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Entrevista | Tortug@ e Pavel, anarcopunks do México

Written by anarcopunkORG

A entrevista dessa semana é com Tortug@ e Pavel, anarcopunks que vivem em Chiapas – México, e nos contaram um pouco sobre as propostas para o próximo encontro regional anarcopunk que ocorrerá em San Cristobal de las Casas em julho, o Centro Social Xanobil – um espaço autônomo anarcopunk em que atuam, a cena no México, projetos de resgate do histórico das experiências anarcopunks por lá. e outras idéias…

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anarcopunk.org Olá kompas! Falem um pouco sobre como estão agora as movidas anarcopunks no México. Que coletivos, bandas, zines e projetos estão ativos atualmente?

tortug@ – Nesta região, em Chiapas, estamos muito distantes de outras cenas, as mais próximas são Oaxaca a 13 horas, Veracruz Xalapa a 10 horas, ou Caribe, Cancún, a 22 horas. Então é difícil as vezes o contato e a informação, e creio que não exista uma rede ativa funcionando, onde se possa informar sobre a cena anarcopunk no México. Existem vários coletivos, sobretudo na Cidade do México, como Pensamientos Unidos, com mais de 20 anos de existência, Revuelta Anarcopunk, Sinergia, Biblioteca Social Reconstruir, Okupa Che, Espacio Anarcopunk; em Guadalajara o Centro Social Ruptura, e há bandas como Crimenes de Guerra, Desobediencia Civil, Fallas del Sistema, Contra Historia, Chaos Day, Sabotaje; em Oaxaca, Terror de Estado, Ataque Directo, Anónimos, e fanzines como Mala Prensa, Rebelión Inmediata, Levantados, Criptas Records, Irreverentes, Amor Destructivo Odio Creativo, Mentes Liberadas, Guerrilla Marginal, Arte Subversivo, e várias distribuidoras de material libertário e contracultural. Com certeza há mais gente ativa no território, mas desconhecemos muiras cenas sobretudo ao norte do país. Espero que este evento nos ajude a conhecer pessoas de outras regiões.

pavel chiapas – Desconheço um pouco sobre a cena no México que exista e se mantenha. Apenas sei da Biblioteca Social Reconstruir, dxs compas de Oaxaca que estão ativxs a partir do assassinato de Salvador.

 anarcopunk.org – Em julho vocês estão organizando o II Encontro Regional Anarcopunk em San Cristobal de las Casas (Chiapas). Falem sobre as atividades e idéias para o encontro.

pavel chiapas – Pretendemos mostrar a nós mesmxs que se pode organizar coisas, e podemos deixar bem claro e na prática que há movimento nestas terras. Planejamos três dias de encontro, dentro do qual estão contempladas atividades culturais, políticas e esportivas, além de compartilhamento de experiências com pessoas que estão na resistência e luta há muitos anos.

tortug@ – Estamos planejando atividades como futebol, projeções, uma visita a uma okupação indígena, um pic nic próximo a um rio, práticas, análises, reflexões sobre a história do movimento punk, uma gig e para finalizar uma manifestação pelas ruas de San Cristóbal em conjunto com as comunidades e grupos indígenas que estão em luta, e estamos convidando para esta atividade de rua diferentes contraculturas como o movimento hip hop. O objetivo desta mobilização é mostrar em Chiapas um movimento anarcopunk combativo, denunciar a ditadura que vivemos, as perseguições e morte de muitxs ativistas nas mãos do estado mexicano. Fazer presentes nossxs mortxs e nomear nossxs presxs de consciência, pois há muita gente no cárcere por lutar contra o sistema opressor, e nos solidarizar com suas lutas, causas de outros grupos rebeldes, um já basta de tanta opressão.

Algumas fotografias do primeiro encontro:

 

anarcopunk.org – Vocês estão envolvidxs em um espaço anarcopunk em sua cidade, o Centro Social Xanobil – Caminantes Del Sureste. Que atividades são feitas ali, como é a gestão e há quanto tempo o espaço existe?

tortug@ – Decidimos fazer um centro social anarcopunk, mas a casa estava muito destruída e assim começamos a pintar o espaço, arrumar os banheiros e tubulação, limpar toda a sujeira que havia no lugar,

Lá se pratica o box e tae kon do, as oficinas acontecem de segundas a sextas, conta com uma cozinha e alguns quartos que são alugados para pagar o aluguel da casa, e agora acabamos de incorporar uma biblioteca, que conta com livros sobre anarquismo, punk, movimentos sociais, zapatismo, história, e também uma quantidade de revistas, periódicos e fanzines libertários. Temos uma audioteca com cassetes, cds, eps e lps do movimento punk mundial.

Lançamos o primeiro boletim do Centro Social Anarcopunk Xanobil, e também serão realizadas projeções de filmes ou documentários e estamos trabalhando em um restaurante popular que funcionará todas as terças-feiras.

pavel chiapas – Recuperamos um espaço que era administrado por pessoas com muito pouco compromisso e que tinham uma atitude auto-destrutiva, e uma vez recuperado, ao longo de aproximadamente dez meses foi construído um ginásio de box, que tem servido para integrar as pessoas do bairro, e contribuiu para a desestigmatização do espaço. Contamos com uma biblioteca com material social, político e anarquista aberto para quem deseje. Se formou um projeto musical anarcopunk chamado ke punx. Gerimos o espaço com aulas de box e aluguel de quartos por dia ou mês.

anarcopunk.org – Você me contou sobre a idéia de produção de um material sobre a história da cena anarcopunk no México. Como vocês estão pensando e organizando esta produção?

tortug@ – A idéia surgiu no encontro anarcopunk da Costa Rica, onde se planejava fazer um trabalho sobre a história do punk e anarquismo nas cenas latinas, se falava sobre a importância de que xs anarcopunks escrevam sua história, com suas ideias e experiências, para deixar documentos para as novas gerações de compas ácratas. Para o México ficou o quarto número, o primeiro já lançaram xs compas da Costa Rica, um punkzine muito bonito que nos mostrou seu compromisso com os acordos e a organização internacional. Agora um dos objetivos deste encontro em Chiapas é que este trabalho editorial seja mais plural e diverso, com várias vozes dxs punks anarquistas que têm muito a contar. Convidamos anarcopunks de várias gerações para que viessem escrever para este zine – e agora no primeiro encontro regional de Huajauapan, em abril, isto se tornou um acordo entre as pessoas que participaram, que concordaram em escrever cada uma respectivamente sobre suas cenas,

Outra das influências para este projeto foi o livro “Semeando a Revolta” que a Imprensa Marginal editou no Brasil, e são tão necessários estes documentos. Sobre a edição, desenho, impressão e financiamento, tudo isto será falado no encontro, tomando decisões e acordos coletivos que possam fortalecer o movimento em nível regional.

Oaxaca

anarcopunk.org – Há pouco tempo, o México também sediou um Encontro Internacional Anarcopunk (EIAP). Nos fale um pouco sobre suas visões sobre o encontro e sobre como vê a rede de contados e movidas em nível internacional.

pavel chiapas – Em um nível geral, o que posso contar é que se fez uma análise e nos demos conta de que o movimento a nível nacional e mundial estava muito disperso, pois a rede da IAP (Internacional Anarco Punk) não estava tão ativa, e aqui em San Cristóbal não existia um grupo que estivesse disposto a trabalhar. Entretanto depois deste encontro, as redes dentro da IAP começaram a se integrar mais, soubemos de compas que estão ativxs em outras partes do mundo, e começaram a acontecer encontros e compartilhamentos com anarcopunks de outros lugares.

tortug@ – Este encontro aconteceu em agosto de 2014, foi o VII Encontro da Internacional Anarcopunk, que resultou do VI EIAP realizado em São Paulo/Brasil, onde uma das propostas é que o próximo fosse no México. Soubemos que a presença foi pequena, diferente do III Encontro realizado na Bahia em 2002, onde havia mais de 100 anarcopunks do Brasil e gente de outras regiões da América Latina. Observamos que neste evento [em São Paulo] só havia participado um compa internacional, o compa Patxi de Navarra, do zine Ni Fronteras Ni Banderas, e que ninguém do México havia ido – por isso me surpreendi. Assim esperei um ano para ver quem do México pegaria a proposta, como algumas cenas maiores ou algum coletivo, “mas nada”, muito silenciosa a cena mexicana. Foi aí que falei com xs poucxs punks anarquistas de Chiapas para levar a cabo esse evento, e começamos a fazer alguns comentários pela IAP, embora tudo seguisse muito silencioso. Assim começamos a trabalhar a organização.

No México já estavam decaindo as redes que punks formaram nos anos 90, muita gente mudou de idéia, outrxs imigraram para outros países, coletivos e grupos deixaram de existir, outrxs mudaram de contato e enfim, um monte de circunstâncias que fizeram com que se apagasse um pouco esta comunicação. Difundimos o possível o evento entre as pessoas, e o resultado foram 20 participantes – poucas em comparação ao II Encontro no México onde haviam mais de 100 compas de quase todo o país.

Algo importante a analisar nos encontros da IAP” – me parece que a baixa veio do encontro de Porto Alegre, onde as discussões foram muito agressivas e não houve compreensão de posturas, nada de informação para as dezenas de anarcopunks que seguiam a IAP, apenas nos enteramos das problemáticas do Brasil: existia a possibilidade de um encontro em 2010 no Chile, mas as pessoas estavam passando naquele momento por questões muito repressivas, encarceramentos, perseguições e desalojos de okupas e espaços anarquistas, e não existiam as condições para que a cena chilena fizesse esse evento, e então se passaram mais dois anos sem um contato direto.

Me parece que este processo volta a ser retomado graças ao encontro que se realizou em 2012 em São Paulo/Brasil, onde xs companheirxs resgataram o encontro depois da sabotagem em Porto Alegre – e pessoalmente fiquei muito alegre que a cena brasileira tenha resgatado isso, pois foi no Brasil a ruptura destes encontros. Creio que o que se buscava desde o início nestes espaços de encontro era a amizade, afinidade e cumplicidade dxs anarcopunks do mundo, “mas está complicado”.

Este processo nos deixa clara a importância da comunicação e organização do movimento punk anarquista, se queremos passar da individualidade ao coletivo e a luta ombro a ombro contra o poder e a autoridade, ou conseguir realizar ações conjuntas e coordenadas, ou se é necessário apoiar a companheirxs presxs ou perseguidxs, e que as informações do movimento cheguem às diversas realidades que lhe dão vida, e não apenas às cenas maiores.

A IAP é uma alternativa para as pessoas que buscam um projeto internacionalista no anarcopunk, entender e conhecer posturas, realidades e formas de luta de outrxs anarcopunks, sem impor ou importar modos ou posturas, mas fazendo fluir o contato e o intercâmbio de ideias.

 

Cidade do México

 

anarcopunk.org – Como você vê o contato atual entre anarcopunks e o movimento zapatista? Historicamente houve muita proximidade, como é isto hoje?

pavel chiapas – Vejo pouco contato, na minha opinião isso se tornou mais agudo ante à postura do EZLN e CNI de labçar uma candidata nas eleições de 2018. Entretanto ainda existem pessoas que seguem comprometidas com a luta zapatista e o movimento anarcopunk.

tortug@ – O punk e o anarquismo estão muito afastados da realidade zapatista, falta contato e leitura de tudo o que vêm propondo xs compas. Claro que há pessoas muito informadas e participativas com o movimento zapatista desde o princípio, mas são muito poucxs. Mas vejo que cada vez há mais anaercopunks interessadxs em fazer contato com os povos indígenas e camponeses, conhecer suas problemáticas e formas de luta. No caso do movimento anarcopunk de Oaxaca, é muito profundo o trabalho com as comunidades em luta e também há muitos punks indígenas, talvez por isso seu compromisso seja mais contundente.

O punk ou o anarquismo estiveram sempre presentes, de muitos modos. As vezes depende de algum processo social no México, as vezes parece que está tudo muito tranquilo, também há anarcopunks que criticam e não apoiam zapatistas, argumentando que estaríamos apoiando organizações autoritárias nacionalistas – alguns deles nunca foram ao território zapatista, e o melhor é vir às comunidades autônomas e ter sua própria experiência. Tive a oportunidade de participar da terceira volta da escola zapatista, e ali conheci um anarcopunk brasileiro chamado Felipe. O compa ficou fascinado pelas comunidades, e quando regressou das atividades, me comentou que falou muito com a família onde viveu por uma semana, falaram de muitos temas, e um deles foi a vida “em clandestinidade”. Isto o emocionou e me disse que foi uma grande experiência para ele.

anarcopunk.org – Valeu kompa! Este espaço fica livre para suas idéias!

tortug@ – Obrigada pelo interesse e espaço para poder difundir este encontro, esperamos que tudo flua com harmonia e irmandade, que as pessoas que participem venham com a ideia de compartilhar, ouvir e participar, sem impor, sem manipular, ou buscar destruir xs poucxs que estão organizadxs. “De toda forma estamos preparadxs para as circunstâncias que possam acontecer”, como disse um pensamento, “um movimento que não conheça sua história está condenado a repetí-la”. Vamos adiante anarcopunks, força e coragem guerreirxs!

 

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