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Anúncio da formação da Federação Anarquista do Afeganistão e Irã

Written by Ho Dolpho

Via Rede de Informação Anarquista

Anúncio da formação da Federação Anarquista do Afeganistão e Irã

Esta união é um acordo livre e voluntário, e cada indivíduo ou grupo continuará a trabalhar independentemente para além de estar na união.

Na união, todas as tendências anarquistas, exceto as religiosas, pacifistas e os chamados anarco-capitalistas, tem potencial de se voluntariar.

Todas as pessoas e grupos devem assinar qualquer chamado ou anúncio com o nome da união. Se um acordo coletivo não for atingido, cada indivíduo ou grupo pode assinar o item independentemente com seu nome ou grupo.

No começo da formação da união, o maior nível de cooperação será por meio da assinatura conjunta da União de Anarquistas. Ao longo do tempo, com mais familiaridade entre indivíduos e grupos, existe a possibilidade de expandir o nível de cooperação.

União Anarquista do Afeganistão e Irã inclui os seguintes grupos anarquistas:

Coleção da Era Anarquista (uma comunidade de anarquistas do Irã e Afeganistão dentro e fora do país).

Grupo Anarquista “Aleyh” (situado no Afeganistão).

Frente Revolucionária Anarquista Radical (que está presente no Irã).

PS: A possibilidade de união de novas pessoas e grupos de anarquistas será permanente.

 

Entrevista com a Federação Anarquista do Afeganistão e Irã

Algumas semanas atrás, um grupo de anarquistas do Irã e do Afeganistão entrou em contato com Alasbarricadas para que nos ajudássemos a espalhar informações sobre essas regiões e suas lutas. Dado nosso absoluto desconhecimento sobre o estado do anarquismo em seus países e as poucas informações disponíveis para nós, praticamente, dois artigos em Inglês em seu site asranarshism, decidimos que era preferível realizar uma entrevista para tentar limpar as dúvidas que nos pairam.

A União Anarquista do Afeganistão e Irã apresentou-se em maio deste ano como uma federação de três grupos (com presença no Irã, Afeganistão e no exterior) e individualidades. Há poucos dias foi feito um convite de organização e cooperação para derrotar a republica islâmica através de uma revolução. Vale lembrar que em janeiro deste ano houve uma onda de protestos no Irã que começou a denunciar o alto desemprego e a inflação. As manifestações se transformaram em tumultos que resultaram em 25 mortes e 400 prisões (segundo a HispanTVmeio de comunicação do governo iraniano). Com estes eventos recentes, a União Anarquista, que alega ser inspirada pela Espanha de 1936, argumenta que:[…] é possível criar uma rede de lutas composta por LGBTQ+, feministas, estudantes, republicanas/os, socialistas, mulheres, agricultoras/res e trabalhadores, além de outros movimentos radicais e progressistas que são pragmáticos e lutam na esfera política do Irã com o objetivo de derrubar a República Islâmica, ou pelo menos coordenar a luta dos anarquistas e outros militantes para derrubar a República Islâmica do Irã e tornar mais efetivas as lutas de todos os militantes.

 

Mais informações sobre o prisioneiro anarquista Soheil Arabi.

Segundo a Anistia Internacional, ele foi condenado à morte em 2014 por insultar o líder supremo no Facebook. Embora o jornal The Guardian tenha relatado que fontes do governo iraniano afirmam que sua sentença foi comutada por dois anos de estudos religiosos devido à pressão internacional, tudo parece indicar que ele ainda está na prisão aguardando um novo julgamento. As duras condições que divide com outros presos foram denunciadas por sua mãe e esposa que o levaram a inúmeras situações de greve de fome e sede.Isso é tudo que podemos te dizer. Nós reproduzimos a entrevista para que vocês possam tirar as suas próprias conclusões. Se vocês quiserem segui-los nas redes sociais, no final desse artigo haverá uma extensa lista de contas do Facebook, Instagram e Twitter relativo a sua luta.

Vocês moram no Irã e Afeganistão ou no exterior?

Nossos membros estão aproximadamente dois terços no Irã e Afeganistão e um terço fora. Mais da metade do total está no Irã. Dos países no exterior, residem principalmente na Europa, Canadá e Estados Unidos, e alguns desses membros nasceram ou foram criados nesses países. Ao recrutar novos membros, devemos notar que a grande maioria deles está no Afeganistão e no Irã, e o processo de recrutamento está se acelerando rapidamente.

Quais são os piores aspectos da situação política em seus países?

No Irã, o pior aspecto da situação política é criado pela violenta repressão de qualquer oposição, incluindo protestos civis, econômicos, sindicais e etc, de modo que qualquer caminho reformista seja bloqueado. O regime não aceita ser questionado, mesmo em questões de meio ambiente, onde a administração causou a seca e a morte de vastas extensões de vida selvagem iraniana. A resposta à pequenos protestos de rua são espancamentos, prisão de longo prazo ou execução, tanto que o Irã ocupa o primeiro lugar no mundo de número de presos e presos políticos, número de repressão a jornalistas, artistas, cientistas, estudantes, professores, acadêmicos, mulheres e ativistas dos direitos da criança, trabalhadores, ambientalistas, direitos humanos, minorias religiosas e étnicas, ateus e LGBTQ+. No Irã esses casos são terrivelmente altos e continuam aumentando. O comportamento brutal do regime tornou a revolução inevitável.

Afeganistão: O pior problema político em nosso país é que o governo é um instrumento das potências mundiais. Nossa luta não é apenas contra o governo afegão e não apenas criticamos sua abordagem, um problema fundamental são as grandes potências como os Estados Unidos, porque o governo afegão é realmente uma de suas ferramentas. Aqui as instituições internacionais têm departamentos administrativos cuja função é lidar com assuntos coloniais. As consequências de tais atividades são abusos cada vez mais graves. Por exemplo, as comissões de direitos humanos não fazem mais do que realizar estatísticas sobre atos violentos, mas nunca exigem mudanças nas políticas do estado em termos de direitos humanos, de mulheres e crianças.

Na Europa a ideia que temos sobre a vida em seus países vem do que temos acesso nos meios de comunicação. No melhor dos casos dos filmes e quadrinhos. Que preconceitos errôneos temos no ocidente sobre a vida e a política em seus países?

Acho que a maior diferença com o ativismo ocidental é seu fanatismo na defesa do Islã (apoiado na tese da islamofobia na qual a República Islâmica tem construído e pago por si). Porque no meu país o fascismo islâmico, como o fascismo na Alemanha, ofusca tudo e causa a discriminação racial, étnica e acadêmica, e a resposta a qualquer protesto ou desacordo é que você tem que acabar com a vida de pessoas que são contrárias ao Islã. De fato, a defesa do Islã por ativistas ocidentais não é baseada na defesa positiva do islamismo, mas é baseada na liberdade de expressão. Atualmente o Islã em nosso país é exatamente como o cristianismo na idade média, e há uma necessidade real de se retirar rapidamente o Islã do centro do poder até que se possa estabelecer um sistema humano e político radicalmente laico.

Afeganistão – Um preconceito que existe no ocidente sobre nossas vidas é o olhar colonial. Por exemplo, eles nos vêem como terceiro mundo e imaginam que só merecemos simpatia. Essa impressão tornou possível “limpar” suas consciências culpadas com apoio financeiro dado por eles e não mais pensar sobre isso. Na verdade, esses atos, são uma maneira masturbatória de aumentar sua própria autoestima.

Como vocês se tornaram anarquistas? Qual o acesso à ideias anarquistas no Irã e no Afeganistão?

No Irã, comunistas e socialistas de esquerda estão em atividade e são conhecidos há muito anos. No entanto, por um lado os teocratas estão no poder, e por outro, antes da Revolução Islâmica, o poder estava nas mãos de nacionalistas e monarquistas. Consequentemente, nos familiarizamos através da prática com os métodos e comportamentos dessas correntes políticas, e rapidamente percebemos que todos lutam pelo poder são contra as pessoas. Ao estudar a história e a filosofia ocidentais, nos familiarizamos com o anarquismo e chegamos à conclusão de que, para o Irã, a alternativa humana é uma sociedade anarquista. Como não há concentração de poder, a possibilidade de corromper e opor as pessoas é eliminada. E, claro, para a nossa esperança no futuro da humanidade.

Com quais outras/os rebeldes dos seus países vocês se relacionam?

Por razões de segurança, não podemos falar sobre as atividades de nossos ativistas dentro do Irã, mas podemos dizer que os nossos membros, tanto homens quanto mulheres estão em quase todas as partes no Irã e são militantes ativos em todas as lutas populares contra o regime islâmico. Enquanto isso, só posso mencionar Soheil Arabi, prisioneiro anarquista que é bem conhecido.

O que vocês acha do confederalismo democrático proposto pelo Curdistão?

Em nossa opinião o sistema que foi colocado em prática pode ser uma maneira de alcançar uma sociedade anarquista. O fato de finalmente chegar ou não ao destino dependerá de uma variedade de coisas, como os regimes islâmicos fascistas vizinhos, mas como uma transição para uma sociedade anarquista, parece-nos ser um sistema pragmático e aceitável.

Como vocês analisam os eventos da Primavera Árabe?

A Primavera Árabe, na minha opinião, foi uma revolução popular contra os regimes islâmicos que não conseguiam atender às necessidades do povo. Essas revoluções teriam se espalhado por toda a região, se não fosse pelas intervenções dos países imperialistas ocidentais. A revolução se converteu em uma guerra onde fascistas islâmicos, como a República Islâmica, Turquia e Arábia Saudita, assim como imperialistas – Estados Unidos e Rússia, fizeram tal inferno neste país que o resto das pessoas da região se conformaram em ser marionetes desses Estados autoritários. O único país onde se conseguiu a revolução popular sem praticamente intervenção estrangeira direta foi a Tunísia, nos outros países foi a intervenção estrangeira que dissolveu as revoluções e outro um estado fantoche tomou lugar do anterior ou, como no caso da Síria, a revolução se converteu em uma terrível guerra civil.

Vocês chamam a derrubada do regime iraniano. Não temem, assim, que a desestabilização da área seja uma desculpa para que os Estados Unidos opere nela? Aí estão os exemplos da Líbia, Síria, Afeganistão…

Não é necessário explicar a participação estadunidense em outros países, este Estado imperialista vem intervindo, usando a força, em outros países há muitos anos. Sobre o medo, tenho que dizer que as pessoas que estão presas no inferno da República Islâmica, o inferno da pobreza, a prostituição, a guerra, a destruição do meio ambiente,… não têm nada a perder e o medo dos Estados Unidos não significa grande coisa.

O que podemos fazer do Ocidente para apoiar as pessoas dos seus países?

Precisamos que os ativistas ocidentais apoiem os militantes reais e que digam às pessoas de seus países que não defendam o Islã. Porque agora temos que lutar em duas frentes: por um lado, lutamos contra a República Islâmica e por outro lado, contra a percepção do Ocidente sobre o Islã e de quem defende que os combatentes islâmicos são bons. Infelizmente, mesmo pessoas como Noam Chomsky, defendem as políticas da República Islâmica.
De fato, a interpretação desse comportamento é que esses ativistas ocidentais estão dispostos a ignorar e sacrificar os militantes reais no Irã ao preço de se opor às políticas imperialistas americanas. Para finalizar devemos acrescentar que o anarquismo dentro do Irã tem uma grande quantidade de adeptos e é considerado uma força jovem e poderosa. Nesse momento, as condições de vida das pessoas são muito difíceis e o forte apoio dos anarquistas de outros países para as lutas do povo e das/os anarquistas do Irã será, naturalmente, um grande fôlego e subirá a moral de quem milita contra a República Islâmica. A sensação de que não estamos sozinhos no Irã e que nossos irmãos e irmãs em outras partes do mundo nos apoiam, será parte de nossa moral e terá um impacto positivo na qualidade de nossas lutas. O anarquismo internacional, como tem influenciado em Rojava, poderia fazer o mesmo no Irã. Os anarquistas não reconhecem fronteiras e onde houver opressão, lutarão contra ela.
Como uma pequena parte da comunidade anarquista no Irã, convidamos a nossas irmãs e irmãos a lutar pela liberdade contra um dos estados mais corruptos e sedentos por sangue da atualidade.

Viva a união! Viva a liberdade! Viva a anarquia!
União Anarquista do Afeganistão e Irã, 1 de junho de 2018

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