Rompendo o Ciclo!

Punk versus sexismo e estupro

Written by anarcopunkORG

“Quando há o confronto com o tema do sexismo na comunidade punk, há aquelxs que levam o problema a sério e aquelxs que não o fazem. Aquelxs que levam a sério são ridicularizadxs como fanáticxs, mentirosxs, “feminazis”, ou pior. O outro campo, muitas vezes responde (ou não) por fazer vista grossa a esses eventos. Por não confrontar a realidade dessas situações, um silêncio perigoso é criado. PATRIARCADO EXISTE e por sermos silenciosxs sobre o que é isto, mostramos um apoio tácito. Se você não estiver na luta contra ele, então você está ajudando a mantê-lo.   

Com demasiada frequência, vemos o comportamento sexista acontecer dentro da comunidade punk. Linguagem, objetivação física, e os avanços indesejados são apenas ocasionalmente confrontados por mulheres, e quase nunca por homens. Essa falta de enfrentamento de atitudes e comportamentos sexistas dá a falsa impressão de que eles devem ser tolerados. Mesmo na sociedade de massa isso não deve acontecer, mas o confronto deveria ser automático na nossa “iluminada” comunidade.”

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por Profane Existence / Tradução por Olívia e Gritão

Desde seu início, o movimento punk tem sido uma rebelião “Faça Você Mesma” contra o status quo. Foi uma rebelião contra a estagnada indústria da música, que batia álbuns previsíveis de um “super grupo”, outro após o outro para o consumo em massa. Punk também tinha uma mensagem muito profundamente política, que incitava uma ação conjunta contra a política conservadora dos anos 1970. Punk era sobre quebrar as velhas estruturas de poder e substituí-las por algo mais democrático e socialmente mais responsável.

Ao final dos anos 1970, um movimento punk mais politicamente ativo começou a abraçar as ideias do anarquismo e da igualdade de uma forma muito mais séria.

Esta movimentação anarcopunk se espalhou pelo mundo e é hoje a própria raiz do que é o DIY punk. Obviamente, exemplos de mensagens anarquistas e igualitárias do início podem ser encontradas nas letras de Crass, Poison Girls, Dead Kennedys, etc. Há também numerosos exemplos dessas políticas influenciando outras organizações de punk rock e nas páginas de seus zines. Maximumrockandroll, embora não explicitamente anarquista, abraçou muitas das políticas e ideais e tem sido publicado continuamente desde 1983. Mais bandas, coletivos, zines, etc., seguiram estes exemplos, se não sempre na prática, pelo menos em espírito.

No entanto, 25 anos depois, o movimento punk não chegou muito perto de criar uma verdadeira igualdade dentro de seu próprio meio, muito menos trouxe a sociedade em geral para um estado mais igualitário. É evidente que algumas letras, símbolos e slogans gastos não são suficientes para criar uma verdadeira igualdade entre os sexos. A falta de exercer satisfatoriamente as letras e palavras de ordem em cada prática do dia é a principal razão para essa falha. Junto com isso, também a inerente incapacidade de muitxs dxs participantes do movimento de reconhecer ou mesmo entender que existe um problema. O movimento punk é em grande parte um coro de predominância masculina, enquanto as vozes femininas são abafadas, ignoradas, ridicularizadas, ou rotuladas de extremistas (como o movimento Riot Grrrl do final dos anos 90).

Bandas, shows, coletivos e espaços têm uma falta de mulheres participantes envolvidas em processos decisórios.  Quando as mulheres aparecem, elas muitas vezes não têm sido levadas a sério, muitas vezes as suas opiniões e ideias são abafadas pelo período em que a elevada voz masculina dominou a cena. A rara mulher “peça chave” participante, representa quase que um símbolo de igualdade, mas na realidade isto não é geralmente o caso. As mulheres frequentemente não tem recebido o crédito por suas ideias, ações e trabalho.
Nos primeiros dias de Profane Existence, as mulheres no coletivo lutaram muito para serem levadas a sério. Os homens levaram um duro tempo para reconhecer que detinham uma posição de poder, e para muitos, era a primeira vez que eles estavam trabalhando com mulheres numa base de suposta igualdade. Todos nós fomos criados numa sociedade onde só os homens têm um papel de liderança importante e essa bagagem nos seguiu no punk. Os homens do coletivo foram forçados a desaprender suas funções e desenvolver maneiras que possibilitassem as mulheres ter voz igual e igual participação. Descobrimos também que, sem manutenção rigorosa dos ideais de igualdade, as coisas poderiam reverter facilmente em um coro masculino.

Em outros coletivos, onde a dominação masculina não tenha sido tratada e levada a sério, as mulheres tornaram-se desencantadas, cessaram sua participação e partiram. Nós temos escutado esta queixa inúmeras vezes, de participantes mulheres de numerosas organizações coletivas (lojas, distros, espaços de gigs, etc.) Quem pode culpá-las quando são interrompidas em reuniões, suas opiniões ignoradas ou ridicularizadas por outros membros, ou dizem que elas não estão qualificadas para tomar decisões?

Mesmo quando o sexismo foi sendo trabalhado a partir de dentro, isto ainda era praticado de fora. Uma das criadoras do coletivo Profane Existence, desligou o telefone na cara de um idiota que tinha uma gravadora, porque ele insistiu que ele só falava com o “cara que dirigia a distro.” Esse cara simplesmente não podia acreditar que a mulher que atendeu o telefone era igualmente qualificada para responder perguntas e tomar decisões de negócios. Do mesmo modo, recentemente, na gig beneficente da Profane Existence em novembro. As mulheres desempenharam um papel importante na criação e execução do show, mas senti que não foram igualmente reconhecidas por seus esforços.
Isso leva à suposição generalizada de que os homens executam todos os projetos importantes e são mais bem informados sobre punk. Como dito por uma voluntária na Extreme Noise Records, em numerosas ocasiões, os clientes não querem ouvir conselhos sobre “o que é bom”, a menos que ele venha de um voluntário masculino. Chris do zine Slug & Lettuce teve que qualificar o nome dela na impressão como Chris(tine) (para parar a suposição de que Chris era apelido de Christopher n.t.) e que ela era do sexo masculino.

Além de uma falta de reconhecimento e igualdade de participação, falhamos como um movimento na criação de espaços seguros. Comentários sexistas e comportamentos abusivos, tais como contato físico indesejado e comentários humilhantes predominam. Na verdade, eles são ainda aceitos como normais, assim como na sociedade de massa. A significância por trás das letras e palavras de ordem pintadas em jaquetas é gritar um apelo à igualdade, mas na realidade elas são nada mais do que promessas vazias. Enquanto nós condenamos as desigualdades encontradas no mundo, eles continuam em nosso meio.

Além disso, o punk tem promovido um lugar que muitas vezes pode ser um lugar seguro para os abusadores. A razão é que eles são protegidos por suas amizades, realizações, credibilidade na cena, para não mencionar a profunda desconfiança nas autoridades e no sistema legal. Além disso, muitas vezes, falta capacidade, poder, ou uma estratégia unificada para promulgar a mudança contra as desigualdades, ou nosso próprios comportamentos. Esta situação tem sido estampada mais e mais nas páginas de zines punks, mais recentemente, nas colunas de Arwen Curry na MaximumRockandRoll e Adrienne Droogas na Profane Existence.

Neste ponto, queremos deixar claro que este é um artigo sobre o sexismo, e NÃO sobre ou mesmo contra a sexualidade. Nós aqui na Profane Existence somos todxs pela liberdade da sexualidade, que promovemos e praticamos sempre que nós podemos! No entanto, a sexualidade é algo para ser praticado de forma consensual, de maneira não-explorativa e que respeite os direitos de todxs xs indivíduxs. Nós esboçamos o que sentimos em um conjunto básico de direitos para todxs xs indivíduxs e são listados em detalhes mais adiante neste artigo.
Além disso, não estamos tentando dizer que o punk não tem feito um esforço para apagar o sexismo do nosso movimento. Quando você compara o punk com outros gêneros da música moderna (metal, rock, hip hop, etc.), temos feito grandes progressos. No entanto, como um movimento social sério, temos um longo caminho a percorrer.

CAUSAS DO SEXISMO E DO ABUSO

Sexismo pode ser atribuído à realidade sócio-histórica onde os homens mantêm uma posição como o gênero dominante. Este domínio é chamado patriarcado – uma relação artificial entre os sexos onde os machos estão em um papel dominante. Durante a maior parte registrada da história, homens mantiveram esse poder em tudo, nas leis, tradições e na velha e comum força bruta. As mulheres são tratadas como cidadãs de segunda classe, é apenas na história muito recente que as mulheres têm obtido ganhos sérios na luta pela igualdade que já se arrasta há milhares de anos.

Nos dias de hoje, o patriarcado afirma-se de muitas maneiras. Os homens tem sido resistentes a abrir mão do controle e dominação. Eles têm muito a perder, pois, alcançar a igualdade, significaria partilhar a outra metade da riqueza e do poder. Esta resistência tem se manifestado em formas flagrantes, tanto recentemente quanto no século 20, por exemplo, negar as mulheres o direito de voto, propriedade, receber uma herança, ou receber um salário igual (o que ainda é verdade hoje).

Hoje, formas mais sutis de controle perpetuam o patriarcado. Continuamos a viver de acordo com um tendencioso papel de gênero. Mulheres ainda são vistas como objetos sexuais e como propriedade. Papéis de liderança são desencorajados, se não são na teoria, são na prática. A falta de mulheres em poderosas posições políticas ou de negócios é aceita como norma. Mesmo em coisas como esportes profissionais e amadores, as mulheres são encaminhadas para participantes de segunda classe ou colocadas em um papel de apoio. Tem havido muito menos reconhecimento e patrocínio para as associações de mulheres profissionais de esportes e programas específicos de esportes para as mulheres nas universidades. A enorme disparidade entre homens e mulheres estudantes de graduação nas áreas científicas dá credibilidade aos argumentos que o sistema educacional ensina homens e mulheres de forma diferente, reforçando estes papéis desde uma idade precoce.

As mulheres ainda são encorajadas a assumir o papel de zeladora para crianças e família e manter tradicionais visões sociais da feminilidade. Elas não são encorajadas a ser o ganha-pão principal e ainda recebem, estatisticamente, salários menores, e menos promoções no local de trabalho. É por isso que não é surpreendente ouvir histórias de mulheres que são penalizadas no local de trabalho por decidir ter filhxs ou tirar licença maternidade.

Outras formas mais agressivas de controle e dominação permeiam nossa sociedade, tanto abertamente quanto de maneira velada: abuso verbal e físico. Nossa sociedade foi moldada para ver as mulheres com base em sua aparência física e as compreender como gênero submisso. As mulheres são ensinadas a acreditar que isso é normal. Elas são levadas a acreditar que devem manter certa aparência, com base na precedência social, sendo esta, a representação repetitiva da chamada mulher “perfeita”, livre de imperfeições: manchas, gordura corporal, pelos no corpo, etc. Isso perpetua uma imagem corporal negativa, baixa auto-estima, distúrbios alimentares, dietas, cirurgia plástica e mulheres tentando obter essa noção de beleza. Não acredita nisto? Confira a propaganda exibida nas caixas no supermercado ou em outdoors, em comerciais de televisão, etc. Nossa sociedade é bombardeada com visões do que supostamente as mulheres devem aparentar, a fim de serem percebidas como atraentes.

E as mulheres são bombardeadas com reações de homens que sentem que têm o direito de fazer comentários com base na aparência física. Se uma mulher se encaixa nessa versão chamada de beleza ditada pela sociedade de massa, ou não, a verdade é que os homens se sentem no direito de publicamente comentar sobre a aparência de uma mulher.

Estes comportamentos degradantes reforçam o papel submisso e pode ser visto a baixo nível como um tipo de guerra. As armas usadas são assobios, olhares inadequados, comentários em público de estranhos, comentários obscenos de amigos, os avanços não desejados ou contemplação por causa de um vestido ou aparência. Por outro lado, eles podem ser usados ​​para colocar para baixo, comentando sobre os chamados atributos negativos, não atrativos, por exemplo, peso, vestido alternativo, ou até mesmo para o homem possuir autoconfiança. Estes são ocorrências diárias que as mulheres suportam na rua, nas escolas, no trabalho, e até mesmo em casa. Independentemente da intenção do comentário (seja “bela bunda” ou “você é feia”), essas ações presumem que a aparência de uma mulher está em discussão pública e, finalmente, reforçam um comportamento degradante.
E além disso, a escalada de controle sobre as mulheres pelos homens está na forma de abuso físico. Os papéis de gênero já ensinaram aos homens que eles devem ser fortes fisicamente a fim de competir e controlar. Todas as outras emoções que não a raiva são tradicionalmente vistas como um sinal de fraqueza nos homens. Muitas vezes, eles não estão preparados para algum acontecimento, exceto ter uma resposta violenta, quando a sua dominação e/ou autoridade é confrontada. Esta escalada é uma resposta enraizada no masculino e é documentada pelas estatísticas de crime federal, que mostram que os homens cometem quase todos os ataques violentos, seja a vítima do sexo masculino ou do feminino.

O abuso sexual é o mais antigo, provado e comprovado meio de afirmar controle e dominação. Isso não é estritamente definido como relações sexuais forçadas (estupro), mas TODAS as formas de contato sexual forçado ou exploração. Quase todo mundo conhece alguém que tenha sido uma vítima. Infelizmente, continua acontecendo a um ritmo alarmante e muitas vezes não é relatado. O abuso sexual ocorre em muitas formas e níveis de agressividade, que variam em graus, mas incluem indesejados avanços físicos de um estranho, familiar, amigo ou parceiro, e muitas vezes são acompanhados por outros atos de abuso físico ou emocional.

Neste ponto, gostaríamos de salientar que o abuso emocional é ainda mais generalizado do que o abuso físico ou sexual. Abuso emocional é outra forma de controle e ocorre mais freqüentemente em estreitas relações pessoais (parceirxs, amigxs, família, trabalho, etc.) Tem resultados igualmente danosos, mas em um meio não-violento. No contexto desta situação, os exemplos a seguir se aplicam (mas certamente não estão limitados) a:

 Ignorou seus sentimentos ou zombou deles, colocou as mulheres como um grupo (exemplos – chamou-as de loucas, emocionais, estúpidas, fracas, ou incompetentes), constantemente criticada e chamando-a de nomes, berrou e gritou com você, ignorou você em situações sociais…, escalando para o nível de ameaças de violência física, suicídio, etc.

Em última análise, os resultados de abuso físico, sexual e emocional são o detrimento mental e do bem-estar físico da vítima. Essas conseqüências são muitas vezes uma vida longa e constantemente ameaça; as vítimas sofrem de coisas como angústia mental, culpa, raiva, falta de confiança, medo, baixa autoestima, etc. Que irá afetá-las para o resto de suas vidas. Muitas mulheres têm um sofrimento adicional, porque elas têm dificuldades confrontando seus agressores, que muitas vezes ficam impunes. Elas não podem dizer à polícia devido ao receio fundado de que não será acreditado ou que elas serão responsabilizadas.

EFEITOS NO MOVIMENTO PUNK
Quase um espelho da sociedade em geral, o movimento punk está cheio dos mesmos problemas de patriarcado. Estes vão desde sua face opressora às formas muito mais sutis de dominação. O resultado final ainda é o mesmo; a continuação da dominação masculina e perpetuação da desigualdade. Se o resultado final é a falta de emancipação do movimento, o não auxilio a participação, ou mesmo cicatrizes emocionais e físicas, o resultado final é a criação de vítimas. Em última análise, isto corta na metade nosso potencial de participação na comunidade, permitindo que este problema continue.

Quando há o confronto com o tema do sexismo na comunidade punk, há aquelxs que levam o problema a sério e aquelxs que não o fazem. Aquelxs que levam a sério são ridicularizadxs como fanáticxs, mentirosxs, “feminazis”, ou pior. O outro campo, muitas vezes responde (ou não) por fazer vista grossa a esses eventos. Por não confrontar a realidade dessas situações, um silêncio perigoso é criado. PATRIARCADO EXISTE e por sermos silenciosxs sobre o que é isto, mostramos um apoio tácito. Se você não estiver na luta contra ele, então você está ajudando a mantê-lo.

Com demasiada frequência, vemos o comportamento sexista acontecer dentro da comunidade punk. Linguagem, objetivação física, e os avanços indesejados são apenas ocasionalmente confrontados por mulheres, e quase nunca por homens. Essa falta de enfrentamento de atitudes e comportamentos sexistas dá a falsa impressão de que eles devem ser tolerados. Mesmo na sociedade de massa isso não deve acontecer, mas o confronto deveria ser automático na nossa “iluminada” comunidade.

Punx mulheres têm receio de relatar o abuso verbal e físico e estupro a figuras de “autoridade”, mas também são cautelosas em relatar entre seus pares. Quando elas falam, elas são desacreditadas e não são apoiadas. Além disso, elas podem sofrer ostracismo ou serem ridicularizadas, especialmente se o agressor é bem conhecido (por exemplo, é de uma banda popular ou projeto). Houve inúmeros casos de abuso e estupro na comunidade punk, cometidos por punks, que continuam a fugir das suas ações. Provamos para nós mesmxs que somos mal preparadxs para lidar com isso, embora haja vítimas reais, cujas vidas foram alteradas para sempre por causa destes eventos.

Pessoas que se manifestaram contra os seus agressores tiveram de uma parte uma reação de tal modo que elas tiveram que terminar amizades, retirar-se da cena punk, ou se mudar para outras cidades.

Por que as mulheres quereriam participar, quando suas próprias fileiras perpetuam ambientes inseguros e culpam as vítimas? Por que alguém iria querer reivindicar esforço pela igualdade dos sexos?

Durante anos, as pessoas têm desculpado tal comportamento com explicações tortas, como “Nós estávamos bêbados”, “Nós éramos jovens”, etc. Muitas destas pessoas ainda estão por aí hoje e alguns dispõem de posições de respeito na comunidade punk. Enquanto isso, as vítimas sofrem efeitos duradouros, ainda magoadas com as atitudes de calejada negação por outros no movimento punk.

Adrienne, como escreveu em sua coluna em uma edição da Profane Existence, “Existem homens na cena punk que eu conheço que abusaram sexualmente de mulheres. Existe o cara de uma banda que chorando me contou sobre como ele transou bêbado com uma menina em um jardim e ela estava chorando e obviamente não estava afim daquilo e ele fez do mesmo jeito.

Tem o cara que está direto na MTV que me contou sobre como ele costumava deixar as garotas desmaiadas de bêbadas e então fodia elas. Ou o cara que leva o selo de discos que levou uma amiga minha para casa quando ela estava bêbada e mesmo quando ela disse não para ele repetidas vezes, ainda assim ele a forçou. Ela descreveu graficamente para mim como ela estava dizendo não enquanto ele estava forçando passagem para dentro do corpo dela. Estes são homens de bandas que você reconheceria instantaneamente. Homens bem considerados e respeitados na cena punk. Homens que escrevem para fanzines que você lê. Todos esses eventos que foram compartilhados comigo aconteceram muitos e muitos anos atrás e alguns poucos homens expressaram profundo remorso, arrependimento e culpa sobre o que aconteceu. Então isto é um motivo para manter silêncio? Esses homens serão banidos da cena punk e colocados para sofrer da mesma maneira que as mulheres que eles estupraram sofreram?

Até posso dizer, por todas as vezes que essa questão foi levantada na cena punk, não. Não, eles não irão sofrer. Não, eles não irão pagar um preço. Não, eles não irão perder nada de sua estima e valor na cena punk. Não, eles não serão exilados e punidos.”

RESPOSTA DXS PUNX
A verdadeira fraqueza dos esforços do movimento punk para lutar contra a desigualdade é a sua natureza descentralizada.

Em um movimento aberto, a falta de qualquer tipo de autoridade para prender os agressores como responsáveis ​​por suas ações faz com que eles possam continuar a fugir delas. Esta não é uma invocação de qualquer meio para criar qualquer tipo de instituição de policiamento punk ou um corpo administrativo. Em vez disso, uma tática de enfrentamento ao sexismo e abuso deve ser feito sob medida para atender o movimento. Para fazer isso, a capacitação para responder contra o sexismo e o patriarcado deve ser feita do mais baixo nível em até o mais alto: individual, coletivo, movimento.

Para simplificar, nós dividimos o que sentimos que são direitos básicos e fundamentais e as responsabilidades que visam o empoderamento individual:

1- Respeito a si mesmo e axs outrxs.
2- Responsabilidade e prestação de contas por suas ações.
3- Compromisso com o trabalho em todas as linhas de gênero contra o sexismo e rumo à igualdade.
4- Criação de lugares seguros e respeito aos espaços e eventos só para mulheres.

5- Levantar a voz contra o sexismo e o abuso
6- Auto-defesa, defesa de umas as outras e de espaços seguros.
7- Reconhecer que a luta contra o sexismo é uma parte de uma luta global contra a tirania, que também inclui a homofobia, racismo, etc.

 

  1. Respeite a si mesmx e axs outrxs: Devemos tratar a nós mesmxs e axs outrxs como gostaríamos que as outras pessoas nos tratassem.    Respeite as outras pessoas acatando seus desejos para manter um nível de conforto. Não devemos colocar xs outrxs em situações que nós mesmxs não gostaríamos de ficar. Ameaças ou violência física não são meios aceitáveis ​​de forçar nossa vontade sobre xs outrxs.

NÃO significa NÃO.
Respeito também deve ser dado quando as mulheres falam sobre sexismo e situações sexistas. Isto também deve incluir o respeito a voz da vítima. Se a vítima faz uma acusação pública sobre o comportamento machista, abuso ou estupro, deve ser levada a sério.

  1. Responsabilidade e prestação de contas por suas ações:
    Cada umx de nós é responsável por nossas ações individuais e suas implicações. Cada umx de nós deve ser responsabilizadx pelas situações que criam e perpetuam. Cada umx de nós é responsável por nossos pares, assim como por nós mesmxs. Todxs nós devemos estar dispostos a aceitar críticas e criticar e a tomar medidas para melhorar. Devemos ser responsáveis ​​em deixar os outros saberem quando estão ultrapassando limites. Da mesma forma, seremos responsabilizados por não sermos responsáveis em nossa interação com os outros.
  1. Compromisso com o trabalho em todas as linhas de gênero contra o sexismo e rumo à igualdade: Precisamos aceitar o fato de que toda a comunidade, homens e mulheres, são afetados negativamente pelos efeitos do sexismo. Portanto, é da responsabilidade de todxs levar estas questões a sério e se esforçar para eliminá-las. Devemos reconhecer o privilégio masculino e ajudar a criar situações em que as mulheres se sintam seguras e que seja possibilitada a igualdade de participação. Existem vários meios para se estabelecer ambientes (grupos, coletivos, etc.) livres de sexismo que se mostraram eficazes.       Primeiro e mais importante é a idéia da democracia direta, onde todxs xs participantes têm voz igual. Para garantir a democracia, as reuniões regulares devem ser realizadas onde todxs xs membrxs estão autorizadxs a participar. Dentro dessas reuniões, há algumas ferramentas que podem ser usadas para garantir que o processo democrático prevaleça. Estes incluem Regras de Ordem de Robert ou similar, usando moderadorxs e agendas para facilitar as discussões, a auto-facilitação, estabelecendo, publicando e distribuindo orientações coletivas de um comportamento aceitável, regularmente discutindo e revisando as diretrizes e estabelecimento de métodos para lidar com situações contrárias ao comportamento aceitável.
  1. Criação de lugares seguros (livres de abuso e sexismo) e respeito aos espaços e eventos só para mulheres. Como indivíduos e como comunidade devemos nos esforçar para criar e manter espaços que estão livres de discriminação. Isso inclui locais públicos, como gigs, infoshops, espaços e coletivos. Declarações apropriadas de ambiente livre de sexismo devem ser feitas e/ou postadas. Espaços só para mulheres devem ser respeitados pelos homens. Houve casos que têm justificado a criação de espaços só para mulheres, por exemplo, devido a razões de segurança, reuniões entre as mulheres lidando com a defesa contra o patriarcado. Em última análise, como uma classe oprimida, as mulheres têm o direito à autodeterminação e à auto-organização. Os homens devem respeitar os direitos das mulheres a declarar tais espaços e a tomar o controle de suas próprias vidas. Isso não deve ser encarado como uma tentativa de criar barreiras, ou não trabalhar em todas as linhas de gênero. Pelo contrário, deve ser encarado como um método de empoderamento das mulheres e como igualdade de direitos. As mesmas diretrizes utilizadas em espaços públicos devem ser aplicados em casa também. Violência doméstica não deve ser tolerada, se a casa não é segura, o que é? Como uma comunidade, somos responsáveis ​​pelo bem-estar de todxs xs membrxs da nossa comunidade. Devemos responsabilizar os ​​que cometem abusos à portas fechadas da mesma forma que responsabilizamos os que cometem em público.
  1. Direito de levantar a voz contra o sexismo e o abuso: Indivíduxs que viveram o sexismo ou o abuso sexual devem sentirem-se habilitados a falar contra/sobre isso sem medo de represálias. Graves acusações merecem respostas sérias e um público sincero. Fazer o contrário reforça e perpetua o sexismo na comunidade punk.  Nós, como uma comunidade, devemos agir quando estas situações e incidentes ocorrem. Nossa primeira linha de defesa é o apoio mútuo de nossxs amigxs e parentes. Lugares seguros dentro da comunidade devem estar disponíveis para reuniões, discussões e planejamento de estratégias de resolução de problemas. Estas situações são únicas e requerem ação, conforme determinado pelas circunstâncias, mas os métodos incluem fóruns públicos, campanhas educativas, uso de nossos próprios pontos de mídia (fóruns, zines) para divulgar e educar.    Campanhas de difamação contra x acusadorx/vítima não devem ser toleradas. Somente quando a vítima sente que a sua acusação será levada a sério é que ela se sente capaz de avançar contra o acusado. Portanto, deve ser dado que elas serão levadas a sério e aqueles que não tomam a sério tais acusações estão atrapalhando no caminho para a igualdade e a justiça.
  1. Auto-defesa, defesa de umas as outras e de espaços seguros. Cada umx de nós como indivídux têm o direito de se defender, defender nossxs amigxs e nossos espaços seguros contra o sexismo, sob qualquer forma. Isto inclui confrontar linguagem sexista, comportamentos ou ações. Auto-defesa inclui confronto verbal, a expulsão de eventos, ou a defesa física, quando necessário.
    O direito à autodefesa é sem sentido a menos que seja exercido. Devemos adquirir o hábito de enfrentar e defender a nós mesmxs, amigxs e lugares seguros. Parte integrante da auto-defesa é a preparação e a prontidão. Aulas de defesa pessoal são altamente recomendadas, bem como a criação de grupos de afinidade ou redes para lidar com situações que possam surgir.
    Além disso, devemos estar prontxs para defender outras pessoas contra o sexismo e o abuso. Um exemplo seria ajudar as pessoas vulneráveis ​​ou intoxicadas a chegar em casa ou encontrar um lugar seguro (não deixe sua amiga desmaiada em um sofá em uma festa!). Outra seria a de ajudar xs amigxs de relacionamentos abusivos e ser solidárix em seus esforços para sair deles. (30% das mulheres assassinadas nos EUA são mortas por parceiros íntimos).
  2. Reconhecer que a luta contra o sexismo é uma parte de uma luta global contra a tirania, que também inclui a homofobia, racismo, etc. Devemos reconhecer que a luta contra o sexismo é uma parte da luta global contra a tirania, que também inclui a homofobia, racismo, etc. Isso tudo é parte de uma luta maior contra a hierarquia e todas as formas de dominação e opressão.

CONCLUSÃO

Igualdade não é um mero slogan – é um compromisso. Este compromisso só vai funcionar quando nós o sustentarmos e exercermos na teoria e na prática, em nossas vidas diárias. Quando trabalhamos para atingir isto dentro do movimento punk, também estaremos trabalhando no sentido de alcançar a igualdade e combater o sexismo na sociedade. Este é um processo contínuo e que deve se manter para evitar retrocesso aos velhos hábitos. É também essencial que xs novxs membrxs da nossa comunidade sejam educadxs, não só as causas, mas também aos métodos para combater o patriarcado, o sexismo e a violência sexual.

     Se cada pessoa entre nós usar estas táticas em nossas vidas diárias, isto permitirá a todxs nós uma voz e um meio para enfrentar o sexismo (e outras formas de opressão).      Este é um conjunto fundamental de direitos para todxs. A sensação geral de respeito umx pelx outrx irá fortalecer a nossa comunidade interna, e fornecer meios para seriamente começarmos a combater a opressão.

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