Arquivo da Sessão ‘Artigos’

CONSIDERAÇÕES SOBRE MACHISMO, SEXISMO E HETERONORMATIVIDADE NA VIVÊNCIA ENTRE ANARQUISTAS DE UM SQUAT!

Thursday, June 14th, 2012

Comunicado de umx companheirx de Porto Alegre/RS:

“Sendo o patriarcado, um sistema socio-político-cultural e para além disso, uma ideologia consolidada e cotidianamente restabelecida na nossa sociedade, me proponho a desenvolver um relato sobre algumas experiências observadas a cerca da reprodução da imposição masculina como instrumento de coação e opressão entre indivíduos que acreditam ter ideias e práticas anarquistas.”

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HAITI – COMEM A CARNE E NÃO QUEREM ROER O OSSO

Wednesday, February 22nd, 2012

* Por Lucia Skromov

Maquiando o Haiti

Até o terremoto, a mídia retocava cinicamente o retrato deste país, com recursos encomendados pelos exércitos dos governos invasores, obedecendo a recomendações dos experts políticos sob os auspícios da referida comunidade internacional, que tem à testa os EUA, França e Canadá. Encobrindo a realidade e se escondendo através de reportagens e documentários visivelmente montados, os governos comprometidos com a invasão, que já vai para o seu oitavo ano, inventaram um Haiti todo fantasiado de paz e controle e, mais: feliz com a presença das tropas “amigas”!

Mesmo sendo reproduzido o modelo adotado no Afeganistão e Iraque, não estava claro para muitos o sentido da ocupação militar. A desgraça natural fez aflorar as desgraças em nada naturais e ajudou a revelar a que veio essa ocupação: proteger os interesses de toda sorte de imperialismo, instalado numa região geopoliticamente bem localizada, que estabeleceu zonas fabris baseadas em trabalho escravo, com isenção de taxas, retirando lucros astronômicos em cima da miséria e da fome; impedir o direito de organização, cortando literalmente a cabeça das direções e imputando-lhes crimes fabricados para conter rebeliões e colaborar com a burguesia local, que busca tomar as terras secularmente ocupadas pelos trabalhadores do campo, para impedir a reforma agrária.

Ficou claro que o Haiti foi transformado em moeda de troca: exércitos e polícias de governos submetidos às determinações dos EUA, orientados e treinados para derrubar toda e qualquer tentativa de libertação no país, por algum tipo de benesse. O Brasil aceitou o papel, posando de amigo e primo rico, e entrou com patas, tanques e armas. Derrubando a soberania do país, garantiu um bom lugar no ranking do sub-imperialismo. Não ajudou a população em estado visível de desgraça, mas, serviu aos interesses do Grande Império, cujo lema é “Ocupar, Assumir e Controlar”.  Foi substancial para o álibi dos EUA, na sua política de reforço da presença militar na região, o apoio do Brasil. No entanto, apesar de fazer a lição de casa direitinho, este não conseguiu, pelos serviços prestados, nem o reconhecimento, nem o prêmio desejado: uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU.

O Avesso do Controle

Não obstante, o calor da desgraça dissolveu a cosmética que pretendia construir a imagem de.um povo satisfeito e vestido para a festa da invasão estrangeira. O tão decantado controle do comando brasileiro caiu por terra. Com a presença de 14 mil marines mais tropas regulares do exército estadunidense que controlaram todas as saída e entradas do país, ficou claro quem realmente detinha o controle.

O número de mortos e feridos até hoje não foram computados devidamente, pois as estatísticas de qualquer natureza de um Estado falido são pouco ou nada confiáveis, e, somadas ao levantamento fictício realizado pelos governos das tropas invasoras, demonstram o desprezo pelo povo haitiano e o apego a uma política de devastação, para justificar que a invasão se prolongue indefinidamente.

Hoje, ainda que haja a promessa de retirada de 2.750 soldados, o quadro é composto por 12.200, sendo 2.300 brasileiros, que continuam estuprando e cometendo todo tipo de abusos e violações aos Direitos Humanos dos haitianos.  Assisti-se ao desespero de uma população. A maioria desabrigada vive nas ruas, à mercê das intempéries, e uns poucos – os mais “contemplados” – em barracas cedidas por entidades, doadas por organizações internacionais. Foram erguidos, pelo exército estadunidense, acampamentos à imagem e semelhança dos campos de concentração, em perímetros não urbanos, onde os haitianos são obrigados a se cadastrarem para obter comida e lugar para dormir – atentem: sem colchão! – obedecendo a toques de recolher, a usar identificações, tipo pulseiras, e sujeitos, em seu próprio país, a medidas mais condizentes a prisioneiros.

Zero de Reconstrução

No segundo aniversário do terremoto, a crise se aprofundou e segue à devastação natural, a econômica e a social. O caos político virou lugar comum e moeda corrente e escancarou o fracasso da Minustah. Que, apesar da repressão com os conselhos do Bope – Batalhão de Operações Policiais Especiais – e tudo mais, sequer conseguiu debelar as rebeliões dentro do Haiti. Paripassu com o desemprego e repressão feroz, estão a criação de novos negócios lucrativos para os fabricantes de armas, as empresas de segurança e as grandes construtoras dos Estados Unidos e de seus aliados, incluindo as Odebrechts da vida.
A reconstrução tão necessária não veio. O prometido montante de ajuda humanitária – o 1% de US$ 4 bi destinado à ajuda humanitária (dos EUA), os US$ 1.600 bi de assistência emergencial (várias países), os US$ 1.4 bi  de doação (de organizações para projetos) – se veio, não se sabe onde foi aplicado. A situação em nada alterou para a massa famélica. E ninguém presta contas. Não é de se admirar, pois quem governa de direito o país é Michel Martelly, em aliança com Baby Doc e macoutes, mas quem governa de fato é Bill Clinton, que maneja o dinheiro, à testa da Comissão Interina para a Reconstrução do Haiti e como membro do Conselho Presidencial do Haiti para o Crescimento Econômico – junto com empresáriod como O’Brien, da telefonia digital. A política atual é a mesma: reconstruir o poder absoluto dos EUA. Visam um mercado possível, dando espaço a financiamentos de moradia àquela classe que ainda detém emprego e pode se endividar por longos anos até que o bem adquirido seja quitado ou devolvido aos bancos.

O Êxodo

Não bastasse o quadro relatado, o vibrião do cólera, trazido por soldados nepaleses, sob a bandeira da Minustah, grassa nos quatro cantos de um país cujas estruturas estão aquém do imaginável. A fome campeia. A corrida pela comida num primeiro momento gerou um inusitado êxodo: à diferença do tempo dos Duvaliers, a população tomou a estrada da cidade para o campo, causando um desequilíbrio letal. A magra colheita não tem condições de abraçar os famintos dos centros urbanos.  Fechando os olhos para o caos, o Estado incentiva indiretamente o êxodo ao exterior. Para alívio dos EUA, a leva migratória se dirige à América Latina, em especial ao Brasil – país do futuro, celeiro do mundo.
São levas e levas de imigrantes clandestinos cobrando aqui o que lhes foi prometido lá. Nada mais justo.
A diáspora haitiana elege senderos possíveis. Além da República Dominicana, onde os haitianos vendem a força de trabalho ganhando um salário de fome nos canaviais com o bônus do preconceito, dirigem-se à Argentina para estudar ou trabalhar e a grande maioria não consegue um lugar nas universidades e sequer emprego – também por conta do impedimento do idioma. Os que migram para a Venezuela têm melhor sorte, pois o trabalho de vendedor de sorvetes nas ruas, para as empresas locais, não exige senão o manuseio do troco. Há os que buscam a Guiana Francesa, pelo conforto do idioma, mas batem de frente com o preconceito do negro local.
Quando o destino é o Brasil, saem pela Venezuela, e, chegando a Santa Elena de Uairen, entram em Roraima; ou saem pelo Panamá, alcançam o Equador, e fazem a triste travessia pela Bolívia ou Peru, entrando em Brasiléia ou Epitaciolândia ou Assis Brasil, no Acre, ou em Tabatinga, no Amazonas; há os que vêm diretamente ao Rio de Janeiro ou São Paulo. Já há uma colônia na Baixada Fluminense que abriga os “vitoriosos”. Na sua grande maioria trabalham na construção civil. São Paulo é o caminho daqueles um tanto mais qualificados, com experiência em eletricidade ou hidráulica, e dos mais estudados que costumam dar aulas de Francês em empresas como a Wizard. Estes têm mais status. Seus salários, obviamente, estão no patamar da clandestinidade, sem direito aos benefícios decretados pelas leis brasileiras.

A saga dos haitianos pauta uma diversidade de transporte. Os mais comuns são o bote e a caminhada a pé e contratam ou não intermediários, dependendo do destino elegido.
Pagam até US$ 4 mil a coiotes por uma jornada incerta e perigosa. Um dinheiro, resultado de privações, que significa economias de toda uma vida, mais o dinheiro arrecadado com a promessa de sucesso para, posteriormente, trazer os seus financiadores. Na triste travessia há marcas indeléveis de mortes e violências. Sabemos que as mulheres são estupradas e os que reagem a esse estado de coisas são mortos. Os que logram chegar, assustados, aglomeram-se em locais improvisados como albergues, esperando a decisão dos poderes públicos.

Comem a carne, mas não querem roer o osso

De início, a entrada era silenciosa. Não causava tumulto e nem deixou às claras o que se passava por trás dos bastidores da relação empregador brasileiro e empregado haitiano. A exploração atingiu as raias do absurdo. Face aos perigos inerentes à clandestinidade, nenhum haitiano podia reclamar da remuneração bem abaixo do estipulado aos trabalhadores brasileiros.

A partir de 2010 começou o êxodo em massa para o Brasil, impossível esconder o número e a situação desses imigrantes. São de 1.500 a 3 mil pessoas nas regiões do Norte do país e a cada mês entram mais. O governo federal teve que se pronunciar. Sob pressão, seguiu a linha assistencialista e criou o Visto Humanitário para regularizar a situação dos haitianos. Até o presente, dos 4 mil que estão no Acre e no Amazonas, apenas 1.600 têm a situação regularizada e vivem em guetos. Os demais foram cadastrados e aguardam  ou o visto ou a deportação.

O governo federal, representado pelo Ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, já manifestou o seu “espírito solidário” implementando medidas de restrição à entrada de haitianos e contando para isto com o apoio da ONU e do Estado Haitiano. Além disto, já é papel do Brasil ser o mentor das medidas a serem implementadas nos países vizinhos – Equador, Peru, Bolívia e outros contemplados no roteiro dos imigrantes haitianos – para inibir e erradicar a considerada invasão haitiana.

A onda migratória rumo ao Brasil será contida com base na Lei 6.815, de 1980, que decreta o visto de validade por cinco anos para os que vão exercer atividade regular no país. E apenas 100 haitianos, por mês, poderão entrar no Brasil. Os demais serão deportados, porque causam impacto no mercado de trabalho brasileiro. Esqueceram-se de que os brasileiros causaram mais do que impacto no território haitiano. Diante disto, os haitianos continuarão praticando a “marronaj” (escondendo-se e negando informações) e não entrarão com pedido de asilo, pois o “visto humanitário” pode ser uma espécie de armadilha para detectar imigrantes non gratos.

Empresários brasileiros, “imbuídos de pena” e “querendo ajudar os pobres haitianos”, estão oferecendo empregos em diversos Estados do Brasil, do Oiapoque ao Chuí.  Alguns até se mantendo dentro da legislação trabalhista.  Mas esmola demais, o santo desconfia. Foi, na verdade, instalada uma zona de conforto. Dar emprego a um haitiano, neste momento, melhora a imagem do empresariado, além da garantia que não haverá lutas ou reivindicações trabalhistas. O Capital vê nisto uma grande oportunidade para arrefecer a luta de classes numa conjuntura de crise, porque, neste contexto, o haitiano “agradecido” pelo emprego “concedido” não se voltará jamais contra o seu empregador. Quem sabe o empresariado aposta que o empregado haitiano se tornará um excelente lacaio.

[EUA] Participação e influências anarquistas no Movimento “Occupy Wall Street”

Wednesday, October 26th, 2011

Tenho acompanhado os debates em espanhol sobre o movimento “Occupy Wall Street” e vejo que há muita falta de informação e curiosidade acerca de como surgiu esse movimento, como se organiza e qual tem sido a posição dos anarquistas a respeito. A informação que compartilho vem de conversas com David Graeber, que foi um dos organizadores originais das assembléias em Nova York de onde surgiu o movimento, nossas próprias observações dos eventos “Occupy” em Austin, Texas, e dos debates entre ativistas anarquistas nas listas e fóruns de discussão aqui nos Estados Unidos, entre outras fontes¹.

Uma revista cultura canadense que critica os anúncios comercias – Adbusters – convocou, em sua edição de julho de 2011 e por sua mala direta de aproximadamente 90.000 pessoas nos Canadá e nos EUA, uma ocupação de Wall Street em 17 de setembro. Parece que Adbusters acreditava na idéia que é difundida na mídia ultimamente, acerca dos movimentos no Egito e Tunísia: que hoje em dia a revolução se arma por correio eletrônico e Facebook. Como resposta, formou-se uma coalizão de ONGs, sindicatos e grupos socialistas, que anunciaram uma “Assembléia Geral” em 2 de agosto em um parque perto de Wall Street (“Bowling Green”) para organizar a ocupação, que a Adbusters logo anunciou. A notícia se espalhou pelos meios militantes de Nova York. Uns tantos ativistas anarquistas de lá começaram a debater sobre como responder. A revista Adbusters tem certa fama e influência, era muito possível que chegasse muitos grupos ao parque devido a sua convocatória: deveriam, os anarquistas, assistir à assembléia para tentar instigar algo interessante? Alguns disseram que não queriam nada com algo convocado por socialistas e pela Adbusters, uma revista “progressista” um tanto burguesa. Outros decidiram ir, incluindo pessoas que haviam participado na Rede de Ação Direta (Direct Action Network – DAN) que coordenava as manifestações e ações diretas na América do Norte entre 1999 (Seattle) e 2003.

Quando chegaram os ativistas anarquistas e anti-autoritários ao parque em 2 de agosto, já estavam ali os do Workers World Party (“Partido Mundial dos Trabalhadores” -  que os anarquistas conhecem como Stalinistas), com seus microfones e bandeiras, dizendo às pessoas ali congregadas que o plano (seu plano) era marchar à Wall Street imediatamente. Também haviam chegado os Trotskistas da ISO – International Socialist Organization (Organização Internacional Socialista), vários ativistas de movimentos estudantis e ativistas que haviam participado em um protesto (“Bloombergville”) contra o novo programa de austeridade implementado pelo prefeito da cidade de Nova York, que haviam se dispersado um pouco antes.

O coletivo de anarquistas caminhou entre os grupos buscando pessoas de possível afinidade política, reconhecendo rostos e camisas do “Comida, Não Bombas”, coletivos Zapatistas, a Cruz Negra, etc. Perguntaram a estas pessoas se queriam ter uma verdadeira assembléia para organizar uma ocupação, em vez de seguir aos líderes do WWP em uma marcha. Pouco depois, o grupo anti-autoritário – agora mais amplo – convocou uma assembléia para as 20 horas ali mesmo e a informação correu entre os demais grupos que estavam no parque. Entretanto, os WWP foram a sua marcha. Os ISO (os Trotskistas) se dividiram entre a marcha do WWP e a assembléia. Muitos estudantes e os ativistas de “Bloombergville” ficaram para a assembléia. Estiveram também um casal da Espanha que havia participado no movimento dos “indignados” durante os meses anteriores na Espanha, um homem da Tunísia que esteve lá durante a rebelião, e uma mulher anarquista da rede anti-autoritária VOID da Grécia, e todos compartilharam suas perspectivas e conselhos.

A primeira coisa que foi discutida na primeira assembléia foi a questão do processo: decidiram que a assembléia funcionaria por “consenso modificado”, quer dizer, primeiro se tenta chegar a acordos por consenso unânime, mas se depois de muito debate permanecer conflito não resolvido, ou seja, se pelo menos duas pessoas seguem bloqueando, com um voto de 2/3 será tomada uma decisão. Decidiram que houvesse uma Assembléia Geral todos os sábados para organizar a ocupação. Comitês foram formados (“working groups”): um grupo para organizar oficinas de formação em moderação/consenso, um grupo para organizar oficinas de desobediência civil, de como trabalhar em grupos de afinidade, de ação direta, etc. (hoje em dia existem muitos comitês mais – há mais de 35 comitês, incluindo um de saúde, uma biblioteca pública, uma junta médica, etc.). Decidiu-se inicialmente que os comitês seriam autônomos em seu processo interno, e que relatariam seus progressos e planos para a Assembléia Geral. No entanto, como a AG também decidiu que seria respeitado o princípio da “diversidade de táticas”, disse que se um grupo de afinidade quisesse preparar uma ação sem informar a AG por razões práticas ou de segurança, teria todo o direito de fazê-lo. Para que este modelo servisse, concordaram que, se um grupo de afinidade quisesse fazer algo muito combativo, que o fariam de tal forma a evitar, tanto quanto possível, colocar os outros ativistas em perigo, e por sua vez os outros ativistas não questionariam a decisão de realizar tal ação.

Entre 2 de agosto e 17 de setembro os anarquistas que estiveram no início tentaram atrair mais ativistas anarquistas para que o movimento não fosse dominado por seitas autoritárias, e para auxiliá-los em oficinas de ação direta, consenso, etc. Mais pessoas chegaram da velha Rede de Ação Direta (DAN), alguns dos “War Resisters League”, U. S. Uncut, Food Not Bombs, a IWW, e outros insurrecionalistas. Muitos anarquistas, no entanto, se recusaram a envolver-se, dizendo que não tinham fé ou interesse no movimento por ser uma coalizão de gente com muita diversidade política, isto é, pessoas sem muita experiência política, reformistas liberais, marxistas, etc., e também porque acreditavam que uma ocupação não seria suficientemente combativa taticamente. É verdade que era, e continua sendo, uma coalizão muito ampla, com todos os desafios envolvidos. Os WWP se foram, mas muitos do ISO seguem envolvidos como indivíduos (ISO mandou que seus membros se retirassem, mas vários não obedeceram), e segue havendo ainda vários conflitos entre os anarquistas e eles. Por exemplo, tiveram que lutar pelo controle do site, e é por isso que existem duas páginas². Entretanto, milhares de pessoas se agregaram mais – cada vez que a polícia tenta reprimir, mais gente sai às ruas. A energia, a raiva e a loucura que se mostra em vez da habitual apatia têm surpreendido a todos nós. E parece que, embora haja pessoas muito diferentes politicamente, como já foi estabelecida a assembléia e seus processos, incluindo a “diversidade de táticas”, todos agitam a sua própria maneira, e até agora têm sido capazes de cooperar sem grandes problemas.

Tudo isso sobre o movimento em Nova York. A descrição anterior não se aplica necessariamente aos movimentos em outras cidades. Em todos os lugares se ocupa em consenso, organiza-se uma assembléia geral e comissões, e compartilha-se a idéia de que sejam “autônomos”. Mas, em alguns casos, a definição de autonomia não é muito precisa, e não respeitam o princípio da “diversidade de táticas”. Por exemplo, aqui em Austin, Texas, tem havido uma grande polêmica nas últimas duas semanas sobre um grupo de “sem-teto” que tentou fazer um protesto no lado oposto do protesto principal do “Occupy Austin” junto com um grupo de anarquistas que se solidarizam com eles. A assembléia geral do “Occupy Austin” denunciou o acampamento dos sem-teto, dizendo que estavam “seqüestrando” o movimento “autêntico” do Occupy Austin, cujo objetivo é simplesmente “apoiar o movimento de Wall Street”. Também disseram que este outro protesto “sujaria” o nome do movimento “real”, porque os sem-teto deveriam solicitar uma “permissão para acampar”, como eles fizeram. Claro que essa gente branca de classe média do primeiro protesto não reflete sobre como o privilégio ajuda-os a obter uma “permissão para acampar”, e também estão negando completamente a definição de “ocupação”. Finalmente os anarquistas aqui em Austin responderam apresentando uma proposta à assembléia geral em Nova York, solicitando uma palavra oficial em apoio ao acampamento dos sem-teto. Portanto, os Occupy Austin não podem dizer que estão “apoiando o movimento em Wall Street” se não apóiam os sem-teto. A assembléia em NY aceitou a proposta, e expressaram seu apoio em 15 de outubro. Vamos ver o que acontece… É muito provável que existam duas ocupações diferentes.

Conto-lhes essa história como um exemplo: o conflito em Austin tem sido somente um entre vários conflitos parecidos que estão surgindo no movimento nacional acerca de como e quanto o movimento responde à opressão e necessidades particulares das pessoas mais marginalizadas, das pessoas de cor, dos sem-teto, das mulheres, e dos indígenas cujas terras têm sido “ocupadas” por uma população colonizadora. Para visibilizar esta última questão, em Montreal, Canadá (de onde sou), foram feitas ações simultâneas em 15 de outubro: “Ocupar Montreal” e “Descolonizar Montreal”, organizadas pelos anarquistas. Em Nova York e outras cidades estão se formando assembléias gerais em espanhol que se coordenam com a assembléia geral em inglês, para melhor envolver as pessoas que tem por idioma o espanhol. Ou seja, há muito debate, muitas tentativas, e muitos caminhos.

Tem havido debate constante entre anarquistas nos EUA sobre se deveríamos participar, e como. Em todas as cidades há anarquistas que se envolvem porque mesmo que o movimento não seja tão radical quanto queiram, o vêem como uma oportunidade de compartilhar ferramentas, experiência, inspiração, e uma análise mais profunda e histórica sobre a situação social, econômica e política atual. Também, em todas as cidades, há anarquistas que se abstêm. Conta um companheiro em um dos vários debates:

Anarquistas por todos os lados se queixam e criticam o reformismo do movimento Occupy. Considero esta atitude legítima e problemática ao mesmo tempo… Nós que temos estado envolvidos nos movimentos anarquistas há muito tempo tendemos a ser céticos quanto a movimentos sem uma ideologia bem definida, e com razão… Mas este cinismo às vezes nos cega a eventos e ações que buscam capturar o imaginário popular de uma maneira que não podemos predizer ou controlar.

Algumas das ações mais emocionantes durante a rebelião na Grécia foram, a princípio, condenadas por anarquistas pela “inocência” das pessoas que participaram, mas logo se transformaram em assembléias gerais amplas, onde assistiam trabalhadores, aposentados, donas de casa, imigrantes e os anarquistas. Os anarquistas abriram o espaço e asseguraram que se escutassem diversas vozes. As palavras e ações que logo surgiram destas assembléias populares não eram as mais “sofisticadas” ideologicamente, mas eram palavras e ações que surgiram de encontros autenticamente populares, que respondiam a problemas práticos, legítimos e reais, em vez de puros discursos… A verdade é que acredito que deveria emocionar-nos que as pessoas de fora de nosso “meio militante” esteja tomando as ruas e manifestando um discurso tão radical quanto “Ocupar”… Se isto não é uma oportunidade para radicalização em grande escala, não sei o que poderia sê-lo…

A ISO e seu grupo são adeptos de seqüestrar coalizões. Isso é devido a serem autoritários e vanguardistas. Não proponho que façamos como a ISO, mas creio que deveríamos nos meter em coalizões, agitar e tentar instigar o movimento para uma direção mais libertária e radical, e não excluir a cada um que não leve um moicano ou tenha o mesmo vocabulário sofisticado como nós…

Isto posto, em qualquer coalizão, está claro que se deve ser muito cuidadoso com a infiltração de pessoas de direita. Por um lado creio que vale a pena nos envolvermos no movimento simplesmente para evitar que os direitistas o dominem. A ala anti-imigrante da direita “libertária” tentou infiltrar o movimento contra a guerra, com lemas como “Que regressem as tropas, que os coloquemos na fronteira”… Se a direita se apodera deste movimento durante sua formação, poderia ser bem perigoso. Não queremos estar em coalizão com estes desgraçados, mas tampouco não queremos deixá-los apoderarem-se e guiar o movimento.

E ao final pode ser que fracassemos. Talvez iremos investir muito tempo e energia neste fenômeno para logo terminar sem conquistar nada. Mas se não se morre, e ao invés disso nos mantemos ali apenas observando, que fracasso maior seria esse! Queremos ser agentes ou espectadores da história?

Creio que podemos constatar que a presença e a influência anarquista neste movimento tem sido significante – pela influência anarquista em sua organização inicial e como os anarquistas têm conduzido suas formas e processos internos desde então. Além disso, o fato de não haver “demandas claras” (uma crítica comum nos meios comerciais) tem a ver com o fato da maioria das pessoas envolvidas não ter nenhuma ponta de fé no Estado para resolver a situação econômica. Muitos dizem “não vamos reivindicar nada do Estado, nem respeitar sua autoridade para pedir-lhe coisas; o desafio é buscar outra maneira de fazer a sociedade aqui e agora mesmo”. De certa maneira esta posição é implicitamente anarquista, e muita gente envolvida não tem uma linha política clara, nem uma clara análise histórica do Estado ou do capitalismo. Nós os anarquistas levamos tudo isso em conta, refletimos e debatemos, e ao final cada qual decide de maneira autônoma se quer envolver-se ou não, e respeitamos as decisões dos demais.

Escrito em 21 de outubro de 2011 em Austin, Texas, EUA, por Erica Lagalisse

[1] Veja também um artigo próprio de David Graeber (em inglês) em: http://www.nakedcapitalism.com/2011/10/david-graeber-on-playing-by-the-rules-%E2%80%93-the-strange-success-of-occupy-wall-street.html

[2] http://www.nycga.net/, http://occupywallst.org/

agência de notícias anarquistas-ana

Um cão sonolento

esticou as patas

e soltou um vento

Eugénia Tabosa

Anarquismo nas Filipinas

Monday, October 10th, 2011

Companheiro/as do leste distante no florescimento do anarquismo nestas terras:

Muito está sendo feito nas conexões históricas entre anarquismo e as Filipinas. Nada menos do que o trabalho formidável de Benedict Anderson e seu livro “Sob Três Bandeiras”, que consiste em um documento da relação entre anarquismo e anti-colonialismo filtrado através da vida e dos trabalhos de Jose Rizal, uma das figuras primordiais na luta pela independência das Filipinas, a qual Anderson descreve como “o denso entrelaçamento do internacionalismo anarquista e do anti-colonialismo radical”.

O escritor político José Rizal, que foi executado em 1896 pelas autoridades espanholas nas Filipinas aos 35 anos de idade, junto de seu contemporâneo, pioneiro folclórico, ativista sindical e escritor Isabelo de los Reyes foram as principais influências na disseminação das idéias anarquistas para as ilhas.

De los Reyes foi preso em Manila após as violentas insurreições de 1896, e mais tarde deportado para a Espanha onde foi encarcerado, junto de anarquistas Catalães, nas infames Prisões do Castelo Montjuic em Barcelona. Foi nessa ocasião que de los Reyes conheceu e iniciou uma amizade com o anarquista Ramon Sempau. No seu retorno para Manila em 1901, agora sob ocupação estadunidense, ele trouxe consigo livros do Proudhon, Marx, Kropotkin, e Malatesta. Logo após, ele organizou operários gráficos e com sucesso, organizou greves, imbuindo os trabalhadores com idéias anarco-sindicalistas que conduziram para a criação da Union Obrera Democrática (UOD) em 1902. Foi a primeira federação sindical moderna no país e o seu congresso fundador adotou os princípios de dois livros – “Vida e Obra” de Karl Marx e “Entre Camponeses” de Errico Malatesta, enquanto fundamentos políticos do movimento. Em seu auge, em 1903, a organização somava 150 sindicatos filiados, com mais ou menos 150.000 membros em oito províncias de Luzon. Após a UOD ter organizado um protesto massivo, o governador os colocou sob vigilância policial, os estereotipando como “radicais, subversivos e anarquistas”.

Desde a publicação do livro “Sob Três Bandeiras” em 2005 as Filipinas tem visto um aumento significativo nas atividades anarquistas. Existem grupos como o Coletivo Como um Todo, composto por anarquistas e artistas que gestionam uma infoshop na cidade de Davao, Mindanao, e as atividades envolvem a realização de manifestações contra a exploração corporativa, e foram parte de uma campanha ativista de sucesso que resultou na completa proibição de pesticidas aéreos que eram lançados sobre as plantações de banana. O grupo também estabeleceu um espaço chamado “Cozinha de Saydee”, do qual estão oferecendo refeições grátis duas vezes por semana, alimentando em torno de 100 jovens e também pessoas mais velhas. Mas o mais recente projeto anarquista é a “Mindsetbreaker Press and Distribution” (“Imprensa Destruidora de Paradigmas”), que é uma entidade anarquista de mídia independente, de publicação e distribuição de informação, alojados nas Filipinas, e estão procurando suporte e solidariedade através de seus esforços. Deixaremos que o/as companheiro/as da Mindsetbreaker Press falem sobre ele/as mesmo/as:

Descrição do Projeto

Mindsetbreaker Press deu início às suas operações no começo de 2010 enquanto um projeto individual cujo enfoque era principalmente, a tradução de literatura anarquista (em inglês) para línguas locais para que fossem mais aplicáveis e relevantes para o cenário político, social e econômico bastante complexo das Filipinas. Enquanto o tempo passa, a imprensa cresceu eventualmente em número após estabelecer uma colaboração pessoal com algun/mas amigo/as envolvido/as na rede social anarquista e em ativismo. A imprensa está agora funcionando pelos esforços de quatro pessoas que trabalham especificamente com campanhas de publicação e distribuição, além de outros projetos existentes que estão sendo conduzidos pelos membros.

Os membros atuais do projeto estavam envolvidos em diferentes projetos antes e atualmente, individualmente e coletivamente. Alguns administram centros sociais ou infoshops, fazem zines e publicações alternativas, organizando eventos radicais de trabalho de base e shows, protestos e manifestações, panfletando por campanhas, abrindo mercados livres e comida livre nas ruas, fóruns, organizando redes e hospedando sites informativos, trabalhando com comunidades (camponeses, pescadores e indígenas), lutando contra o capitalismo e contra o desenvolvimentismo estatal invasor (mineradoras, freeports, agronegócio, etc.). Essas ações têm sido conduzidas independentemente da intervenção estatal, dos negócios, da mídia burguesa, ONGs e instituições religiosas.

Dando uma olhadela

Desde que o país foi colonizado por interesses ocidentais, foram 300 anos de ocupação espanhola, invasão japonesa por um tempo, e mais tarde, influência estadunidense, possivelmente, seria simples o suficiente entender porque o arquipélago tem sustentado tal complicação que resulta na indiferença de perspectivas, prioridades e interesses entre a sua própria população. Além disso, é um país extremamente pobre acorrentado em dívidas; persuadido com o escárnio da mera sobrevivência. Os índices de pobreza, fome e corrupção são visivelmente muito altos. Da mesma forma, o conservadorismo e a influência religiosa (isto é, catolicismo) não é novidade. Então, a repressão diária pelo Estado (Forças Armadas das Filipinas e a Polícia Nacional das Filipinas) é violenta e descontrolada, direcionada para crimes insignificantes, exilados e insurgentes; a mídia cobre imagens de terrorismo e acusa diretamente pessoas inocentes de envolvimento com grupos guerrilheiros armados (esquerda maoísta) para justificar o assassinato legal. De modo geral, algumas pessoas podem ter observado isso como um efeito sem precedentes em função das coações econômicas que estão sendo impulsionadas e sentidas realisticamente todos os dias, levando à maiores injustiças e abusos insuportáveis.

Alvo e objetivos

O alvo do projeto é providenciar idéias radicais nas ruas e nas universidades, particularmente, conscientização contra-informacional e alternativa que nós sentimentos ser rica em diversidade e aberta para argumentos/discurso, como também para dar coerência à situação prática da localidade e do tempo. Isso se dá através da republicação de obras dos mais variados autores radicais que nós escolhemos, para então distribuir para as pessoas massivamente. Além disso, o principal objetivo do projeto, fora a republicação das obras de vários autores, é dar apoio a escritores anarquistas locais (individual e coletivamente) que estão lutando para fazer circular seus trabalhos em diferentes setores da sociedade (como por exemplo, estudantes, camponeses, povos indígenas, pescadores, vendedores, trabalhadores (empregados ou desempregados), squatters, mulheres e homens, gays, lésbicas, jovens, etc.), não se limitando apenas à subcultura e seu próprio meio. Também escolhemos alguns títulos escritos por companheiro/as locais que conhecemos, e um escritor está atualmente envolvido no projeto. Nós esperamos estabelecer redes, e aprofundar nosso conhecimento sobre as idéias anarquistas, suas esperanças, sonhos, e a sua prática, não só para determinadas pessoas, individuais ou agrupamentos, mas sim, diferentes setores da sociedade, inseridos na luta cotidiana pela sobrevivência. Isso nos inclui, nós mesmos, e não estamos acima de ninguém. Pouquíssimos títulos locais cobrem a história e a política das Filipinas baseados em perspectivas anarquistas contemporâneas. Esta distribuição regular de grandes quantidades de literatura anarquista nas ruas e nas universidades das Filipinas pode ser vista como a primeira vez que isso ocorre em sua história, visto que conseguir financiamento para impressão, às vezes é muito difícil. Idéias anti-autoritárias dificilmente alcançam uma grande diversidade de pessoas nos setores sociais em que está contida a classe trabalhadora. Necessidades básicas como comida na mesa é muitas vezes a principal preocupação de todo/as. A economia atual nunca será útil para garantir estas necessidades, e só proverá o povo com morte e destruição. Todos os recursos valiosos que providenciam a vida são roubados, monopolizados pelo capital através de acordos comerciais.

Atividades atuais

Após republicar a versão em inglês de “O que é anarco-comunismo”, nosso plano é fazer circular o texto em diversas universidades ao redor de Manila. Existem quatro diferentes universidades, como a Universidade Politécnica das Filipinas (PUP), a Universidade das Filipinas (UP) e outras escolas progressistas como “Ateneu de Manila” e Universidade Tecnológica das Filipinas (TUP). A PUP e a UP são conhecidas tradicionalmente por abrigarem idéias da esquerda autoritária, organizando estudantes em manufaturas para cegá-los à submissão da ideologia autoritária (Marxista e Maoísta). Isso é sempre perigoso e absurdo, visto que objetiva a derrubada do Estado existente para agarrar o poder com o pretexto da gestão e soberania proletária e nacionalismo para apenas facilitar que uma vanguarda governe o povo. “A Frente Democrática Nacional (NDF) se tornou o bloco mais influente entre a esquerda das Filipinas durante os anos da gestão Marcos. Foi diretamente influenciada pelo Partido Comunista das Filipinas (CPP), reforçado por seu grupo armado (O Exército das Novas Pessoas) que foi capaz de formar batalhões em diversas regiões estratégicas em Luzon, Visayas e Mindanao. O radicalismo demonstrado pelas organizações, que se iniciou com o CPP, atraiu diversos setores, principalmente os mais jovens” – Jornal Gasera.

Nós pretendemos distribuir 1000 cópias dos materiais publicados em cada universidade, e temos a esperança de que o/as estudantes se auto-organizem e atuem contra todas as formas de autoridade; mais especificamente, os calouros, visto que muitos veteranos eram socialistas autoritários mascarados com o objetivo de capturar suas mentes. Também ouvimos que existem organizadores que não estão lá para estudar, mas sim para organizar estudantes em tais linhas ideológicas.

Mais adiante ainda pretendemos traduzir Alexander Berkman em Tagalog. Esta é a língua comum falada no arquipélago, que muitas pessoas são capazes de entender ou falar. A versão tagalog de Berkman tem como enfoque de distribuição as pessoas que não estão confortáveis com o inglês e mais especificamente, os maiores setores sociais, as classes mais pobres e marginalizadas. Além de republicar literatura estrangeira, estamos muito motivados em produzir nosso material local e apoiar escritores locais com consentimento pessoal antes de conduzir seus trabalhos através do nosso projeto, enquanto uma entidade anarquista alternativa de publicação e distribuição. Existem 7 títulos finalmente aprovados após reuniões com o/as membro/as e o/as escritore/as locais que conhecíamos, e inclusive, um/ma dele/as hoje faz parte do projeto e escreve voluntariamente com regularidade. Os títulos que estão sendo aprovados incluem o “Jornal Gasera” (coleção de escritos anarquistas locais sobre história e política nas Filipinas), “Indokumentado #1″ (idéias autônomas, experiências, ativismo e o movimento no arquipélago), “Anarki: Akin ang buhay ko, Sosyal si Simo at si Sima” (perspectiva anarco-sindicalista), “Confederação do Arquipélago: uma alternativa na estrutura política para além da representação e das políticas de Estado”, “Punkista zine” (Subcultura punk e política) e “Mindsetbreaker zine” (documentação de diferentes lutas sociais e ecológicas, campanhas e ação nas Filipinas). Além disso, faremos nosso turismo informativo em diferentes escolas, levando nossos títulos enquanto principal tópico objetivando a abertura de discussões e conversações.

Enquanto uma entidade de publicação e distribuição de informações, nós mobilizamos e publicamos literatura através de fóruns de organização e conversação sobre cada tópico que abordamos, como história, política, anarquismo, etc. Inicialmente, o foco eram as escolas, a criação de eventos de conscientização e saraus literários. Queremos que o projeto seja de longo prazo, o quanto for possível, especificamente na questão da campanha de publicação e distribuição. Não há outra questão relacionada que queremos trabalhar senão a distribuição de conhecimento através das nossas jornadas nas diferentes escolas e universidades, levando a literatura que carregamos conosco, que inclui o livro inteiro de Berkman e os escritores locais, para suscitarmos discussões sobre estes pontos, experiências, e artigos. Também queremos encorajar tais escritores da região para continuar fazendo o que fazem, mesmo que muitas pessoas, às vezes se encontrem presas nas armadilhas do tempo e das condições econômicas.

Enquanto uma imprensa alternativa, estamos aqui para atingir abertamente diferentes pessoas e ampliaremos nossa ideologia não só para o âmbito da subcultura. Confiamos na possibilidade de nos tornarmos uma iniciativa vantajosa para manter as contribuições para outras pessoas de forma que elas mesmas possam começar a solidarizar. E isso não está apenas no plano das idéias, mas de ações que tenham como objetivo o apoio mútuo.

Nós acreditamos que tudo o que afeta nossas vidas esta interconectado, sejam as catástrofes sociais ou ecológicas que estamos enfrentando atualmente, em pequena ou larga escala, em sociedade, ou individualmente. Estes problemas não são nossa responsabilidade, mas sim das estruturas hierárquicas de dominação e ordem centralizada, mantidas pelo Estado e pela religião e moralidade; o espectro do capitalismo caminha através da ganância e do lucro e foi organizado, fundado, e então conduzido através das cinzas do mais impiedoso terrorismo e derramamento de sangue que muitas gerações sentiram, e que estão herdadas hoje de maneira cega.

Nós não acreditamos em fronteiras, e vamos continuar lutando intensamente contra elas, até sua total destruição, assim como continuaremos enfrentando o sexismo, a homofobia, o racismo e outras formas de opressão que foram criadas e precisam ser combatidas. Esta luta pode ser exteriorizada das nossas necessidades e desejos do dia a dia, para nos conectar com a sociedade ou com os questionamentos acerca da nossa situação, algo que só pode ser realizado através do combate das nossas convenções internas.

Atenciosa e problematicamente,

Imprensa e Distribuidora Mindsetbreaker

E-mail: mindsetbreakerpress@riseup.net

Endereço: Rua Ilaya E. Mendoza, 157, Cidade de St. Buting Pasig, Filipinas 1600

Para mais informações sobre a iniciativa da Cozinha de Saydee: http://saydeeskitchen.webs.com/

Tradução > Malobeo

agência de notícias anarquistas-ana

[Grécia] O silêncio não pode mudar o mundo. Solidariedade com os meios de contrainformação

Tuesday, September 27th, 2011

[A seguir texto do jornal de rua Ápatris e do meio de contrainformação independente Candia alternativa, sobre as ameaças contra a imprensa independente, motivadas pela última lei que remove o asilo universitário e a tentativa do Regime grego de suprimir o livre fluxo de idéias.]

O Poder, como uma praga que elimina, contamina tudo o que toca, e a obediência, o pesadelo de qualquer carisma, virtude, verdade e liberdade, torna as pessoas escravas, e o homem uma máquina. (Shelley)

Mais uma vez o Indymedia de Atenas e outros meios de contrainformação são transformados em alvo do Estado. Com a promulgação da nova Lei de Educação Superior e a eliminação do asilo universitário, volta o ataque contra o Indymedia de Atenas, as ameaças e frenesis (através da cantilena já degenerada que “se cometem infrações penais pelo site”) de uma potencial invasão no campus acadêmico que abriga o servidor, pelos conhecidos fascistas-fachas do partido televisivo LAOS (que votaram a favor desta lei, recebendo as graças da Ministra), declarando em seu programa de televisão – um bazar televisivo de seus livros nacionalistas e conspirativos – que: “a primeira coisa que vamos fazer agora que eliminou o asilo universitário é que entre a Polícia da Escola Politécnica Superior para desmantelar o Indymedia“.

A única coisa que eles merecem em resposta é que “quem ri por último ri melhor”. A questão não é se o Indymedia está em perigo ou não, mas que com métodos fascistas como este estamos correndo perigo como sociedade de começar a “medir nossas palavras” e ter cuidado com o que dizemos, então, se a nossa crítica afeta o Poder de alguns poucos e poderosos, corremos o risco de conseqüências imprevisíveis para a nossa liberdade individual.

Na verdade, este é o verdadeiro propósito da recente consulta do Ministro da “Justiça” M. Papaioannu e dos ex-promotores do Ministério Público Sanidás, Katsirodis e Tentes a respeito da extensão de levantar o anonimato das comunicações para os blogs e sites de opinião, bem como para delitos fora do campo criminal. A mensagem está enviada: “Cale a boca e baixe a cabeça, se não, a Lei está à espreita”.

Estamos chegando ao cúmulo da injustiça: quem cometeu uma injustiça o passa bomba, e aqueles que foram injustiçados, que certamente não queria cometer qualquer injustiça, são levados a indignação. Sua “democracia” em relação ao livre fluxo de idéias termina onde começa a prejudicar os interesses do Estado e dos patrões. Quando a informação fica fora de seu controle, se recorre à repressão direta ou indiretamente, para a delimitação desta “liberdade”. Uma limitação sistêmica, feita pelo Regime, que sempre entra em conflito com a liberdade exigida pelos rebeldes e os oprimidos de hoje.

Desde um ano e meio, vemos o strip-tease do Estado e a implementação das políticas neoliberais mais radicais, com o pretexto da crise econômica. O Estado se livrar de tudo, exceto a repressão, a sua roupa mais pessoal e preciosa. O Estado, que é baseado na repressão – em qualquer grau necessário para sua sobrevivência – determina o que é legal. Com base nas suas próprias leis pode legitimar o genocídio de seu próprio povo, se este está se rebelando contra ele, como foi visto nos distúrbios árabes recentes.

Estamos preparados para o que pode vir a acontecer, bem como para a ruptura definitiva com o sistema. Todos nós sabíamos que chegaria o momento em que a repressão do Estado atingiria o seu pico, mas não nos aterrorizam. Esbirros do governo, funcionários do império do dinheiro, podem destruir tudo, mas não conseguem convencer ninguém. Onde a inteligência é humilhada, as pessoas devem restaurar – começando com suas negações – pelo menos um pouco da dignidade da vida, frente à morte espiritual.

Já há alguns meses as pessoas levantaram-se do sofá, foram se reunir nas praças, os estudantes ocuparam as universidades, os trabalhadores estão se preparando para novas greves e o aumento do desemprego leva os jovens às ruas. Não temos medo de uma tentativa de silenciar um meio de informação, e se alguma coisa nos coloca em estado de alerta é o ataque constante que estamos recebendo a cada dia como sociedade, um ataque ao limitar os nossos direitos e de repressão a nível individual e coletivo. A sociedade que exige igualdade de direitos e de riqueza, uma sociedade em que o princípio da autoridade será abolido, tem o direito de não permitir qualquer ameaça ou intimidação, seja em nome de uma idéia, uma instituição ou de supostos interesses de todo o resto, e exatamente estes direitos são os que estamos defendendo.

E se nos tiram a voz, sempre haverá as palavras.

Solidariedade com o Indymedia Atenas e com todos os meios de contrainformação. Nossas vozes não podem ser encarceradas, a nossa palavra não pode ser suprimida!

Heraklion, Ilha de Creta, setembro de 2011.

Ápatris, Jornal cretense de rua

Candia Alternativa.info, Espaço de contrainformação independente, na Ilha de Creta

http://apatris.info/

http://candiaalternativa.info/

agência de notícias anarquistas-ana

O céu, que é perfeito,

andou jogando em seus olhos

o dom do infinito.

Humberto del Maestro

Dourados/MS – Círculo de Estudos Anarquistas

Wednesday, March 10th, 2010

Convidamos a todos, para que no dia 11 de abril, domingo, às 15 horas, participem do primeiro encontro do “Círculo de Estudos Anarquistas”, na Unidade I da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), com texto-base no capítulo ‘Anarquismo Social, Luta de Classes e Relações Centro-Periferia’, extraído da obra ‘Anarquismo Social e Organização’ da FARJ (Federação Anarquista do Rio de Janeiro).

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Post-Scriptum: Anarcopunk, a F.L.A. e a Greve dos Mineiros – Um Conto Preventivo dos Anos 1980

Friday, July 3rd, 2009

Retirado de Beasts of Burden: Capitalism – Animals – Comunism. Antagonism Press, 1999.

… Este relato do movimento através do anarcopunk até a política de classe nos anos 80 é baseada em nossas próprias experiências. Nós acreditamos que é válido conversar sobre isso porque também é relavante para outros tempos e situações. Questões sobre animais e o ambiente são frequentemente associadas com as chamadas cenas “contra-culturais”, e tendem a ser esquecidas quando as pessoas se engajam com políticas radicais mais tradicionais. Nós podemos ver paralelos com a maneira com que um número significante de “hippies” politizados foi absorvido pela Internacional Socialista (agora a SWP) e grupos similares no fim dos anos 60/começo de 70. Hoje, com números de protestantes anti-estradas adotando ou se movendo em direção a posições comunistas, também serve para apontar os erros que foram cometidos pela geração do início dos anos 80. Adotar análises comunistas, pode ser um passo adiante, mas não se isso significa abandonar o que já era subversivo em sua atividade.

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Contra todas as falácias ambientais que os políticos de turno tentam nos impor

Thursday, May 28th, 2009

Durante o “MegaPolo Cubatão 2009 – Fórum para o Desenvolvimento do Pólo Industrial de Cubatão”, realizado na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital, e em entrevista ao jornal “A Tribuna”, da Baixada Santista, do dia 15 de maio, no Caderno Indústria, sob o título “Vamos mostrar que a Cidade é um mar de oportunidades”, a prefeita de Cubatão, Marcia Rosa (PT), disse: “Os problemas de poluição industrial foram superados” [em Cubatão]. Será?

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[EUA] Contra a Guerra, Contra o Terrorismo

Thursday, May 28th, 2009

Surpreendeu-me, muito, quando outro dia no Wikileaks, um sítio da internet que anonimamente publica documentos do governo, vi meu nome mencionado na “Avaliação de Ameaça Terrorista” de Virginia. Sob o título “Extremistas Anarquistas”, estou identificado como um anarquista extremista! Nós, “extremistas anarquistas”, estamos no topo da lista na ameaça de terrorismo doméstico na cidade de Virginia, bem acima dos grupos de supremacia branca que têm, até mesmo, assassinado pessoas. …

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[Espanha] A rebeldia é a penúltima doença inventada

Saturday, May 16th, 2009

O medo induzido e seus efeitos colaterais são conhecidos de longe. Nestes dias comprovamos com o “pânico global”, pela difusão da gripe que de início foi noticiada como suína, e agora é tipo A. Durante os últimos anos os laboratórios farmacêuticos estão dedicando grandes esforços para expandir enfermidades que não são, ou que não tem a importância que deve. Esse fenômeno é conhecido como disease mongering, tráfico ou venda de doenças. O objetivo é deixar o mundo todo medicado para algo: o conceito de doença está sendo a cada dia modificado, para com isso abarcar a maior quantidade de pessoas que sejam catalogadas como “doentes”, mesmo que não estejam, obviamente. Algumas doenças inventadas são absurdas, mas hoje vamos falar da mais pitoresca dentre as “novas enfermidades”: a rebeldia. Sim, a rebeldia também é uma doença!

Um dos laboratórios interessados em vender um remédio – metilfenidato (Concerta)- para esta gravíssima patologia explica na web, criada expressamente para promover o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que entre os transtornos presentes junto ao TDAH, está o Transtorno Oposicionista Desafiante (TOD). O que na realidade, nos parece uma embromação. O TOD foi incluído pela primeira vez no manual DSM III-R. Este é o livro que atua como uma “Bíblia” da psiquiatria. Segundo a farmacêutica citada, o Transtorno Oposicionista Desafiante:

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