Category Archives: Manifestações no mundo

[Espanha] Comunicado sobre o ataque à Livraria Europa

ataqueCom este comunicado assumimos a responsabilidade política pelo ataque contra a Livraria Europa, ocorrido às 10h30 de terça-feira passada, 11 de março. Se após a recente onda de investidas a centros sociais, detenções e encarceramentos de antifascistas por parte do Estado, alguém pensava que o campo ficava livre para a passagem do fascismo em Barcelona, com a ação de terça-feira deixamos claro que se equivocava.
Os soluços vitimistas difundidos pelo nazi Varela como reação a nosso ataque (expresso na forma de um discurso hipócrita contra a “violência da esquerda”) não nos surpreendem, pois conectam com a fachada generalizada que tentam manter em diferentes graus todos os grupúsculos do fascismo espanhol, arrastando pateticamente pelo chão seus verdadeiros princípios para mostrar-se ante o público, sob o mais apresentável aspecto do populismo xenófobo democrático. Mas em que pese todas as tentativas de maquiagem política, a cantilena vitimista e democrática de sujeitos como o que dirige a Livraria Europa, diretamente vinculada com a comunidade de nazis do exército de Hitler aposentados no Estado espanhol após a Segunda Guerra Mundial (Otto Skorzeny, Leon Degrelle), sempre soarão estridentes e ridículas nos ouvidos minimamente informados.
O fascismo expressa seu DNA violento não só quando historicamente adquire a forma de Estado totalitário, aniquilando mediante o terror as minorias que a ele se opõe, senão também em suas formas atuais de grupúsculos políticos ou de gangue, levando a cabo agressões brutais contra quem consideram seus alvos. Agressões que só no Estado Espanhol têm causado inúmeros feridos graves e mortos: Carlos (2007); Roger (2003); Guillem Agulló (1993); Lucrecia Perez (1992)…
Frente a essas agressões e frente às tentativas de impor um projeto político baseado na exacerbação e institucionalização destas agressões, diferente de seus autores, nós nos não ocultamos nossa determinação para atuar de forma contundente. Não vamos deixar-lhes passar. Não deixaremos que intoxiquem nossos bairros e nossos povoados com o discurso fácil da “unidade nacional” e o “ódio ao estrangeiro”, aproveitando o contexto de crise para ganhar cotas de poder, ao custo de impor ainda mais violência e pressão sobre a classe trabalhadora migrante. Aqui como em qualquer lugar da Europa, aqui em Barcelona como em Vallecas, Paris, Keratsini ou Hellersdorf, o inimigo é o mesmo: o sistema capitalista que tem devastado nossas condições de vida em nome dos “Mercados”, e seu subproduto reacionário, os fascistas que querem levar ainda mais longe o autoritarismo e a brutalidade dos Estados.
Por isso, porque somos conscientes dos tempos que vivemos e viveremos, não podemos senão surpreendermo-nos ante a atitude de quem por um lado critica a ação direta contra os nazis de hoje em dia, e por outro, leva as mãos à cabeça, vendo documentários históricos sobre as ditaduras europeias dos anos 30, enquanto se pergunta: “Como é que ninguém fez nada?”
Barcelona, 13 de março de 2014.
Tradução > Sol de Abril
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Libélula inocente
cai na boca do sapo
que mora na lagoa
Rosalva

Chamada para Semana Internacional pelos Presos Anarquistas, de 23 a 30 agosto de 2014

 augustsolNo verão de 2013, membros de vários grupos da Cruz Negra Anarquista (CNA) discutiram a necessidade de um Dia Internacional pelos Presos Anarquistas, visto que já existem datas estabelecidas – como o Dia dos Direitos dos Presos Políticos ou o Dia da Justiça – sendo importante destacar as histórias de nossos companheiros também.
Muitos anarquistas presos nunca serão reconhecidos como “presos políticos” pelas organizações formais de Direitos Humanos, porque seu senso de justiça social é estritamente limitado às leis capitalistas, que são projetadas para defender o Estado e impedir qualquer mudança social real; ao mesmo tempo, inclusive dentro de nossas comunidades individuais, sabemos muito pouco sobre a repressão que existe em outros países, para não mencionar os nomes e os casos de muitos de nossos companheiros presos.
É por isso que decidimos introduzir uma Semana Anual para os Presos Anarquistas, de 23 a 30 de agosto de 2014. Escolhemos o 23 de agosto como ponto de partida, porque nesse mesmo dia, em 1927, os anarquistas italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti foram executados na prisão. Foram condenados pelo assassinato de dois homens, durante um assalto à mão armada em uma fábrica de sapatos em South Braintree, Massachusetts. As prisões foram parte de uma campanha mais ampla antirradicais liderada pelo governo dos EUA. As provas do Estado contra os dois foram quase que completamente inexistentes e muitas pessoas até hoje acreditam que eles foram punidos por suas fortes crenças anarquistas.
Dada a natureza e a diversidade dos grupos anarquistas em todo o mundo, propomos uma semana de ação comum, em vez de uma única campanha em um dia específico, tornando mais fácil para os grupos poder organizar um evento dentro deste período.
Por isso, chamamos a todos para divulgar a Semana Internacional dos Presos Anarquistas entre outros grupos e comunidades, bem como a pensar sobre a organização de eventos em sua cidade ou região. As atividades podem variar em rodas de informações, projeções de filmes, concertos de solidariedade até ações diretas. Deixe sua imaginação correr livre.
Até que todos estejam livres!
325 (Grupo anarquista de contrainformação); CNA Bielorússia; CNA Brighton; CNA Bristol; CNA Cardiff; CNA Finlândia; CNA Kiev; CNA República Tcheca; CNA Letônia; CNA Leeds; CNA Londres; CNA México; CNA Moscou; Nizhny Novgorod (Grupo Antirrepressão); CNA São Petersburgo.
agência de notícias anarquistas-ana
 
Pássaros em silêncio.
Noturna chave

[Espanha] 22M, um antes e um depois

22m1Hoje, 22 de março, mais de um milhão de pessoas temos deslocado para a “capital do reino” a nossa repulsa e raiva contra a atual situação social. A CNT considera que esta jornada de mobilização social foi encorajadora, e que marca um antes e um depois, já que foi organizada a margem de CCOO, UGT e dos partidos políticos, e sem cobertura da mídia. O 22M deve ser o germe de uma luta contínua e comum pela defesa de nossos direitos, contra os cortes, na defesa das liberdades e de denúncia da repressão. Nosso próximo passo tem que ser o Primeiro de Maio e, depois, construir juntos um cenário de confronto com o poder. Por isso convidamos a todos os trabalhadores que rechaçam e estão desencantados com os sindicatos oficiais, assim como o movimento libertário, para se juntar para construir essas lutas.
Esta mobilização esteve submetida a uma clara censura por parte dos meios de comunicação, nos mostrando assim a sua pluralidade e sua vocação de informação objetiva. Essas empresas criadoras de opinião tentaram silenciar a existência dessa luta. Mas nada os ajudou, já que esta se espalhou desde baixo até se tornar uma realidade inquestionável, que incomoda e preocupa. Sem dúvida vão se esforçar para distorcer os fatos e ocultar as reivindicações; por outro lado, porão todas as energias para dar voz aos nossos honrados políticos, para que nos digam que estas não são as fórmulas ou o caminho correto, e para nos lembrar o quão ruim é estarmos se mobilizando a margem de seus ditames e farsas eleitorais.
Também achamos vergonhoso e oportunista a atuação de CCOO, UGT, USO e os coletivos da Cimeira Social, que se juntaram de última hora para salvar o expediente e rentabilizar sobre os esforços e as lutas de todas as pessoas, grupos e organizações que trabalharam para tornar bem-sucedida esta mobilização. Será uma curiosa coincidência a reunião desta semana entre os agentes sociais e o governo? Mais uma tentativa para cobrir suas safadezas, obter destaque, e reivindicar uma legitimidade que ninguém reconhece por suas traições e corrupção. Nem juntos ou separadamente: todos eles fracassarão se estivermos juntos na luta, na rua. Hoje em Madri foi ouvida a voz da classe operária.
Também queremos expressar nossa oposição à militarização de Madri, com a presença de centenas de esquadrões antidistúrbios, criminalizando antecipadamente um protesto social legítimo. Eles temem a nossa voz, e pretendem nos amordaçar. Nós sofremos e denunciamos suas agressões. Não vão nos parar; continuaremos nas ruas.
A CNT esteve presente na manifestação de hoje com um bloco composto por milhares de militantes e simpatizantes. Além disso, foi parte importante de várias das colunas regionais que convergiram até Madri. Agradecemos a todas as pessoas que se juntaram a nós hoje, contribuindo para a luta.
Pelo renascimento da consciência de classe, nos vemos no Primeiro de Maio e não nas urnas.
Solidariedade e apoio mútuo!
Secretariado Permanente do Comitê Confederal da CNT-AIT
 
Mais infos: http://cnt.es/
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Outono –
as folhas caem
de sono
Cláudio Fontalan

[Reino Unido] Anarquistas bloqueiam conferência da OTAN

Ativistas antimilitaristas bloquearam hoje [17 de março] uma conferência da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] em uma mansão na zona rural de Sussex. Enquanto isso, faixas foram pendurados perto das pontes rodoviárias próximas ao local, para saudar os delegados que chegaram em Wiston House em Steyning.
Os manifestantes conseguiram bloquear a entrada da frente por mais de uma hora, levando a cenas caóticas no A283, como carros em fila para entrar na propriedade.
Um oficial do evento falou aos manifestantes: “Se vocês evitarem que o evento aconteça, os delegados não vão estar aqui para vê-los protestando, assim vocês não vão passar a sua mensagem para eles!”.
Ativistas também fizeram piquetes na entrada dos fundos, sendo a polícia obrigada a escoltar os carros para a conferência. Um manifestante foi preso e algemado por cerca de três grandes policiais, por razões que não são claras.
Folhetos também foram distribuídos em alguns locais no centro da cidade de Steyning, onde os manifestantes foram seguidos pela inteligência policial.
Também aconteceram piquetes na entrada de trás com Wiston House ao fundo. O campo de Sussex é tão bonito, mas só pode ser apreciado por uns poucos burgueses.
A OTAN está sediando uma “Conferência Narrativa Estratégica Post 2014″ de segunda a quarta-feira, (17 a 19 de março). Seu objetivo é definir a agenda e conteúdo para a Cimeira da OTAN 2014, em Newport, País de Gales, em setembro.
Chloe Marsh, da campanha anticomércio de armas Smash EDO (Esmague a Edo¹), disse: “Altos funcionários da OTAN e dos Estados membros, parlamentares e especialistas em defesa e segurança – responsáveis por mortes incalculáveis, voos ilegais de tortura, e as guerras puramente para proteger os interesses ocidentais – estão se reunindo neste momento em Steyning. Estamos aqui para nos opor a eles”.
A “Narrativa estratégica” da OTAN é, essencialmente, as mentiras com as quais pretende enganar o público e justificar a sua próxima invasão imperialista. O site oficial da conferência até admite que estejam planejando “os elementos de uma estratégia de comunicação pró-ativa, para transmitir pós 2014 a narrativa estratégico da OTAN e validação da utilidade da força militar para os políticos e públicos dos Estados-Membros”.
Michelle Tester, da Smash EDO, disse: “Alguns de nós já visitaram as regiões que têm sido alvo da OTAN. Vimos edifícios devastados pelos bombardeios e conheci pessoas locais que perderam amigos e familiares. Opomo-nos à demonização pelos governos ocidentais e pela mídia de pessoas de países que são vítimas de invasões da OTAN”.
Ativistas do grupo Stop NATO Cymru (Pare a OTAN Cymru), que faz parte da Anarchist Action Network (Rede de Ação Anarquista) irão se mobilizar contra a cúpula da OTAN em Newport, em setembro.
Anarchist Action Network

[1] EDO é uma empresa de fabricação de armas e equipamentos militares localizada em Brighton, Reino Unido.
Tradução > Caróu
agência de notícias anarquistas-ana

Mesmo o velho eucalipto
Parece feliz –
Névoa da manhã.
Paulo Franchetti

[Israel] Apoio econômico para o grupo “Anarquistas Contra o Muro”

anarchistsisrael

Anarquistas Contra o Muro (Anarchist Against the Wall) é um grupo de ativistas israelenses envolvidos em uma longa luta pelos direitos dos palestinos. As inúmeras negociações só resultaram em uma enorme expansão dos assentamentos israelenses sobre os territórios palestinos ocupados, e em uma constante opressão violenta. Apesar da repressão, o movimento popular palestino, que não perde suas esperanças nos desejos dos governos estrangeiros, se recusa a abandonar sua aspiração à liberdade e segue lutando a cada semana. Acreditamos que é nosso dever de se juntar a sua luta e ajudá-los de algum modo no que for possível.
Durante os últimos dez anos, temos mantido um nível intenso de atividade. Nosso grupo está envolvido em cinco manifestações semanais e, ademais, oferecemos todo tipo de apoio à luta popular palestina. Os lugares com os quais temos colaborado são Bilin, Ni’lin, Qadum, Nabi Saleh e Maasara. Estes e outros lugares já sofreram mais de vinte mortes, feridos e detenções policiais incontáveis. Sua coragem é uma fonte de inspiração e, visto que eles renunciam à resignar-se, nós também renunciamos a nos desanimar em nossa luta.
Temos a sorte de contar com uma equipe de advogados que trabalham incansavelmente para defender os ativistas presos em manifestações ou outras ações. Além disso, essa equipe de advogados nos representa em centenas de julgamentos perante tribunais civis e militares. É fundamental que a equipe jurídica seja capaz de continuar trabalhando para o movimento. No entanto, o número de casos para defender sempre exige uma constante busca de fundos para pagar os advogados, ainda que seus honorários sejam “camaradas”.
Este ano, mais uma vez, pedimos-lhe colaboração, com a quantidade que você pode oferecer, para o nosso fundo jurídico, para que israelenses e palestinos possam se defender contra o Exército e os tribunais civis, para que recebam o apoio que merecem.
Anarchist Against the Wall – AAW
Para doações visite: http://www.awalls.org/donations
agência de notícias anarquistas-ana
 
O azeite não se mistura
à água, nem minha mágoa
com seu deleite.
Rogério Viana

[Rússia] Anarquistas de Petrozavodsk foram sequestrados e seriamente feridos por pessoas desconhecidas usando máscaras

asuno1qjtkuAnarquistas, organizadores da manifestação “Contra a guerra na Ucrânia” em Petrozavodsk foram sequestrados e seriamente feridos por pessoas desconhecidas usando máscaras.
No dia 9 de março, junto a tradicional ação Food Not Bombs [Comida Sim Bombas Não], iria acontecer a manifestação “Contra a guerra na Ucrânia” em Petrozavodsk, por uma solução pacífica à tensa situação ali e prevenção de uma continuação sangrenta.
Na tarde do dia 8 de março, dois organizadores da manifestação e um amigo foram atacados. Dois carros chegaram e uma dúzia de homens fortes usando máscaras imediatamente começaram a brigar. Eles gritavam “Vocês querem dar nossa Crimea para Bandera?”, “Vocês vão aprender como se manifestar”, e assim por diante.
Após uma ação rápida porém técnica, os agressores voltaram ao carro e foram embora.
Na manhã seguinte, meia hora antes da manifestação, enquanto deixavam a casa após cozinhar para o Food Not Bombs, quatro participantes da ação e da manifestação foram novamente atacados por homens mascarados não identificados, apanharam de novo, foram jogados em dois carros e levados.
Soube-se mais tarde que foram levados para uma floresta, a 40-45 km de distância da cidade. No caminho os agressores falaram que estavam indo cavar seus túmulos, e durante todo o percurso foram espancados e abusados.
Quando chegaram as vítimas foram levadas do carro uma por uma para diferentes lugares (cada uma foi seguida por 3 ou 4 pessoas mascaradas e o carro saiu). Novamente foram espancadas e abusadas.
Foram usados cassetetes policiais, e os agressores ameaçavam mutilar ou matar.
Enquanto isso, uma pessoa desconhecida foi à manifestação com placas provocativas, sem relação com o tema da manifestação, tirou uma foto e fugiu, então o colapso da manifestação foi claramente planejado. Participantes do evento, assim como outros ativistas sociais, tem muita razão em temer por sua segurança e de suas pessoas amadas.
Por favor compartilhe esta informação.
Tradução > Anarcopunk.org
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casca oca
a cigarra
cantou-se toda
Matsuo Bashô
7 (1)

[Venezuela] Atualização expressa da situação venezuelana

 

7 (1)Em 21 de fevereiro passado, escrevemos uma síntese dos acontecimentos para quem está no exterior, supersaturados de informação sobre a Venezuela, necessitando de uma cronologia dos fatos. Passaram-se apenas 4 dias desse relato, mas há tantos elementos novos que é necessária uma atualização para sugerir que qualquer fotografia da realidade venezuelana mudará nas próximas horas.
O primeiro elemento a ressaltar, é que as manifestações dos críticos ao governo continuam até o momento em que isto se escreve, e não parece que se deterão nos próximos dias. A cultura venezuelana havia se caracterizado por promover o esforço de resultados a curto prazo, sem permanência no tempo, pelo que a soma de cada novo dia de protesto contradiz o imediatismo político que parecia próprio do “fazer” no país. Por isso que o próprio presidente Maduro utiliza como uma de suas estratégias fomentar seu mais rápido desgaste, aumentando dois dias mais o feriado de carnaval para que comece em 27 de fevereiro, dia que se cumprirá 25 anos da revolta popular de “El Caracazo”, com dezenas de assassinatos ainda impunes.
Uma segunda novidade, como sugeríamos em nosso texto anterior, é que Caracas tem deixado de ser o epicentro da mobilização nacional. No sábado, 22 de fevereiro, pró-governo e opositores convocaram passeatas na cidade de Caracas, ambas com ampla concorrência. No entanto, em pelo menos 12 cidades do interior do país também se realizaram mobilizações dissidentes, algumas delas proporcionalmente tão massivas como a da capital. No caso da cidade de San Cristóbal, capital do estado Táchira (fronteiriço com a Colômbia), a intensidade das mobilizações e conflitos, que incluíram além dos estudantes e classe média, setores populares e rurais, motivaram a militarização da cidade sob controle a distância a partir de Caracas. O governador da entidade José Vielma Mora, do partido oficialista PSUV, criticou a repressão e solicitou publicamente a libertação das pessoas detidas, o que até agora têm sido a primeira crítica pública de um membro do governo às decisões de Nicolás Maduro.
Quando isto se escreve, haviam sido registradas a morte de 15 pessoas em manifestações ou em fatos relacionados com os protestos; 8 delas cuja autoria aponta a funcionários policiais, militares e paramilitares; 2 delas vítimas de “armadilhas” montadas no protesto oposicionista denominada “guarimba” e o resto por fatos obscuros ocorridos nas proximidades das mobilizações, que devem ser investigados e esclarecidos (por exemplo, o desenvolvimento de um adolescente de 17 anos). As reportagens do diário Últimas Notícias, respaldados por fotos e vídeos que circulam nas redes sociais, têm obrigado a que a Fiscalização detenha a funcionários da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e o Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN), para investigá-los pela autoria material dos fatos. No entanto, altas vozes do Executivo Nacional, como a Ministra das Comunicações Delcy Rodríguez e o próprio presidente Maduro, continuam culpando a oposição de todas as mortes. Capítulo a parte, merece o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, que através de seu programa diário “Con el mazo dando”, transmitido pela televisão estatal, realiza afirmações delirantes sobre as causas dos assassinatos.
A “guarimba” é uma estratégia que setores da oposição promoveram no final do ano de 2002. Consiste em realizar, em um lugar considerado “seguro”, protestos – geralmente nas imediações das moradias dos manifestantes -, fechando a via com barricadas e lixeiras ou pneus incendiados. A “guarimba” possui várias características que a diferenciam de outras manifestações. Uma é sua relação simbólica com o Golpe de Estado e a chamada “greve petroleira” do ano de 2002, por que se carregou de um conteúdo insurrecional, propenso a confrontação física com os organismos de segurança. A segunda, como consequência da anterior, tem sido insistentemente criminalizada pelo governo, sendo por isso uma estratégia excludente: Se bem pessoas pró-governo puderam incorporar-se a uma manifestação pacífica por exigências comuns, dificilmente o farão a uma “guarimba”. Terceiro, geram uma ampla rejeição dentro dos próprios setores oposicionistas, como o demonstrou a marcha de 22 de fevereiro em Caracas, onde havia tantos cartazes de rejeição às “guarimbas” como à atuação dos grupos paramilitares. A medida que o presidente Nicolás Maduro tem estimulado a repressão felicitando em público a atuação da GNB, não reconhecendo a responsabilidade estatal em parte das vítimas fatais e legitimando institucionalmente a atuação dos grupos paramilitares mediante o estímulo aos “Comandos Populares contra o Golpe de Estado”, têm gerado um caldo de cultura de indignação que tem permitido a aparição de “Las Guarimbas” em alguns focos, tanto em Caracas como em cidades do interior do país. Não obstante, uma olhada a todos os tipos de mobilização em todas as cidades do país que se mantêm nas ruas, corrobora que a manifestação continua sendo majoritariamente pacífica.
A entrega do líder opositor conservador Leopoldo López, em 18 de fevereiro, foi toda uma “performance” para catapultar sua imagem como “novo líder” da oposição venezuelana e centro do movimento nacional de protestos. Sua entrega se realizou junto a uma massiva concentração na fronteira entre o município Chacao e Libertador de Caracas. No entanto, até o dia de hoje a dinâmica de multidões na rua continua sendo de redes descentralizadas, com múltiplos centros. Há toda série de convocações por redes sociais, como “panfletagens”, “fazer orações nacionais na mesma hora” e até “baileterapias”. Algumas, se tornam virais e são assumidas por boa parte do movimento. Muitos opositores acostumados ao modelo vertical de organização leninista da era analógica, exigem permanentemente que os protestos “tenham uma direção” e “exigências comuns”.
O governo insiste em que se enfrenta a um “Golpe de Estado”, alguns dizem que “repete o roteiro de abril de 2002” e outros argumentam que se trataria de um “Golpe continuado”. Nicolás Maduro convocou a enfrentar os manifestantes na rua, ativando “comandos populares antigolpe”. No entanto, as duas manifestações realizadas nos últimos dias pelo governo nas ruas de Caracas, não contam com o respaldo e os níveis de convocação das realizadas por Hugo Chavez. Se bem os níveis médios e altos do governo expressam seu apoio às decisões de Maduro, o chavismo de base começa a ressentir-se pela repressão aberta aos manifestantes, que tem gerado centenas de imagens que fluem através dos telefones celulares. Por outro lado, o próprio presidente emite mensagens contraditórias sobre a natureza da hipotética ameaça a qual enfrenta: Convocando insistentemente a celebrar os carnavais, dançando para as câmeras de televisão, pedindo publicamente – em várias oportunidades – melhorar as relações diplomáticas com os Estados Unidos, designando seu representante ante o Fundo Monetário Internacional, retirando as credenciais de trabalho na Venezuela da CNN – que significou de fato sua expulsão do país – e em 24 horas convidá-los a transmitir de novo a partir do país.
Apesar que no nível internacional permaneça a polarização midiática informativa sobre a Venezuela, no interior do país continuamos sofrendo um importante bloqueio informativo. Os canais de televisão de alcance nacional não informam sobre as manifestações, nem tampouco transmitem ao vivo as mensagens dos líderes políticos de oposição, enquanto, por outro lado, são tomados por declarações dos principais funcionários públicos. O governo pensou o conflito em termos analógicos, pensando que a invisibilidade televisiva e a repressão seriam suficientes para silenciar os protestos. Tardiamente tem iniciado uma ofensiva em redes sociais, enquanto o serviço de internet, controlado pelo Estado, sofre irregulares diminuições de velocidade e bloqueios em alguns dos aplicativos mais populares utilizadas pelos usuários, como Twitter e What’sApp.
A radicalização dos principais grupos do conflito fazem que não seja majoritário, ainda, a exigência de diálogo para a resolução da crise. O presidente Maduro convocou a realização de uma “Conferência Nacional de Paz” paralelamente a seu governo – e ele mesmo – continua desqualificando como “fascista de ultra-direita” aos opositores e aumenta o número de detidos em todo o país, os quais denunciam torturas, tratamentos cruéis, desumanos e degradantes durante sua privação de liberdade. O aumento da quantidade de pessoas assassinadas, feridos por armas de fogo, tiros e bombas lacrimogêneas, incrementa o espiral de violência e ressentimento em ambos os grupos que, não deixando canais políticos para a resolução do conflito, abona o terreno para que os militares assumam garantir a “governabilidade” mediante um golpe de Estado, bem seja de tendências do próprio oficialismo ou ligados à oposição. A extravagante imagem de um general retirado do exército venezuelano, Angel Vivas Perdomo, no teto de sua casa, mostrando armamentos de guerra – na tentativa de detenção, após ser acusado da autoria intelectual das armadilhas localizadas na “guarimba” que ocasionaram uma morte em Caracas -, têm originado um furacão de rumores sobre os presumidos “mal estares” dentro das Forças Armadas. A isto se soma uma série de saques de comércio em vários lugares do país, com uma coordenação tal que levanta demasiadas suspeitas.
Os acontecimentos se encontram em pleno desenvolvimento: A fotografia deste momento pode ser completamente diferente nas próximas 48 horas. Esperamos  seguir conectados à internet para contá-lo.
Rafael Uzcátegui
 
Caracas, 25 de fevereiro de 2014.
Tradução > Sol de Abril
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O casulo feito
bicho dentro dele dorme
vestido de seda.
Urhacy Faustino

[Venezuela] Resumo expresso da situação venezuelana para curiosos e pouco informados

Em 4 de fevereiro de 2014, estudantes da Universidade Nacional Experimental do Táchira, localizada no interior do país, realizaram um protesto devido ao abuso sexual contra uma companheira, devido a situação de insegurança da cidade. A manifestação foi reprimida e vários estudantes presos. No dia seguinte, outras universidades do país realizaram seu próprio protesto, pedindo a libertação destes presos, sendo por sua vez reprimidos e alguns estudantes encarcerados. A onda de indignação tinha o contexto da crise econômica, a situação de escassez e crise de serviços básicos, assim como o começo da aplicação de um pacote de medidas econômicas por parte do presidente Nicolás Maduro. Dos políticos opositores, Leopoldo López e Maria Corina Machado, tentam capitalizar a onda de descontentamento convocando a novas manifestações sob o lema de “La Salida”, para pressionar pela renúncia do presidente Maduro. Seu chamado também reflete as divisões internas da política opositora e o desejo de deslocar a liderança de Henrique Capriles, que rejeita publicamente os protestos. A coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD), tampouco as apoia.
O governo, ao reprimir os protestos, consegue que os mesmos se estendam por todo o país. Em 12 de fevereiro de 2014, pessoas em 18 cidades se mobilizaram pela libertação dos presos e em rejeição ao governo. Em algumas cidades do interior, particularmente castigadas pela escassez e a falta de luz e água, as mobilizações são massivas. Em Caracas três pessoas são assassinadas no marco das manifestações. O governo culpa pelas mortes os próprios manifestantes, mas o jornal de maior circulação do país, Últimas Notícias, que recebe o maior orçamento publicitário do governo, revela mediante fotografias que os assassinos eram funcionários policiais. Como resposta, Nicolás Maduro afirma em cadeia de rádio e televisão, que os organismos policiais haviam sido “infiltrados pela direita”.
A repressão contra os manifestantes não só utiliza organismos policiais e militares, senão que têm incorporado a participação de grupos paramilitares para dissolver violentamente as manifestações. Um membro da Provea, ONG de direitos humanos, foi sequestrado, golpeado e ameaçado de morte por um deles no oeste de Caracas. O presidente Maduro tem estimulado publicamente a atuação destes grupos, aos quais denomina “coletivos”.
O governo venezuelano atualmente controla todas as estações de televisão, e tem ameaçado com sanções às rádios e jornais que transmitam informações sobre as manifestações. Por isso, o espaço privilegiado para a difusão de informações têm sido as redes sociais informáticas, especialmente o twitter. O uso de dispositivos tecnológicos pessoais têm permitido gravar e fotografar amplamente as agressões dos corpos de repressão. Organizações de direitos humanos relatam que em todo o país os presos (muitos deles já liberados), têm ultrapassado de 400, e que têm sofrido torturas – incluindo denúncias sobre abuso sexual – tratamentos cruéis, desumanos e degradantes. Quando isso foi escrito, 5 pessoas tinham sido assassinadas nos marcos das manifestações.
Em seus discursos Nicolás Maduro estimula que os manifestantes a seu favor assumam posições mais radicais e violentas. Automaticamente, sem nenhuma investigação criminalística, afirma que cada pessoa falecida tem sido assassinada pelos próprios manifestantes, a quem desqualifica permanentemente com todos os adjetivos possíveis. No entanto, esta beligerância, parece que não está sendo compartilhada por todo o movimento chavista, pois muitas de suas bases se encontram na expectativa dos acontecimentos, sem expressões ativas de apoio. Maduro tem conseguido mobilizar unicamente aos empregados públicos nas escassas manifestações de rua que têm realizado. Apesar da situação e devido a grave situação econômica que enfrenta, Nicolás Maduro continua tomando medidas econômicas de ajuste, sendo a mais recente o aumento da unidade tributária.
O aparato de Estado reitera permanentemente que enfrenta um “Golpe de Estado”, que repetiria o ocorrido na Venezuela em abril de 2002. Esta versão tem conseguido neutralizar a esquerda internacional, a qual nem sequer tem expressado sua preocupação pelos abusos e mortes nas manifestações.
Os protestos se realizam em muitos pontos do país e não tem um centro de direção, sendo convocados através de redes sociais. Entre os manifestantes há opiniões diversas sobre os partidos políticos opositores, por isso é possível encontrar tantas expressões de apoio aos mesmos como de rejeição. No caso de Caracas, são protagonizadas especialmente por setores de classe média e universitários. No interior do país, ao contrário, tem se incorporado setores populares às manifestações. Em Caracas as petições são majoritariamente políticas, liberdade para os presos e renúncia do presidente, enquanto que no interior do país, incorporam demandas sociais, como a crítica a inflação, a escassez e a falta de serviços básicos. Ainda que algumas manifestações tenham se tornado violentas, e alguns manifestantes tenham utilizado armas de fogo contra policiais e paramilitares, a maioria das manifestações, especialmente fora de Caracas, seguem sendo pacíficas.
A esquerda revolucionária independente venezuelana (anarquistas, setores do trotsquismos e do marxismo-leninismo-guevarismo) não tem nenhuma incidência nesta situação e somos simples espectadores. Alguns estão denunciando ativamente a repressão estatal e ajudando as vítimas de violação dos direitos humanos. Venezuela, um país historicamente petroleiro, possui níveis baixos de cultura política entre a população, por isso os manifestantes opositores têm o mesmo problema de “conteúdos” que as bases de apoio do oficialismo. Mas enquanto a esquerda internacional continue lhes dando as costas e apoie acriticamente a versão estatal de golpe de Estado, deixa milhares de manifestantes à mercê dos discursos mais conservadores dos partidos políticos de oposição e sem referências anticapitalistas, revolucionárias e de mudança social que possam influenciá-los. Neste sentido a detenção de Leopoldo López, líder conservador opositor, consegue que sua figura se converta em centro de uma dinâmica mobilizadora que até o momento em que isto se escreve, havia superado aos partidos políticos opositores ao governo de Nicolás Maduro.
O que acontecerá em curto prazo? Creio que ninguém o sabe com exatidão, especialmente os próprios manifestantes. Os acontecimentos estão em pleno desenvolvimento.
Rafael Uzcategui
 
Para informações alternativas sobre a Venezuela recomendamos:
Ps: Se você quer ler sobre os elementos que contradizem que na Venezuela haja golpe de Estado, lhe recomendo ler https://rafaeluzcategui.wordpress.com/2014/02/17/las-diferencias-de-abril/
Tradução > Sol de Abril
agência de notícias anarquistas-ana
 
vejo as flores
coloridas e lindas
brilham meus olhos
Thiphany Satomy

[França] Notre-Dame-des-Landes: Nem obras nem desalojos… Ao aeroporto, seguimos dizendo NÃO!

2014-02-22_Nantes_manifZAD-400x565CHAMADO COMUM DO MOVIMENTO ANTI-AEROPORTO
 
[Em Notre-Dame-des-Landes, a Oeste da França], o Estado e as pessoas a favor do aeroporto ameaçam de novo com a imposição do projeto pela força. Pretendem iniciar, nos próximos meses, a destruição das espécies protegidas e a construção do aeroporto. Uma nova onda de desalojos poderá chegar. Não os deixaremos agir! Na zona de Notre-Dame-des-Landes, o movimento está ainda mais vivo que no outono de 2012 [quando atacaram para tentar desalojar todos os espaços ocupados], os laços são mais densos, os campos mais cultivados e as cabanas mais numerosas… Mas, além disso, há mais de 200 comitês locais (externos a zona) que foram criados em solidariedade com a luta e com a finalidade de propagá-la em seu próprio entorno. Chamamos a todas as forças anti-aeroporto a unir-se a manifestação de 22 de fevereiro em Nantes, para mostrar-lhes que de nenhum modo podem pôr a mão ao “bocage” [um ecossistema em estrutura de campo fechado].
Chamado feito por ocupas da ZAD [Zona A Defender]. A derrota da operação policial “Cesar”!
 
Fazem algumas décadas, um projeto grotesco de aeroporto ameaça o “bocage” de Notre-Dame-de-Landes, próximo da cidade de Nantes (Oeste da França). Deixado de lado por causa da crise do petróleo nos anos setenta, os dirigentes locais, o Partido Socialista, o UMP [partido de direita] e os empresários, todos reunidos, o trouxeram de novo a luz faz alguns anos, agora rotulado de “ecológico”! Fazem décadas, a população local se opõe à destruição de suas casas e de sua agricultura, respaldando-se sobre suas tradições de luta camponesa e antinuclear. A partir do final dos anos 2000, pessoas de toda a Europa chegaram para apoiá-la. Vieram instalar-se na Zona A Defender [ZAD], respondendo a um chamado de uns vizinhos que haviam decidido resistir, e ocupando desde então as terras e as casas que se abandonaram – fazem alguns anos – para deixar o espaço ao futuro aeroporto.
Em 16 de outubro de 2012, quando mais de mil gendarmes [polícia antes visada às zonas rurais, que depende do exército] chegaram para desalojar aos ocupas da ZAD, o vigor da resistência e a onda de solidariedade que essa operação engendrou, surpreendeu a todo mundo e sobretudo aos dirigentes, que já haviam duvidado que se podia responder assim à violência de suas escavadoras. Depois de dois meses de subir nas árvores [para impedir que fossem tombadas], de recursos jurídicos, de barricadas, de cantos e de projetos no “bocage”, de manifestações e de ações apontando a obras e a sedes políticas em outras partes da França, a “operação César” afundou definitivamente.
A ZAD em movimento.
 
A oposição aos desalojos difundiu a convicção, verdadeiro pesadelo para os planejadores do território, que é possível colocar-se no meio de seu caminho. Sim, nos falta enterrar definitivamente o projeto do aeroporto, a brecha aberta aqui tem deixado lugar a um terreno de experimentações sociais e agrícolas, efervescentes e guiadas pela solidariedade e a vontade de mudar. Na ZAD se está elaborando um movimento consolidado pelos encontros entre vizinhos antigos e recém-chegados, entre camponeses que lutam e coletivos que tratam de viver, semear e criar, rechaçando os circuitos mercantis e as normas.
A operação César teve como efeito a geração durante todo o ano passado de um grande impulso de reocupação e de reconstrução. Há hoje em dia uns sessenta lugares habitados, granjas, casas, cabanas e aldeias divididas na zona, assim que uma vintena de projetos de produção agrícola e de hortaliças. Também existem espaços coletivos para fazer rádio, música, comedores e festas, fazer pão e transformar alimentos, ler e jogar, fazer costura ou fabricar artesanalmente um moinho de vento, consertar bicicletas ou curar-se…
O retorno de César?
 
Estes últimos meses a maioria das tentativas feitas por VINCI, a empresa encarregada do projeto, e pela Prefeitura [autoridade estatal regional] para levar a cabo as obras preparatórias na ZAD, têm sido impedidas ou sabotadas. Apesar de tudo, fazem umas semanas os pró-aeroporto não param de anunciar nos meios de comunicação o reinício próximo das obras, e a necessidade de voltar a desalojar-nos.
A próximo etapa em seu calendário seria vir a “deslocar” algumas espécies de animais raras do “bocage”, e levar a cabo a criação de lagos e sebes nos arredores, segundo quotas de “compensação” fixadas a partir da quantificação em seus termos dos “bens e serviços ao eco sistema” do “capital natural”. Mas além do aeroporto de Notre-Dame-des-Landes, trata-se aqui de pôr em funcionamento, técnicas de engenharia ecológica ainda experimentais e emblemáticas da “maquiagem verde” moderna, que poderia servir no futuro de modelo e de legitimação para a viabilidade de outros projetos deste tipo. Para empresas como VINCE, trata-se de fato de comprar direitos de contaminação e de destruição, agora com a legitimação de “naturalistas” mercenários como a empresa Biotope. A compensação encarna uma lógica gestora que pretende encaixar em parâmetros e contabilizar a vida.
Nós mantemos uma relação totalmente diferente com os bosques, “bocages” e caminhos, com as histórias que os atravessa, e os seres vivos que fazem parte de nossa vida diária. Esses vínculos sensíveis, esses saberes práticos, ferramentas, armas e cúmplices, recursos ou referências não se deixarão nivelar. Nos negamos categoricamente a que nossas vidas sejam encaixadas e fracionadas ao infinito em suas equações acadêmicas, calculadas segundo os princípios econômicos da moda.
A resistência é contagiosa.
 
Hoje em dia, Notre-Dame-des-Landes se tornou um símbolo das lutas contra a ordenação territorial capitalista, que acredita que pode dispor segundo seus desejos dos espaços considerados como “não produtivos”, para implementar ali suas centrais elétricas, seus centros comerciais, suas linhas de alta tensão ou seus mega meios de circulação para humanos e produtos. Um símbolo e um grito de guerra, como puderam ser em sua época, Plogoff [luta vitoriosa contra a construção de uma central nuclear na Bretanha no final dos anos setenta], ou Larzac [luta camponesa vitoriosa contra a construção de um gigantesco campo militar no centro da França em 1973]. Um símbolo, porque em todos os lados opera essa lógica do maldito dinheiro, da velocidade, da destruição de territórios e do controle – o que eles chamam o “desenvolvimento”. De Notre-Dame-des-Landes a linha de alta velocidade entre Lyon e Torino, passando pela lixeira de rejeitos nucleares em Bure, os poderes públicos tentam impô-lo a base de pseudo-consultas e marketing “verde”. Muitas vezes se saem bem, e logram fazer-nos crer que não há alternativas. Às vezes, a reação dos vizinhos os colocam em xeque.
No próximo 22 de fevereiro em Nantes, é uma virada decisiva que está em jogo: A metrópole de Nantes tenta de novo a anexação de Notre-Dame-des-Landes? Então serão todas as oposições a este projeto e a todos os projetos do mesmo alcance que diremos à metrópole que não os queremos! Manifestaremos com alegria e determinação por lograr o abandono do projeto e para o porvir, todavia por construir, sem planificadores territoriais, tanto na ZAD como em outras partes.
Já que pretendem “compensar” o “bocage”, levaremos fragmentos dele a Nantes, e faremos ressoar o chamado para impedir concretamente o início das obras, que seja a destruição das espécies locais ou as outras obras conexas ao projeto de aeroporto: a estrada, a extensão das estradas e a modificação das redes de abastecimento de água, de eletricidade, etc…
Aproveitaremos para afirmar que se vem para desalojar-nos de novo, vamos resistir, reocupar e reconstruir, com as dezenas de milhares de pessoas que já se têm aliado aos vizinhos e camponeses da ZAD.
Lançamos a partir de hoje mesmo, um convite a organizar-se para bloquear a região e ocupar centros de poder por toda França e as representações diplomáticas, ou o que seja, no resto do mundo, em caso de uma nova grande operação policial. A VINCI, Auxiette, Ayrault e demais dirigentes: fora! Vivam as ZAD!
Ocupas da ZAD, grupos e pessoas em luta contra o aeroporto e seu mundo. Notre-Dame-des-Landes
 
Tradução > Sol de Abril
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O Estado Grego contra xs estudantes

559697[Grécia] A Democracia acusa estudantes secundaristas de delitos graves e os proíbe de se apresentarem aos exames de seleção por haverem participado em ocupações

O terrorismo de Estado nas escolas secundárias continua mais intensificado. A polícia se encarregou do funcionamento das escolas secundárias e da tarefa da repressão aos estudantes que participaram em mobilizações estudantis e ocupações de escolas. Em várias escolas secundárias do território do Estado grego, os aparatos repressivos do Regime têm implementado procedimentos penais contra estudantes secundaristas menores de idade que participaram nas últimas mobilizações estudantis, acusando-os de delitos graves, enquanto que em um caso conhecido proibiram a estudantes de se apresentarem aos exames de seleção por haverem participado em ocupações.

Fazem uns dias a Polícia chamou a diretora dos três últimos cursos e o diretor dos três primeiros cursos da escola secundária do bairro de Pireo Keratsini para que testemunhassem e delatassem aos estudantes do secundário da escola que haviam participado na última ocupação em outubro passado. O ano passado, dezenas de estudantes secundaristas, de colégios no norte da Grécia foram expulsos por haverem participado em manifestações contra a instalação de uma mineradora de ouro em Calcídica. Em outubro de 2011, fiscais, policiais e paraestatais irromperam em escolas secundárias ocupadas para reprimir as mobilizações juvenis. No mês anterior o governo neoliberal pretendeu proibir a política nas escolas, com uma encíclica do Ministério da Educação de 1985, segundo a qual “fica proibido qualquer discurso de conteúdo político dentro das escolas, dirigido aos educadores ou aos estudantes por parte de representantes de partidos, de órgãos coletivos ou por outras pessoas”.
O diretor se negou a colaborar com as forças repressivas do Regime. Pelo contrário, a diretora, atuando como uma genuína delatora, entregou aos policiais os nomes e apelidos de oito alunos que segundo ela, haviam participado na ocupação. Quando lhe perguntaram se havia delatado aos estudantes, se negou a responder, ameaçando a um dos pais de expulsá-lo de seu escritório. Ao mesmo tempo chamou a polícia, pedindo-lhes que o prendessem e que confiscassem seu telefone celular, temendo que houvesse gravado toda a conversa que haviam tido.
Depois disto, os oitos jovens foram chamados pela delegacia do bairro para testemunhar. Os policiais perguntaram aos meninos a que se dedicavam seus pais, como haviam votados nas últimas eleições, qual é a situação econômica de sua família, qual é a ideologia ou as convicções políticas de seus professores, porque haviam realizado a ocupação, quais haviam sido os professores que os haviam apoiado, e se haviam sido incitados por algum partido ou por alguns de seus professores.
Na delegacia os jovens foram informados que são acusados de delitos graves, e de que segundo os policiais não têm direito de apresentarem-se nos exames de seleção (ingresso) para as universidades, enquanto correm os procedimentos penais contra eles. Quando a Associação de Professores local pediu à Polícia que lhes explicassem em que lei se basearam para proceder a estas ações, a resposta que receberam os deixou atônitos, inclusive aos partidários ou defensores da Democracia.
Os policias ensinaram aos professores um documento da Direção Geral da Polícia, no qual se ordena a todas as delegacias registrar todas as escolas de seu bairro, contatar com os seus diretores com a finalidade de “registrar seus problemas e necessidades”, “receber petições realizadas pelos diretores das escolas, com respeito a temas associados com o Ministério da Ordem Pública e da Polícia”, redigir relatórios pertinentes sobre tudo isso, e apresentá-los às subdireções da polícia local… Depois de haver recebido esta ordem, policiais da delegacia de um bairro de Atenas visitaram os diretores de várias escolas secundárias, primárias e… creches de seu bairro.
Assinalamos que o caso da repressão dos estudantes da escola secundária de Keratsini não é nem o primeiro nem o único. Diretores de várias escolas secundárias, depois de haver sido contatados pela Polícia, entregaram às forças repressivas do Regime os dados de estudantes que segundo eles participaram nas últimas mobilizações estudantis e ocupações de escolas, ou “incitaram” a outros estudantes a proceder a tais ações. Em dois casos de escolas das províncias, alunos do secundário têm sido processados por haver participado em ocupações de três anos atrás! Todos estes jovens estão acusados de vários delitos graves.
O denominador comum de todos os comunicados dos partidos ou coletivos esquerdistas e das associações progressistas é sua surpresa, a afirmação que “estas práticas convertem as escolas em terreno de controle, manipulação e aterrorização dos seus professores e diretores”, e a constatação de que “obstaculizam o trabalho educativo”… A Associação de Professores local em seu comunicado pede “que a escola volte o quanto antes a seu funcionamento regular e a seus fins educativos”.
Deixamos de lado o fato de que em seus comunicados fazem menção tão só aos professores e diretores das escolas, e não aos alunos, que são os receptores principais do terrorismo da Democracia. No atual sistema sociopolítico as escolas são instituições de manipulação dos jovens, de produção de pessoas dóceis e obedientes, de sua integração na hierarquia deste sistema, e por ente de reprodução e perpetuação do sistema imperante em geral, e de sua estrutura e ideologia em concreto. Este é o papel que tem que cumprir o sistema pedagógico inteiro e os que o servem. Para nós, é algo mais que óbvio que este papel não é nada neutro. Tudo isto é chamado “funcionamento regular” no comunicado dos professores, citado no parágrafo anterior.
No totalitarismo neoliberal que estamos vivendo, o Poder está intensificando sua ofensiva contra aquela parte da sociedade que resiste à imposição de seus planos. Esta ofensiva têm várias facetas. Onde não chega o estilo de vida, a desinformação, a propaganda, o controle do pensamento, chega a criminalização de qualquer ação política coletiva ou não, a repressão direta e a aterrorização dos que não se conformam com esta realidade horrorosa que se pretende impor nas escolas, nas universidades, nos lugares de nossa escravidão assalariada, nos espaços públicos, na internet, em todas as partes.
O que está tentando realizar o Regime nas escolas é muito mais que uma mera “obstaculização do trabalho educativo”. É a primeira vez depois da Ditadura não encoberta (1967-1974) que direta e abertamente as forças repressivas se fazem responsáveis pelo funcionamento das escolas. A mensagem intimidatória remetida pelos governantes aos estudantes é clara: “Somos os senhores de vossa vida. Como se atrevem a tomá-la em vossas mãos, a fazer ocupações, greves, manifestações e em geral qualquer ação que ponha em perigo o status quo atual, vamos castigá-los e reprimi-los de qualquer maneira que nos pareça adequada. A mensagem remetida a seus pais é igualmente clara, colocando-os também na mira da repressão, e indicando-lhes o caminho da submissão.
Contudo, o que não levam em consideração os soberanos e os agentes executivos de seus planos, é que quem semeia vento, colhe tempestade. Já têm caído as primeiras gotas da tempestade que está por vir.
O texto em castelhano aqui:
Tradução > Sol de Abril
agência de notícias anarquistas-ana
 
Rastros de vento,
escuridão de brasas,
um salto suave.
Soares Feitosa