1937, em consequência do golpe fascista de Getúlio Vargas, o Centro foi fechado, reabrindo em 2 de junho de 1945 e novamente sustou as atividades no dia 21 de abril de 1969, logo após ser promulgado o Ato Institucional n.º 5, embora houvesse resistido à ditadura militar desde março de 1964 até aquela data, com a criação do Laboratório de Ensaio, a mais fecunda experiência do Centro de Cultura Social no campo das artes. Nesse período, esteve sempre em conjunto nas ações o movimento libertário brasileiro, principalmente no eixo Rio-São Paulo. Constava o endereço de sua sede na rua Rubino de Oliveira nas duas últimas publicações da impressa anarquista (O Libertário e Dealbar). Mesmo após o fechamento em 1969, os seus componentes estiveram atuantes, mesmo que clandestinamente, nas discussões do movimento libertário durante a década de 1970, seja em reuniões clandestinas na sapataria dos irmãos Cubero, no bairro do Brás, quanto nas reuniões no sítio localizado em Mogi das Cruzes, São Paulo.

Não sendo possível prosseguir, só voltou plenamente à vida ativa a partir de 14 de abril de 1985. A forma em que essa reorganização se deu foi de certa forma parecida com o momento de 1945. Os companheiros que se mantinham em prontidão durante a década anterior, viram a reorganização da reabertura do CCS, como local público de difusão do anarquismo, além de uma forma de confluência dos militantes e simpatizantes para aquele período de redemocratização do início dos anos de 1980. Algumas ações foram importantes para essa retomada como a encenação de peças teatrais pelo grupo Anarchos em 1985 e 1986; tentativa de articulação de núcleos pró-COB e comemorações de 100 anos do 1º de Maio em 1986; participação da Bienal do Livro com a editora Novos Tempos e comemorações dos 70 anos da Greve Geral de 1917 e Revolução Russa m 1987; participação com a Fundação Cultural São Paulo e da Faculdade de Ciências Sociais da PUC/SP do evento “Outros 500: Pensamento Libertário Internacional” em 1992; articulação de uma rede em nível nacional, NÓ/SP -Núcleo de Ação e Propaganda de São Paulo, com reuniões na sala e utilização de uma coluna no boletim do CCS, dentre várias outros eventos.

É de notar que o ano de 1998 foi de grandes perdas para o CCS e para o movimento anarquista em geral. Em maio, morre Jaime Cubero, em outubro Antonio Martinez, o Martins e, em novembro, Maurício Tragtenberg, falecimentos que foram se prolongando até praticamente não haver mais elementos da velha guarda entre nós. Ainda no ano de 1998 é formado um novo grupo teatral com nome de “06 de abril”, que permaneceu ativo por uma década aproximadamente. Já com um movimento anarquista maior e diversificado, não sendo mais tão correlacionado com aquele que emergiu das década 1980, houveram outros eventos bem mais plurais desde então, fazendo que as atividades do CCS fossem mais miscíveis com os dos demais grupos que surgiam, com a participação no início dos anos 2000 das reuniões da Ação Global dos Povos (AGP), diversas manifestações de rua, como o 1º de Maio em Santos, o S26 e o A20 em São Paulo e dos debates sobre organização anarquista ocorridos no Encontro Internacional de Cultura Libertária, em Santa Catarina.

No início dessa reabertura, o fato de ter um local fixo e aberto ao público, propiciou a caracterização do CCS como um espaço de encontro e cruzamento importante no movimento libertário, principalmente em São Paulo, sendo então a manutenção desse espaço de grande importância.

Devido aos sempre persistentes problemas financeiros, em março de 1987, o CCS perde uma das duas salas que ocupava na Rua Rubino de Oliveira, saindo por fim do nº 85 para o nº73 em 1993 e logo depois, subloca uma sala da Editora Arquipélago na rua Borges Lagoa, 245, para utilização apenas aos sábados. Em julho de 1994 o CCS deixa de existir enquanto espaço público e passa a sublocar salas de terceiros – Subsede dos Químicos no Belém. No dia 06 de julho de 1996 o Centro de Cultura Social, abre novamente suas portas ao público, desta vez à Rua dos Trilhos, 1365 e no início de 2002, muda de endereço novamente para Rua Doutor Vila Nova, nº81 e outra vez mais, em 2004, indo para o número 191 da Rua Inácio de Araújo, no Brás.

Todas essas idas e vindas faz, no final de 2005, a lançar uma nova campanha pela sede própria, que de forma muito feliz convergiu vários companheiros e simpatizantes de São Paulo, demais regiões do Brasil e da Itália, França e Portugal, com substancial aporte dos companheiros da “Nossa Chácara”, sendo possível, após sete décadas, adquirir a sua sede própria, em 2007.

Algo que tem de ser lembrado é que, mesmo com os períodos de fechamento, em suas reaberturas sempre havia os elementos pertencentes à fase anterior, num exercício de continuidade dos trabalhos, mas com a presença de uma nova geração, fomentada nos períodos de recesso e mesmo sendo de épocas e com histórias diferentes, cada nova geração dentro do CCS definia sua forma de ser, sem contudo perder aquilo que o CCS tem como essencial: ser um espaço da memória anarquista, da preservação de uma determinada forma de ser do movimento anarquista, espaço de debate, de resistência e de luta.

IEL – Vocês carregam um fardo um pouco pesado pela importância para o anarquismo de diversos integrantes do CCS que já se foram, para ficarmos em um exemplo, o próprio Jaime Cubero. Como vocês lidam com isso? Há realmente um fardo ou uma cobrança ou não? Qual o legado dessas pessoas para vocês?

CCS-SP – De certa forma sim. O CCS por conta de sua longa história e tradição está associado a uma série de situações e pessoas que tem relevância na história do anarquismo no Brasil.

Quando falam do CCS, muitas vezes ainda se referem aos “velhinhos”, forma carinhosa como chamavam nossos queridos companheiros e companheiras, hoje, quase na totalidade falecidos.

As comparações são inevitáveis. Tentamos manter esse legado, porém não somos as mesmas pessoas nem vivemos os mesmos contextos políticos, econômicos e sociais.

As diferenças e particularidades dessas comparações nem sempre são positivas para nós que aqui estamos. Tentamos fazer o nosso melhor reconhecendo nossas potencialidades e limitações.

O legado dos que pelo CCS passaram, principalmente os “velhinhos” são inúmeras, o aprendizado que tivemos foi significativo.

Durante os anos de 1985 a 1990 com raríssimas exceções o CCS foi o único espaço publico anarquista aberto ao publico. Muitas foram as pessoas que pelo CCS passaram e de lá levaram ideias e exemplos para criar outros espaços e experiências libertarias por todo Brasil.

Entendemos o CCS como um espaço de resistência, uma forma de manter viva a memória dessa trajetória, trabalhar para a organização e difusão das ideias e ideais do anarquismo, da nossa organização como trabalhadores e oprimidos que buscam superar as contradições do sistema político e econômico vigente.

É inegável que quando trabalhamos na biblioteca no serviço de livraria, recepcionamos, atendemos as pessoas, zelamos pelo espaço buscando mantê-lo limpo, organizado e acolhedor nos remetemos a memória do aprendizado que tivemos com esses velhinhos.

Entender que só aprendemos no coletivo e que com o coletivo compartilharmos nosso aprendizado foi sem duvida o maior de todos os legados que esses companheiros e companheiras nos deixaram.

IEL – Vivemos um período de retiradas de direitos de uma boa parte da população, particularmente enxergo isso como mais um ciclo do capitalismo mundial, como foi no período dos anos 70/80. Sem querer propor que vocês falem de uma possível solução, ou uma taxação de regra à “militância anarquista” nesses períodos, aonde vocês enxergam a importância de nossas práticas e atividades nesses períodos e aonde devemos forcar nossas lutas?

CCS-SP – Se considerado que mesmo na década de 1930, mesmo sem a mesma influência que das duas décadas passadas, o anarquismo mantinha o discurso aos trabalhadores junto com a proposta de mudança da sociedade. Essa fala podemos ver registrada nos artigos da imprensa anarquista. Além disso, a proposta de difusão das ideias e práticas libertárias, pelo trabalho, por exemplo, do Centro de Cultura Social em São Paulo e Centro de Estudos José Oiticica no Rio de Janeiro, deram maior ênfase à prática de difusão cultural, além de uma imprensa libertária e experiência de educação libertária, dentre outros. Embora não fosse a única, vemos que essa característica que mais se denotou no movimento libertário até 1960. Na década de 1970 o jornal O Inimigo do Rei, que contava como alguns elementos do CCS como colaboradores, já colocava em pauta temas que não figuravam nesse discurso majoritariamente do mundo operário e que essa mescla não se deu sem algum conflito.

Aproximadamente dos anos de 1970 a 1977 são tempos de forte controle da ditadura militar e consequentemente de ações menos ousadas dos trabalhadores. Companheiros pulavam muros de fábricas para fazer colagem e panfletagem do lado de dentro, talvez já anunciando as greves que viriam a partir de 1978 na região de Osasco e do ABC paulista. Essas greves, os assassinatos mascarados de suicídio, etc., que pela comoção contribuíram para o processo de discussão da Anistia ainda que vemos os militares e seus asseclas tentando intimidar o povo mas que seria promulgada em 1979. Temos ainda a partir dos anos de 1980 uma forte recessão e os trabalhadores vão as ruas

Durante todo esse período parte dos anarquistas de São Paulo se reúne na loja dos irmãos Cubero “Calçados Cuberos” que ficava no Brás ou no sítio em Mogi, de lá já planejavam reabrir o CCS.

Se pensarmos no Anarquismo nesse período, para os que não o conheciam parecia ainda mais exótico. Lembremos que eram pouquíssimas as publicações de fato anarquistas, muitas de caráter bem duvidoso, algumas de editoras comerciais.

Nesse sentido a reabertura do CCS foi fundamental, estabeleceu um local de formação, discussão e organização para os anarquistas da cidade de São Paulo, outras cidades do estado e ate alguns outros estados do Brasil. Esse movimento em que se incluía a reabertura do CCS possibilitou o contato entre muitos trabalhadores, estudantes e professores universitários, jovens de diferentes movimentos como, por exemplo, o punk. Possibilitou acesso a uma literatura que ate então não conhecíamos, sejam livros jornais ou revistas do Brasil e exterior.

Mudanças estão ocorrendo no mundo do trabalho com a introdução de novas tecnologias como computadores e robôs. Além disso uma nova lógica de organização da produção começa a ocorrer, não se produz para estocar e sim para atender a demanda. O trabalhador, apertador de parafuso com a produção em série, tem de aprender a ser polivalente, executar inúmeras atividades dentro do processo de produção. Características da chamada 3ª Revolução Industrial.

Os sindicatos são aparelhos dos partidos políticos, boa parte dos dirigentes dos grandes sindicatos se candidatam e muitos se elegem, se reelegem perpetuando-se no poder seja nas diretorias dos sindicatos, alguns entre 10 a 20 anos ou então nos cargos políticos. O sindicato perde seu papel de organização dos trabalhadores, de luta por melhorias nas condições de trabalho e de salário para se dedicar a pautas eleitoreiras.

No CCS, os que mais atuam já são aposentados o que leva a certo distanciamento dos trabalhadores, considerando sua localização e a realidade local, não sem tentativas ou resistências, se distanciam da organização dos trabalhadores e moradores do entorno.

Desta forma o CCS vai se caracterizando como um espaço da memória de uma forma de praticar o anarquismo. Em um espaço de resistência, de organização do anarquismo. De produção e difusão do anarquismo.

Mesmo que já ocorresse anteriormente, vemos nessas duas últimas décadas um grande afluxo de atividades e militâncias junto a movimentos sociais e causas identitárias — inclusive levantando temas menos trabalhados no passado como homofobia, racismo, sexismo, etc. —, com variações, matizes, pautas e formas de inserção e lutas diferentes. Pode se levantar se isso está ou não inserido num processo dentro da pós-modernidade, mas não dá para negar que a atual composição, pauta e discurso do movimento libertário se difere consideravelmente daquilo que vimos desde a década de 1930.

Urge a necessidade de se repensar para se reinserir dentro das lutas dos trabalhadores e dos oprimidos.

Enfim, nós, os que chegamos depois, passamos a ser comparados com os velhos militantes e de fato, ainda quem em partes, temos de trabalhar para dar conta de coias que muitas vezes estão além de nossas possibilidades.

IEL – Em nossa perspectiva, desde a virada do século XXI, vivemos um período de bastante crescimento das reflexões sobre o anarquismo. Enxergo que a teoria Queer, o fortalecimento do movimento negro no Brasil e no mundo, assim como novas perspectivas feministas e mulheristas trouxeram reflexões e um crescimento importante para a práxis anarquista. Gostaria de que vocês comentassem sobre a influência desses movimentos para o anarquismo e se vocês enxergam essa importância?

CCS-SP – Considerando o refluxo do que entendemos por movimento organizado dos trabalhadores, as mudanças que ocorrem no mundo do trabalho, inclusive com as mudanças na legislação, os sindicatos e o movimento dos trabalhadores perdem importância e os movimentos feministas, movimento negro, LGBT ganham mais visibilidade e se tornaram ainda mais relevantes.

Temas como falta de moradia se tornam mais visíveis que o próprio movimento pela reforma agrária. A luta dos indígenas e quilombolas dentro da perspectiva agrária é que vão ganhando força.

Precisamos fazer uma ressalva.

Nos últimos anos sentimos, a palavra correta talvez fosse até certa hostilidade, no que diz respeito a essas pautas e movimentos. Em algumas atividades pessoas chegam a dizer que só é contada a história dos brancos heterossexuais.

Às vezes na mesma obra o autor colocou uma nota ou fez um comentário explicando sua posição. Esses cuidados não tem sido suficientes para deixar claro a posição do autor, assim ele é acusado de racista e machista. Evidente que isso pode acontecer e acontece. Porém em alguns casos faz-se uma leitura muito superficial, equivocada e talvez ate tendenciosa.

Conversando com um companheiro que trabalha no projeto “ACR – Anarquistas Contra o Racismo” concordamos que a questão da mulher, dos negros e indígenas, do movimento LGBT sempre existiu, porém adquirem mais visibilidade e relevância na contemporaneidade. Também há o relato de um companheiro do CCS que ouviu de uma companheira que ao chegar da Espanha em meados do século passado, ainda criança, no porto de Santos, ficou muito impressionada ao ver pela primeira vez um homem negro, talvez estivador, comendo ali mesmo, arroz branco.

Existem documentos que só tivemos acesso recentemente, por exemplo, fotografia, e só agora percebemos a quantidade de pessoas negras nas manifestações da greve geral de 1917, bem como de policiais negros. Naquele momento como em outros da história do Brasil, para uma população tão excluída, estar na “força pública” era uma forma de ascensão social.

Sem dúvida que o olhar do pesquisador, seja ele anarquista ou não, indiferente da etnia e do gênero, com raríssimas exceções, foi pouco sensível à presença das mulheres, negros e homossexuais nas manifestações do movimento anarquista. Dessa forma deu-se pouco valor e visibilidade a essas pessoas o que é um erro e um problema sério.

Contudo, pensando na história do movimento anarquista no Brasil, sentimos como se muito, não tudo, ainda estivesse por se fazer, temos enormes hiatos sobre vários períodos, organizações são pouco conhecidas, as biografias de participantes são pouco estudadas. Muito se esta por fazer.

Existem documentos que estão com determinados grupos e indivíduos que sequer temos acesso e são de enorme relevância para o resgate dessa história.

Então é fato, existem equívocos e erros graves, mas primeiro consideremos a história a partir do contexto. Segundo que não é só a presença feminina, dos negros ou de homossexuais que não está contemplada. Muito está por se fazer. Partindo dessa constatação o que fazer? Nós mesmos quando de nossas leituras estarmos mais atentos e quando algum nos procurar para colaborar com alguma pesquisa, ainda que o foco da pesquisa não aborde essas pessoas, sugerir um olhar mais atencioso e uma produção sobre as mesmas.

São movimentos relevantes e precisam de nosso olhar para o resgate de sua história, ou seja, estudo, não só como ação individual, mas do compartilhamento dessas pesquisas através dos grupos de estudos, de nossa sensibilidade para ter o cuidado de oportunizar mais espaços dentro da organização dos próprios coletivos e trazê-los para nossas atividades, para o publico.

IEL – Um assunto que não poderia ficar de fora é 2013. Vocês acham que 2013 trouxe algum tipo de fortalecimento para o anarquismo? Se sim, que tipos de fortalecimento.

CCS-SP – As manifestações de 2013 não foram só por conta dos 20 centavos de aumento das passagens de ônibus. Podem ate ter iniciado com essa pauta, mas é o acúmulo de uma insatisfação crescente por toda uma série de desmandos que começam a ser denunciadas e vão ganhando força.

Se lessem as pessoas veriam o quanto que o anarquismo está correto quanto à análise do papel do Estado enquanto instrumento de dominação de classe, concentração de privilégios e poder nas mãos de poucos e a exclusão da maioria. O papel dos políticos como intermediários entre os interesses da classe dominante e o estado, espaço que dominam seja no legislativo ou executivo. Os políticos assim como o judiciário legislam e decidem em causa própria atendendo a seus interesses de classe, políticos partidários e interesses particulares, não obrigatoriamente nessa ordem. Quanto que a justiça não é cega e imparcial, enxerga pelo olhar do homem branco, heterossexual e religioso. As religiões, fonte de mais privilégios, através de seus cleros e castas trabalham para garantir mais alienação e submissão de boa parte dos trabalhadores e oprimidos.

As manifestações de 2013 também têm também como pano de fundo as desigualdades, a corrupção, as mentiras antes das eleições—ninguém defende aumentos antes das eleições.

Começam com as manifestações dos jovens contra o aumento das passagens, mas a rotineira resposta do Estado através da sua força repressiva, a polícia, é sempre a mesma porrada e prisão. Em partes, além da situação citada anteriormente, foi a intensidade da repressão que conquistou apoio aos manifestantes.

Sem dúvida que boa parte dos manifestantes rechaçarem os partidos políticos, o quer foi importante. Nossa dúvida é se não querem partidos políticos porque buscam outra forma de organização, então o anarquismo ganha relevância ou se não acreditam apenas nesses partidos políticos que aí estão?

E concluímos que as duas coisas são igualmente verdadeiras. Parte não acredita em partidos políticos como forma de organização para lutar pela superação das contradições do capitalismo de exploração e exclusão. Que trouxeram uma revitalização ao movimento anarquista.

Porém, parte não acredita nesses partidos políticos que ai estão e a partir de 2013 criam movimentos que querem se apresentar como algo novo e na verdade defendem tudo que está ultrapassado nessa sociedade. Pior, ainda mais reacionário. Ganha força novamente o movimento neonazista e vemos nazis tirando foto ao lado da polícia e fazendo a saudação nazista em plena manifestação na avenida Paulista.

Parte das lideranças que surgem dessas manifestações são os mesmos que agora atacam as manifestações culturais que não lhes agradam, defendem a ditadura, a Escola sem Partido, que acabaram com a legislação trabalhista, que querem tirar direitos das mulheres, dos quilombolas, indígenas, que não reconhecem o genocídio dos jovens negros.

Vendo em retrospectiva, vimos que, apesar de inicialmente ter dado fôlego sociais a causas e grupos autônomos, a continuidade do começou em 2013 desembocou em 2016 na maior manifestação popular que já ocorreu no Brasil, com 3 milhões de pessoas nas ruas, muitas das quais querendo muito além do impeachment de Dilma, com discursos bastante conservadores.

Falta talvez fazer um levantamento mais atento do papel dos ativistas adeptos da tática black bloc, quanto ao peso que teve no desenrolar das manifestações e da visibilidade que teve e a que foi projetada pelo meios de comunicação, visto que há uma relação muito próxima com o movimento anarquista.

A partir de 2013 o anarquismo se tornou um tema mais discutido, os grupos cresceram e novos surgiram. Contudo no final de 2017 vemos que, em contrapartida, também está ocorrendo um grande refluxo dentro do movimento anarquista.

IEL – Queria agradecer pela entrevista, e deixar um espaço aberto para vocês falarem aqui sobre o que quiserem:

CCS-SP – Há uma colocação feita pelo companheiro Sergio Norte, no evento de inauguração da Biblioteca Carlo Aldegheri (Guarujá/SP), no dia 8 de dezembro de 2012 que consideramos interessante citar:

“Ação direta não significa apenas a ocupação de prédios, por exemplo, pelos sem teto. Ação direta não significa apenas manifestações contra a globalização em que você bota fogo no Mc’ Donald’s. Isso pode ser ação direta e também é! Mas não é só isso, a ação direta vai além, ela se localiza nas ações menos dramáticas (…) que são ações corriqueiras, cansativas até, de auto-organização, de gestão de espaços coletivos (…) São essas ações corriqueiras, cansativas, que requerem paciência e que devem se pautar, na minha opinião, pelo respeito aos procedimentos democráticos, devem se pautar pela busca do consenso e por um respeito DECENTE e SINCERO às opiniões diversas desse coletivo (…) É esse trabalho de ação direta que pode dar de novo um lugar para o anarquismo”. De Marcolino Jeremias.

Muito obrigado pela oportunidade,

Saudações libertarias e saúde.

Centro de Cultura Social

Centro de Cultura Social

Rua General Jardim, 253 sala 22 –

República – São Paulo/SP

C.P. 702 – São Paulo/SP – CEP 01031-970

www.ccssp.com.br

facebook.com/CCSSP33

email: ccssp@ccssp.com.br

About the author

Ho Dolpho