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A TRADIÇÃO COMUNALISTA NO MAGONISMO por Juan Carlos Beas e Manuel Ballesteros

“Percebe-se pois, que o povo mexicano é apto para chega ao comunismo, porque o tem praticado, ao menos em parte, há séculos”
Ricardo Flores Magón

A luta que há séculos atrás vinham impulsionando os grupos étnicos, sua tenaz resistência, assim como o costume comunitário, sem dúvida têm uma forte presença no pensamento e ação magonistas.
O porfirismo foi sacudido e derrubado, os povos indígenas contribuíram de maneira decisiva para isso.
No início do século, o nível mais baixo na escala da exploração do trabalhador mexicano era ocupado pela população índia: índios eram os peões nas fazendas, também havia muitos índios nas minas, ou na construção de trilhos de ferrovia.

Numerosas ações do Partido Liberal Mexicano estão intimamente vinculadas ao pensamento e às formas de luta dos povos indígenas. Em proclamações, circulares, artigos, programas, mobilizações, está presente a reclamação indígena. Os magonistas, muitos deles indígenas ou muito ligados aos povos índios, demandaram a restituição do território comunal e se lançaram através da expropriação e da revolta à recuperação de terras.
Os Magón foram muito influenciados não só pelo senhor Teodoro[2], aquele representante comunal dos povos do Distrito de Teotitlán del Camino; mas também por Palomares, Kankun, Donaciano Pérez e muitos outros que carregavam sangue índio; eles fizeram com que o magonismo fosse parte da tradição do socialismo comunalista mexicano.
Muitos dos magonistas reivindicaram as formas de lutas dos índios, por isso seus escritos estão impregnados de demandas e reclamações indígenas.
O ideal socialista dos magonistas identificavam a representação assemblear, os trabalhos comunitários e o gozo da terra em comum, como formas antigas, próprias aos povos índios, as quais representavam uma alternativa revolucionária.
No Programa do Partido Liberal Mexicano de 1906 são apresentadas como reclamações, duas das demandas mais sentidas pelos povos índios: a restituição de terras e o respeito ao município.
Ricardo Flores Magón em seus escritos identificava diretamente o costume indígena com sua proposta de sociedade libertária, alternativa ao desmoronamento porfirista.
Para ele a revolução devia garantir ao povo o direito de viver, e que somente a revolução social poderia por nas mãos de todos, homens e mulheres, a terra, a fonte de vida. E o bem-estar e a liberdade só seriam conseguidas suprimindo todo tipo de amos. A necessidade mais urgente do México é a dignificação da raça…
Em seus escritos de 1911, Ricardo saliente que os indígenas mexicanos, ao tomar as terras das fazendas, com o fuzil na mão e as trabalhando em comum, estão realizando uma grande transformação social e econômica. Contra o que os socialistas doutrinários afirmavam, Flores Magón saliente que os bandidos, que tanto espantavam os burgueses, não precisavam ler Kropotkin ou Marx para fazer a revolução social. Em Regeneración, Ricardo escreve:
“Corremos a palavra aos nossos irmãos das diferentes tribos indígenas que foram despojados de suas terras, para que assumam imediata posse delas. Nossas forças os apoiaram em sua obra reivindicatória…”
O povo mexicano é apto para o comunismo, porque o vive e o viveu; os calpullis[3], as terras comunais, os tequios e as faenas[4], os mecanismos de representação das tribos, das comunidades, a resistência férrea autóctona impõem selo no discurso e ação magonistas.
Os magonistas denunciam despojos e perseguições, integram as reuniões, as juntas conspiratórias, os grupos armados, se vinculam à revolta indígena.
Não deixam de nos ser conhecidas as palavras de Felipe Carrillo Puerto:
Estamos tomando essas terras comunais das propriedades dos fazendeiros… essas terras não se dá a nenhum indivíduo. Os maias são um povo comunitário com uma grande responsabilidade de grupo. As terras são comuns e pertencem à comunidade.
Os magonistas se ligaram estreitamente às lutas dos povos maias, yaquis, zoque-popolucas, zapotecas, náuatles e aos índios da Baixa Califórnia.
Nesse sentido, o magonismoo se insere numa velha tradição socialista, que muitas vezes se manifesta através duma memória oral, que recolhe o espírito do comunalismo indígena, o qual, sem lugar a dúvidas, se apresenta como um forte obstáculo ao desenvolvimento dum modelo capitalista espoliador de todo tipo de riqueza, uniformador, centralista e ocidental.
O grito de ¡Viva Tierra y Libertad! Que comoveu diferentes regiões do território mexicano, também fez tremer caciques, latifundiários e chefes políticos, os quais sob a proteção de Porfírio cercaram povos inteiros, saquearam suas madeiras e engordaram suas contas bancárias com o sangue, suor e lágrimas dos trabalhadores índios.
A vinculação do magonismo com a luta indígena cria, em grande parte, as condições para que, via luta armada, os camponeses indígenas recuperem terras ou evitem o despojo delas.

Tradução: Inaê Diana Ashokasundari Shravya
Notas:
[1] Texto publicado originalmente como capítulo do livro Magonismo y movimiento indígena en México, de Juan Carlos Beas e Manuel Ballesteros. [N.T.] [2] Teodoro Flores (? – 1893), foi um militar liberal mexicano, pai dos irmãos Flores Magón. [N.T.] [3] A célula social básica dos Astecas era o calpulli, “comunidade residencial com direitos comuns sobre a terra e uma organização interna de tipo administrativo, judiciário, militar e fiscal”, segundo Ciro Flamarion Santana Cardoso. [N.T.] [4] Tequio e faena é uma forma de trabalho coletivo não remunerado que todo vizinho dum povo deve a sua comunidade. É uma prática de união e de cooperação. [N.T.]

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