“Aqui para ficar. Aqui para lutar”: O florescer de uma luta anti-fascista | parte 1

Paki-bashing e racismo na Inglaterra dos anos 60-80

* por Marina Knup

trecho do texto publicado em formato livreto pela Imprensa Marginal, 2015  

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra passou a receber um grande número de imigrantes, com políticas de imigração que no início pautavam, sobretudo, a reconstrução da economia no pós-guerra. A partir de então vai se intensificando a entrada de pessoas das ex-colônias de regiões caribenhas e do sul asiático, como Jamaica, Índia, Paquistão e Bangladesh, e de regiões africanas como Kenya, Uganda e Nigéria.

As próximas décadas serão muito difíceis para estxs imigrantes, que vão se vendo imersxs em um ambiente de medo e violência racista. Em meio a um cotidiano de ataques violentos contra famílias inteiras de imigrantes, comércios, casas e vizinhanças onde viviam, muitxs tiveram suas vidas marcadas pelo racismo. Para estas famílias, o abuso e violência racial era parte da existência cotidiana na Inglaterra. E da indignação com esse quadro, floresceu uma intensa luta contra o racismo e o fascismo, protagonizada pelxs próprixs imigrantes e seus descendentes, que por meio da união e da auto-organização coletiva construíram sua forma mais efetiva de auto-defesa. Sem esperar pela ação do Estado ou da policia, a juventude asiática se empoderou por meio da ação direta e foi às ruas, tomando de volta as rédeas de suas vidas e construindo um movimento anti-racista inspirador.

Apesar de ser uma história muito difundida entre as comunidades asiáticas inglesas, com uma forte preocupação de resgate histórico e registro de memórias, a impressão que temos é que muitas vezes tudo isto acaba ficando restrito as próprias comunidades, estudiosxs do tema e alguns círculos ativistas. Este artigo é uma tentativa de resgate desta história em língua portuguesa, focando-se principalmente no período que vai do final dos anos 60 ao início dos 80. Em memória de todxs xs imigrantes perseguidxs pela intolerância fascista, e para que se mantenha viva a luta que levaram adiante por uma existência livre de racismo!

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Racismo x imigração

A relação entre racismo e imigração na Inglaterra do século XX tem um histórico longo e complexo, ligada a fatores como a formação de sistemas de Estado-nação baseadas em livre mercado, nacionalismo e opressão colonial. O período pós Segunda Guerra Mundial é um momento em que a questão começa a se acirrar, pouco a pouco adquirindo uma dinâmica concreta na sociedade em um nível mais formal e institucional, por meio do estado, partidos políticos e organizações.

Já nos anos 50, a imigração torna-se uma pauta cada vez mais presente na agenda política, aos poucos surgindo o debate sobre a necessidade de controle da imigração negra/asiática na Inglaterra. Os argumentos anti-imigração sustentavam a vinda destas pessoas como uma ameaça ao modo de vida inglês, a lei e a ordem. Neste contexto, grupos de extrema-direita passam a ampliar sua propaganda anti-imigração, realizada abertamente. É a época também em que garotos brancos “Teddy Boys” perseguiam imigrantes negrxs, e verifica-se um crescimento de ataques violentos que culmina nas revoltas de Notting Hill em 1958, quando ocorreram inúmeros ataques a imigrantes caribenhxs e suas casas e uma revolta nas ruas.

Neste período surgem algumas iniciativas de diferentes âmbitos da sociedade para tratar das questões anti-racistas: em 58 é fundada a Indian Workers Association no Reino Unido, que fazia campanhas contra a discriminação e tinha também boas relações com o movimento inglês de sindicatos; no mesmo ano o Institute of Race Relations inicia seus trabalhos; e em 64 surge também a Campaign Against Racial Discrimination, com o objetivo de reivindicar legislações anti-discriminatórias junto ao governo trabalhista.

Em meados dos anos 60 a problemática vai se intensificando. Neste contexto, uma das maiores personificações públicas deste discurso conservador foi o parlamentar Enoch Powell, que realizou uma série de discursos entre 1967 e 1968, focados em denunciar “os perigos” da imigração, atraindo enorme atenção midiática e forçando reações do governo trabalhista. Seu discurso mais conhecido e apoiado, de abril de 1968, foi intitulado de “Rios de Sangue” [Rivers of Blood]. Powell argumentava que a imigração levaria a “uma transformação total, desconhecida em centenas de anos na história da Inglaterra”, e que o país seria banhado por “rios de sangue” caso a vinda de imigrantes negrxs e asiáticxs não fosse detida. Este discurso, feito poucos dias antes do Parlamento começar a deliberar a Lei de Relações Raciais, teve ampla divulgação midiática, gerando pânico e medo. Powell atacou a lei que regulava a igualdade de tratamento com relação à moradia e emprego, argumentando que imigrantes ficariam em uma posição privilegiada, falando em uma invasão que tomaria áreas inteiras.

Para além das demandas por restrições, Powell e seus correligionários reivindicavam a repatriação, argumentando que o número de imigrantes de ex-colônias era muito grande e, neste caso, deveriam ser mandados de volta. Os discursos de Powell e outros e a enorme atenção midiática que tiveram, acabaram por mudar os termos do debate político quanto a pessoas negras/asiáticas e relações raciais, destruindo o frágil “consenso bipartidário” sobre raça e imigração criado pelo governo trabalhista. Neste contexto, uma série de legislações que controlavam a imigração foram surgindo, como o Immigration Act de 1971, por exemplo.

Existe um inimigo muito maior. Este inimigo é o Estado Inglês, e as armas que estão usando contra nós são as Leis de Imigração. Centenas de pessoas estão sendo jogadas nas prisões e deportadas. A polícia está fazendo batidas diárias em nossas casas e a situação irá ficar pior com as novas propostas dos Tory.(…) As leis de imigração são racistas. Eles as tem introduzido não apenas para manter os que já estão aqui como forças de trabalho colonial dóceis e submissas. Os Oficiais de Imigração e a policia são os novos administradores coloniais como os ingleses eram em nossos países. Estas leis nos degradam e abusam. São usadas para nos molestar e explorar. Elas tiram nossa dignidade humana e nos tratam como animais (…) – Kala Tara #1, publicação AYM Bradford, 1979.

Logo após o discurso dos “Rios de Sangue”, a quantidade de ataques violentos contra imigrantes cresceu dramaticamente por toda Inglaterra. No entanto, era comum que se colocasse essa violência como um resultado da presença dessas comunidades, representadas como fontes potenciais de violência e não como suas vítimas. Estes argumentos legitimavam a violência racista, sustentando que eram xs imigrantes que atacavam as pessoas brancas inglesas supostamente tomando suas áreas e tirando-as de suas casas. Frases como “invasão sem precedentes” e criação de “áreas alienígenas” eram muito comuns. O “pânico moral” gerado pela mídia e políticos anti-imigração com relação à presença de imigrantes contribuiu imensamente para o surgimento de novas forças políticas explicitamente racistas, que pouco a pouco colocavam imigrantes como bodes expiatórios para problemas econômicos e sociais que o país sofria no momento.

O imigrante bengalês Suroth Ahmed relembra:

No começo quando cheguei à Inglaterra, Enoch Powell era visto como uma pessoa má. (…) Nós o víamos falando na TV. Nós asiáticxs e povo Bengali o odiávamos muito. Enoch Powell era uma pessoa ruim, assim como os skinheads que atacavam (durante o governo de Heath1), a comunidade negra e asiática. Considerávamos ambos como ruins. No início não podia compreender seu discurso, mas eu estava convencido, ele não era um bom homem. Estava sempre nas manchetes da televisão. Eu não sabia inglês o suficiente, mas os anciãos nos diziam que tentava deportar o povo negro e asiático.”

Paki-bashing?

A Grã-Bretanha tomou conhecimento do termo paki-bashing pela primeira vez na última quarta-feira. Um grupo de skinheads se gabava pela TV de ter espancado imigrantes na Zona Leste de Londres, por pura diversão”. (Jornal Sunday Mirror, 1969)

Paki-Bashing” era o termo utilizado para descrever a perseguição violenta a imigrantes asiáticxs na Inglaterra. Embora na mentalidade racista estas pessoas fossem vistas como um grupo étnico uniforme, na realidade vinham de diversos contextos e localidades: havia Sikhs da região Punjab e hindus da região Gujarat da Índia, muçulmanas do Paquistão, Bengalis, entre outras. “Paki” é um termo considerado altamente racista, usado para se referir tanto a paquistaneses quanto a todxs xs outrxs imigrantes sul asiáticxs de diferentes origens, que eram tidxs como “a mesma coisa”.

Eu cheguei em 1968, e logo que cheguei neste país fui confrontado pelo paki-bashing, fui confrontado pelo movimento skinhead e todas estas pessoas. (…) Embora paki fosse para paquistaneses, todos os indianos, bangladeshis, todos para eles eram a mesma coisa. Eles costumavam odiar a gente, queriam nos levar para fora desta área. (…) Eles costumavam cuspir na gente e nos batiam nas ruas. E naquela época nosso povo não era tão forte. Porque tinha apenas vindo de seu país de origem, e os asiáticos sempre foram pessoas muito pacíficas. E nosso povo veio para cá para ganhar algum dinheiro, para apoiar suas famílias em casa. Não vieram para cá para lutar com ninguém. Então a resistência não era tão boa, não era tão forte.” Mahmud Rauf, imigrante bangladeshi

O racismo que atingiu sistematicamente estes grupos étnicos na Inglaterra se deu de forma extremamente violenta. Registros diversos apontam que se dava por meio de linchamentos, assassinatos, bombas, ataques, perseguições, intimidações e expulsões. Os ataques atingiam famílias de imigrantes em suas casas e locais de trabalho, bombas eram colocadas em caixas de correio e pedras quebravam as janelas; era comum que jovens asiáticos fossem esfaqueados ou espancados; ovos e tomates eram jogados contra mulheres e crianças; pequenas garotas eram agredidas na rua por jovens brancos que saíam correndo aos risos; muitas pessoas, com medo de sair, se tornaram prisioneiras de suas próprias casas. Embora espalhados em variados registros, são muitos os relatos de imigrantes e suas famílias sobre este cotidiano, retratados em entrevistas, documentos de denúncia, periódicos, filmes de ficção, livros, documentários e letras de música. Em todos eles, questões como racismo, xenofobia e “paki-bashing” se repetem, demonstrando o quanto estes aspectos estavam presentes em suas vidas.

(…) Era muito assustador, e muitas das pessoas que apenas tinham vindo de Bangladesh não queriam se envolver em brigas e nada do tipo. Elas costumavam ficar confinadas em suas casas. As únicas ocasiões em que saíam era porque precisavam ir ao trabalho, ir fazer compras… Fora isso não queriam sair. As pessoas de nosso país, sempre quando chegavam viviam em grandes alojamentos. E esses lugares eram sempre cheios de histórias de espancamentos de pessoas bangladeshi por pessoas brancas, por skinheads, por… Quando digo pessoas brancas, não quero dizer as pessoas boas, mas as pessoas brancas más, da BNP, e… Sempre havia espancamentos, havia histórias de idosos espancados, com seus dentes quebrados… este tipo de coisa era muito comum naquela época. (…) Eu nunca tive nenhuma experiência de espancamento, mas pelo menos um par de vezes cuspiram em mim. — Mahmud Rauf, imigrante bangladeshi

Embora o termo “wog-bashing” tenha sido usado para descrever violências deste tipo protagonizadas por Teddy Boys nos anos 50, a palavra “paki-bashing” é citada por muitxs autorxs como tendo surgido entre o final da década de 60 e início de 1970. Segundo Benjamin Bowling, a violência em si pode ser associada a três fatos inter-relacionados: “o amplo pânico moral quanto à imigração e raça estimulado por Powell e seus correligionários, a fundação em 1967 e posterior apoio conferido à National Front, e o surgimento de uma nova, violenta e explicitamente racista cultura juvenil: os skinheads”.

A primeira grande onda de “paki-bashing” ocorreu a partir de 1969/1970. A popularização do termo na imprensa ocorre neste período. Alguns estudos apontam o assassinato de Tosir Ali em abril de 1970 como momento em que se passa a veicular o termo na mídia, mas existem também alguns registros de jornais que em 1969 já faziam seu uso. Segundo a pesquisadora Anne Kershen, o termo já havia sido usado antes um pouco além da fronteira de Spitalfields, no complexo habitacional Collingwood em Bethnal Green, em 1968. Segundo ela,Isto corresponde à época em que agressivos jovens brancos, de cabeças raspadas, ficaram conhecidos como ‘skinheads’”.

Durante esta primeira onda de paki-bashing que assolou a Inglaterra, o caráter dos ataques racistas protagonizados por skinheads se deu muito mais a partir de expressões violentas de xenofobia, nacionalismo extremado e opressão colonial, com pouquíssima relação com partidos políticos de extrema direita como a National Front, que só ganharia visibilidade anos depois. Bowling sustenta que os skinheads tinham um forte senso de território que estava intimamente ligado ao paki-bashing como um “ritual e defesa agressiva da homogeneidade cultural da comunidade contra os mais óbvios bodes expiatórios estrangeiros. Neste sentido, é comum encontrar justificativas aos ataques no fato dxs imigrantes asiáticxs possuírem costumes culturais, alimentares e sociais muito diferentes dos ingleses, não falarem inglês corretamente, assim como argumentos ligados a disputa de empregos, moradia e oportunidades com inglesxs brancxs. Em muitos casos, estes jovens declaravam ver o paki-bashing como mera diversão – uma “diversão” sistemática que gerava mortes, ferimentos físicos e pânico. Ironicamente, enquanto tinham nxs asiáticxs seu foco mais direto de violência, ouviam e dançavam música caribenha/jamaicana rock-steady, reggae e ska.

Já nessa época, imigrantes começam a pensar em formas de auto-defesa, visto que a resposta da polícia era praticamente nula. Um registro de 1968 relata que ao voltar para casa após o trabalho de bicicleta, o imigrante Gulam Haider Ellam avistou uma gangue de skinheads esperando por ele. Pedalou rápido para tentar escapar, e depois disso passou a andar com uma barra de ferro para se defender, enquanto motoristas de ônibus asiáticos andavam também com tacos de hockey durante as viagens. Em meados dos anos 70 estas formas de auto-defesa ficarão mais organizadas, tornando-se pautas coletivas.

1970 será um ano marcado por centenas de ataques racistas, que tornaram o “paki-bashing” notícia nacional. Neste período, diversos casos de agressões com garrafadas, chutes, tijoladas, facadas, espancamentos, e outras formas de ataque foram divulgados. Ocorreram invasões em regiões de comunidades asiáticas como Brick Lane e Southall por gangues skinheads que tumultuavam e feriam moradorxs, por vezes com presença de centenas de agressores. De março a maio de 1970, 150 pessoas foram atacadas somente na região de East End de Londres, porém aconteceram casos semelhantes em Wolverhampton, Luton, Birmingham, Coventry, West Bromwich, entre outros. Na mesma época, o Sunday Times dedicou uma página inteira à perseguição racista que atingia milhares de paquistanesxs na região do Spitalfields Market, revelando que em janeiro e fevereiro daquele ano houve ataques regulares de skinheads contra paquistanesxs em Spitalfields. Já o Observer, advertia que “Qualquer asiático descuidado o suficiente para andar sozinho pelas ruas a noite era um tolo”. A questão chegou a atrair inclusive atenção internacional: um canal de televisão francês, por exemplo, fez um pequeno documentário em 1970 em Londres sobre as agressões à comunidade asiática, entrevistando imigrantes, skinheads e políticos.

Em 3 de abril de 1970, Tosir Ali foi assassinado à facadas em Bow, leste de Londres, a poucos metros de sua casa. Sua morte teve enorme visibilidade pública, e neste contexto o sindicato Pakistani Workers Union reivindicou um inquérito sobre o fracasso da ação policial. Uma declaração da Policia Metropolitana, entretanto, negou que pessoas negras fossem atacadas com mais frequência do que as brancas. Esta morte demonstra ainda a tendência da polícia em responsabilizar a própria comunidade asiática pela violência que sofriam: no dia seguinte após sua morte, um paquistanês que reclamou na televisão pela falta de ação da polícia pelos ataques foi preso e questionado por muitas horas sobre a morte de Ali.

Diversas manifestações, e até mesmo uma greve, foram realizadas por imigrantes asiáticxs contra a violência que sofriam na virada da década de 1960 e início dos 70. O New York Times de 25 de Maio de 1970, por exemplo, noticiou que no dia anterior “muitas centenas marcharam até a residência do Primeiro Ministro Wilson para pedir por proteção aos ataques de skinheads”.

A primeira geração a frequentar as escolas na Inglaterra passou por abuso racial, ataques racistas e discriminação como uma característica cotidiana da vida, tanto nos playgrounds e a caminho ou na volta da escola, quanto nas ruas. Enquanto seus pais lutaram e trabalharam para sustentar suas famílias, crianças asiáticas e jovens estavam aprendendo a viver e lidar com um ambiente diferente sem nenhum apoio familiar ou comunitário contra este racismo evidente.2

A experiência de frequentar a escola poderia ser muito difícil para umx jovem descendente de imigrantes asiáticxs naquela época. Dentro da escola, a caminho de casa ou nos playgrounds onde brincavam, paki-bashing era algo muito real. Em 1972, um garoto Sikh foi esfaqueado em uma destas escolas por garotos brancos que disseram que o matariam caso não cortasse o cabelo e parasse de usar turbante. Outro garoto de 11 anos, Sohail Yusaf, foi espancado a caminho de casa depois da escola, ficando inconsciente em um canteiro de obras.

Segundo Saeed Hussain, “Na maioria das tardes de sexta, mas particularmente no fim do período escolar, feriado, ou o último dia antes do feriado eram dias comuns de paki bashing”. Assim, a permanência destas crianças e jovens na escola em alguns casos podia ser muito curta, como relata o imigrante bengali Mohammed Abdus Salam:

Eu vim de Bangladesh, então Paquistão Oriental, em 1969 com meus pais. Me matriculei em uma escola secundária local, a Montefiore Secondary School. Frequentei a escola por apenas alguns meses, não pude continuar devido aos ataques racistas, abuso racista e ataques de rua por skinheads e colegas brancos.”

As que permaneciam, encontravam sua sobrevivência na união com outrxs garotxs asiáticxs, uma união que a médio prazo teria bons frutos para a comunidade. Tariq Mehmood relembra: “Éramos muito conscientes do fato de que tínhamos de estar juntxs porque não podíamos pegar os ônibus (…) éramos atacadxs quando pegávamos os ônibus, e éramos atacadxs quando saíamos dos ônibus. E a única forma que tínhamos para sobreviver era conhecendo muitxs amigxs de outras escolas. Talvez por isso tantxs de nós ainda tenhamos contato até hoje.”

Em agosto de 1972, milhares de asiáticxs foram expulsos de Uganda, cerca de 50 mil delxs tendo passaportes ingleses – o que gerou enorme pânico na imprensa e colocou alguns políticos como Powell no centro do debate. Cerca de 28 mil asiáticxs de Uganda entraram no país, com grande comoção de organizações anti-imigração como o Partido Conservador e organizações como o British Movement e a National Front. Em uma matéria escrita por Simon Wooley sobre este momento, ele relembra: “A cidade em que cresci, Leicester, recebeu muitxs refugiadxs de Uganda, com ressentimento e reação que teria efeitos profundos em muitas pessoas. “Paki-bashing”, como era conhecido então, era levado a cabo por skinheads com o único propósito de aterrorizar comunidades asiáticas. Em resposta, xs asiáticos formaram a Sapno Gang – a gangue dos sonhos – cuja razão de existência era defender suas comunidades.”

Husna Matin, uma imigrante que se mudou com toda a sua família para a Inglaterra em 1974, se lembra que: “Os skinheads nos deram tempos muito difíceis. Bengaleses tinham medo de sair tarde da noite. Eles arrumavam menos problemas com mulheres, mas estavam atacando os homens bengali. Os skinheads costumavam bater nos bengali e roubar o que tivessem sempre que podiam. (…) Não tínhamos telefone na região. Algumas pessoas tinham de ir a New Road para fazer ligações e não se sabia se você poderia voltar seguro para casa. Os skinheads atacaram muitos bengaleses em seu caminho de volta das cabines telefônicas.”

Há um novo pico de ataques racistas violentos a partir da cobertura midiática sobre a chegada de imigrantes asiáticos de Malawi em maio de 1976. Em um contexto de declínio econômico e grandes taxas de desemprego, estrangeirxs são mais uma vez os bodes expiatórios para os problemas do país. Lojas, casas e organizações comunitárias foram apedrejadas e incendiadas no leste de Londres e Southall, mulheres de Newham tiveram seus saris (vestes femininas) queimados, ocorreram ataques racistas com cachorros, uma série de esfaqueamentos e foram registrados assassinatos em diferentes regiões.

Com o crescimento de organizações como a National Front neste período, para além de uma intensa atividade de propaganda racista, passam a ocorrer muitos casos de violência protagonizados diretamente por membros de partidos políticos de extrema direita. Um relatório apresentado em meados dos anos 70 por um membro do parlamento, Paul Rose, denunciava mais de 1000 incidentes de violência com envolvimento de grupos de extrema-direita como a National Front. Outras evidências relacionam a NF a diversos ataques a bomba, panfletagens racistas e ataques ao Community Relations Office em Londres. A NF organizou comícios de rua com propaganda abertamente racista, distribuíram panfletos racistas em regiões caracterizadas pela grande quantidade de moradorxs imigrantes, como Brick Lane, entre outras ações públicas. Há também relatos que apontam o racismo institucional em escolas, locais de trabalho e diversas outras situações e ambientes do cotidiano das comunidades imigrantes.

Mas estxs jovens que chegaram à Inglaterra pequenxs estavam crescendo, e esta segunda geração agiria de forma muito mais combativa contra todo este contexto.

Diferente da resposta muda dos mais velhos à discriminação racial e ataques, e suas aspirações de “voltar para cada um dia”, xs jovens asiáticos que vieram para estudar se viam como iguais a seus colegas brancos, vendo a Inglaterra como seu lar e que “estavam aqui para ficar”. Não estavam preparadxs para aceitar ou “virar a cara” para os constantes ataques e discriminação, e reivindicaram direitos iguais e justiça.

Jovens asiáticxs começaram a organizar e criar redes e alianças entre diferentes escolas e vizinhanças para defender e proteger a si mesmxs contra ataques racistas e apoiarem-se nos problemas sociais e culturais comuns que afetavam as comunidades. Estas redes e alianças eram a infraestrutura embrionária que levaria xs jovens a consolidar e formalizar o Southall Youth Movement (SYM).3

…CONTINUA

1 Edward Heath, foi primeiro ministro da Inglaterra durante os anos de 1970 a 1974.

2 Balraj Purewal, membro fundador da Southall Youth Movement in THE ASIAN HEALTH AGENCY – Young Rebels: The Story of the Southall Youth Movement

Balraj Purewal, membro fundador da Southall Youth Movement in THE ASIAN HEALTH AGENCY – Young Rebels: The Story of the Southall Youth Movement